Levantamento mostra que número de casos de Covid-19 no Alemão pode ser 500% maior

Diego Amorim
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Morro do Adeus, comunidade do Complexo do Alemão (20.12.2019)

Levantamento feito pelo jornal Voz das Comunidades mostra que o número de casos de Covid-19 registrados no Complexo do Alemão é cerca de 500% maior do que o contablizado pela prefeitura. Até esta quarta-feira, dados coletados pelo portal junto a clínicas da família apontam 35 casos da doença, com 14 óbitos. Já a prefeitura contabiliza apenas seis. Líderes comunitários e ativistas acreditam que vítimas de algumas comunidades estariam registradas como residentes de bairros vizinhos. As informações encontram-se no aplicativo gratuito criado pelo portal.

— Muitas pessoas estão com todos os sintomas, e não foram testadas. O registro de óbitos cresceu muito, principalmente de mortes em casa. O número de casos é maior do que vem sendo divulgado, muitos não entram nas estatísiticas oficiais. A chance de alguém contrair a doença no Alemão e entrar como Bonsucesso ou Ramos, por exemplo, é muito grande — afirma Renê Silva, fundador do "Voz das Comunidades".

Renê conta que o levantameto consulta dados da própria prefeitura, do governo estadual e de várias unidades de saúde que atendem moradores dessas comunidades do Rio, como a Clínica da Família Zilda Arns, no Alemão; Clínica da Família Pavão-Pavãozinho e Cantagalo; Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria - ENSP, em Manguinhos; e Clínica da Família Maria do Socorro Silva e Souza, na Rocinha.

— Nós atualizamos os números com as unidades de saúde locais, que nos passam as confirmações. Esses dados vão todos para o aplicativo Voz das Comunidades, que surgiu para combater a desinformação sobre a Covid-19. É um projeto construído em parceria com o Consulado dos Estados Unidos, que tinha um orçamento e buscava uma ferramenta assim.

Além do Complexo do Alemão, a realidade é grave na Rocinha, com 133 confirmações e 46 óbitos em decorrência do coronavírus. O ativista e mobilizador social William de Oliveira acredita que esse número ainda pode triplicar na comunidade da Zona Sul nas próximas semanas.

— Temos uma relação de muitas mortes suspeitas de Covid-19 mas que não foram feitos exames, ficaram subnotificadas. Vivemos nossa realidade, e o poder público tem a realidade deles. Da mesma forma que as autoridades apontam uma população de 100 mil habitantes, e nós sabemos que já são quase 200 mil morando na Rocinha. São duas discrepâncias que distorcem a realidade — afirma o líder comunitário.

Para tentar identificar prováveis casos de subnotificação nos sistemas de informação , o aplicativo Voz das Comunidades lançou também um questionário digital. Nele, o usuário informa, por exemplo, o CEP, os sintomas e se teve contato com vítimas da doença. A ideia, segundo os organizadores, é dar voz a quem possa estar "invisível" na pandemia.

Segundo o levantamento, são 607 confirmações de Covid-19 nas favelas do Rio e 174 mortes por coronavírus até a última quarta-feira. Para se ter uma ideia, os óbitos contabilizados superam os registros de 15 estados brasileiros até a mesma data. A ferramenta também contabiliza os recuperados, que chegam a 389 nas comunidades.

— Na clínica da família temos, oficialmente, nove óbitos e duas pessoas recuperadas.Mas acreditamos que tenham dezenas de contaminações na comunidade, muitas vezes os casos de Covid-19 não são informados até mesmo pelo preconceito dos próprios moradores. O que preocupa são as festas que ainda acontecem e o descuido com o uso das máscaras — destaca Ana Muza Cipriano, jornalista do PPG Informativo, que mora nas comunidades Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, na Zona Sul do Rio.