Levantando a voz contra o racismo, Salgueiro canta a resistência com desfile de ativistas e intelectuais negros

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A “Resistência” carioca será o fio condutor do enredo do Acadêmicos do Salgueiro, terceira escola a desfilar nesta primeira noite do Grupo Especial carioca. Com punhos cerrados, o carnavalesco Alex de Souza pretende contar na Marquês de Sapucaí a luta do povo preto contra o racismo e pela preservação de sua história e sua religiosidade. E virá repleta de convidados, com cerca de 170 ativistas, artistas e intelectuais negros, além de um grupo de 20 refugiados, de cinco nacionalidades diferentes, que moram no Rio, através de uma parceria entre a agremiação e a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). O grupo reúne pessoas vindas de Angola, Marrocos, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela.

Conhecida por seus enredos com temática afro, 18 ao todo, a vermelho e branco da rainha de bateria Viviane Araújo, que desfilará grávida, mostrará como a formação identitária do carioca foi forjada por meio das marcas culturais deixadas por escravizados oriundos da África.

– O Salgueiro vai mostrar diferentes histórias de resistência dentro do Rio de Janeiro e nas cidades limítrofes. Abordaremos questões religiosas e territórios onde a cultura negra resiste até os dias de hoje. O interessante é que faremos uma grande viagem pelo Rio, passando por todas as regiões, e vamos ao longo do tempo mostrando situações e localidades por toda cidade, seja na dança, na literatura, na fé, na música, além de uma homenagem ao próprio Salgueiro que sempre deu destaque à negritude – explica o carnavalesco.

A escolha do enredo veio no início da pandemia, após a comoção mundial com a morte do americano George Floyd, assassinado por um policial branco, e os protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Elaborado pelo Departamento Cultural da escola, o enredo tem a chancela da Professora Helena Teodoro, uma mulher preta, escritora e ativista.

No último carro haverá um dos momentos marcantes: numa encenação, um obelisco com a palavra "racismo" será derrubado na Sapucaí.

No Salgueiro desde 2018, Alex promete um desfile mais a “cara do Salgueiro”.

– Vamos levar a estética salgueirense, a arte africana geometrizada, com menos cores e valorizando mais o vermelho e branco da escola. Vamos priorizar o visual salgueirense quando se trata de enredos negros, desde os tempos de Pamplona e Arlindo Rodrigues, que acabou se tornando uma marca da escola. Personalidades que fizeram a história do Salgueiro e desfiles memoráveis também farão parte deste enredo de resistência. Será emocionante – disse Alex.

Mesmo com todas as dificuldades que a pandemia impôs, principalmente com a escassez de materiais, o carnavalesco contou que está muito confiante no projeto, que também mostrará o surgimento do samba, mostrando os quilombos cariocas, a Pequena África e a Pedra do Sal. Estão representados ainda a religiosidade, as irmandades católicas e as reuniões dos negros para a criação de sua própria religião, os santos negros e a chegada do candomblé no Rio de Janeiro, o surgimento dos blocos, do funk e do charme.

Sem vencer desde 2009, mas sempre presente nos desfiles das campeãs, a escola da Zona Norte pretende fazer um grande desfile.

– Estamos nos preparando para fazer um grande carnaval, um desfile que vai emocionar o salgueirense, vamos iniciar com o Salgueiro e terminar com o Salgueiro como símbolo de resistência. Espero que o público, a crítica e os jurados consigam entender a mensagem. Estamos trabalhando intensamente para que tudo saia perfeitamente e que a gente possa levar o título para o Salgueiro – diz Alex.

Terceira escola a se apresentar na Marques de Sapucaí, na sexta-feira, 22 de abril, o Salgueiro cantará o samba de autoria dos compositores Demá Chagas, Pedrinho da Flor, Leonardo Gallo, Zeca do Cavaco, Gladiador e Renato Galante.

Autores: Demá Chagas, Pedrinho Da Flor, Leonardo Gallo, Zeca Do Cavaco, Joana Rocha, Gladiador, Renato Galante.

Intérpretes: Emerson Dias e Quinho do Salgueiro

Um dia meu irmão de cor
Chorou por uma falsa liberdade
Kaô Cabecilê, sou de Xangô
Punho erguido pela igualdade
Hoje cativeiro é favela
De herdeiros sentinelas
Da bala que marca feito chibata
Vermelho na pele dos meus heróis
Lutaram por nós contra a mordaça
Ê, mãe preta, mãe baiana
Desce o morro pra fazer história
Me formei na Academia
Bacharel em harmonia
Eis aqui o meu quilombo, escola

Ê, Galanga, ê… Rei Zumbi, Obá
Preta aqui virou Rainha Xica
Sou a voz que vem do gueto
Resistência no tambor
Pilão de preto velho eu sou

No Rio batuqueiro
Macumba o ano inteiro
Não nego meu valor, axé
Gingado de malandro
Kizomba e capoeira
Caxambu e jongo, fé na rezadeira
Tempero de Iaiá, não tenho mais, sinhô
E nunca mais, sinhá
Sambo pra resistir
Semba meus ancestrais
Samba pelos carnavais
Torrão amado o lugar onde eu nasci
O povo me chama assim

Salgueiro… Salgueiro…
O amor que bate no peito da gente
Sabiá me ensinou: sou diferente

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