'Levo com tranquilidade, o samba não tem fronteiras', diz rainha do carnaval após polêmica por ser paulista

Diego Amorim e Jussara Soares

RIO e BRASÍLIA - Majestade louvada por suas passagens pelo Sambódromo e pelo Anhembi, a atriz e dançarina Camilla Silva, de 33 anos, conquistou o título de rainha da folia carioca no último domingo. O sotaque paulista que invadiu a corte do carnaval têm gerado críticas nas redes sociais, mas é com tranquilidade que a ex-rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel e da Vai-Vai rebate os seus detratores:

LEIA: Jogo dos sete erros da abertura oficial do carnaval— A resposta está aqui: a coroa na minha cabeça. Eu realmente levo com tranquilidade, o samba não tem fronteiras. Somos sambistas, somos todos apaixonados pela maior festa popular e cultural do mundo. A união é a melhor forma de prosperar, e com o carnaval não é diferente. Vamos em frente com paz e foco no carnaval — afirma Camilla. — No decorrer do concurso já diziam: "ah, ela é paulista". Tive esse preconceito por uma minoria, e ele segue mesmo após ter ganhado, mas só dessa minoria.A contestação à Camilla começou quando decidiu se inscrever para o concurso. Com a carreira iniciada aos 7 anos como passista mirim de uma pequena escola da Zona Leste de São Paulo, o currículo da beldade é considerado por alguns críticos maior que o próprio concurso: rainha do carnaval paulistano em 2009, 11 anos à frente da bateria da Vai-Vai e quatro vezes rainha da Mocidade (2013, 2017, 2018 e 2019).

— As pessoas diziam que eu não precisava disso (a corte do Rio). Elas enaltecem a rainha de bateria e menosprezam o concurso da corte. Deveria ser o contrário, né? Embora muitas pessoas tenham se assustado com a minha decisão, foi algo, para mim, bem natural. Queria continuar a fazer parte dessa festa de uma maneira que eu pudesse retribuir todo carinho e respeito que sempre tive do povo carioca. E vi no concurso essa forma de trocar energias e sentimentos com os sambistas do Rio.

A decisão de disputar o título no Rio seguiu-se do desligamento dela do cargo de rainha da escola de Padre Miguel e da Vai-Vai após o carnaval de 2019. Pouco antes, ela também havia terminado o relacionado com o ex-marido Darly Silva, o Neguitão, ex-presidente da escola paulistana, e se fixou definitivamente em Botafogo, na Zona Sul. A nova rainha disse que estabeleceu a disputa da corte como um desafio pessoal na sua vida.

— O ano de 2019 foi complicado para mim. Quando fui participar do concurso, foi bem pesado pelas críticas. Não foi fácil o dia a dia, a preparação psicológica, (havia) fofoca, gente que quer te desestabilizar. Então, foi questão de honra. Tive muita ajuda do povo com palavras e energias positivas. Mas tomou proporções maiores, e pude ver a torcida de todos os cantos do Brasil. Confesso que não esperava, mas fico extremamente agradecida por todas as manifestações dos sambistas.

LEIA:Ombreira, garrafas de Gim e cachaça de sabores: confira as novidades entre os foliões do carnaval carioca para 2020Após ganhar o título, Camilla foi às redes sociais agradecer."Do povo para o povo! Essa coroa eu conquistei por vocês", escreveu. No Instagram, ícones do carnaval a elogiaram. Entre elas, a atriz Viviane Araújo, rainha do Salgueiro, e Raíssa de Oliveira, da Beija-Flor. "Rainha que amamos", escreveu a apresentadora Sabrina Sato, rainha da Vila Isabel e Gaviões da Fiel. O perfil de humor "Sambistas da Depressão", saiu em defesa de Camila: "Camila Silva é rainha do carnaval carioca, e o resto é bairrismo."— Eu sou do povo. É o povo que me dá essa fama toda, quem fez o nome Camilla Silva foi povo. Eu não fiz nada sozinha. O carnaval do Rio tem se mostrado cada vez mais engajado e consciente. Espero unir a alegria e devoção do nosso povo pelo carnaval, com a dedicação vinda das comunidades para mostrar ao mundo que o samba resistirá sempre.

VEJA:Gastos com blocos de carnaval chegam a R$ 35 mil e podem movimentar R$ 4 bilhões na economia do Rio de JaneiroComo rainha do carnaval, Camila não poderá desfilar como musa da Paraíso do Tuiuti. Entretanto, poderá conciliar com o posto de rainha de bateria da Unidos dos Morros, no pré-carnaval de Santos. Mesmo sem visibilidade midiática, ela não abre mão de prestigiar a escola.— Sambistas de verdade querem participar da festa, não importa se é rainha, musa.Não importa o cargo ou onde, só queremos estar na festa.