As lições de 2020 para os investidores: veja como organizar as suas finanças

Patricia Valle
·7 minuto de leitura

O ano de 2020 vai ser lembrado como uma das grandes crises econômicas e financeiras, e os investidores que passaram por ele viram como é navegar em meio a incertezas. Muitos começaram a investir em ações neste ano e se viram no meio de seis circuit breaker, paralisação de negociações da Bolsa, em março. Alguns perceberam que não deveriam ter tomado tanto risco, outros viram que deveriam ter mais dinheiro guardado como reserva de emergência ou que a carteira não estava tão diversificada quanto imaginado. Para os especialistas de finanças, os investidores precisam refletir sobre como lidaram com as oscilações e imprevistos de 2020 para aprender como investir daqui para frente.

O conceito de reserva de emergência foi posto a prova no ano, mostrando que o pior cenário pode vir a acontecer e é preciso estar preparado para ele. Rosaura Adiala Rosa, 66 anos, designer de interiores se viu sem nenhum cliente inesperadamente. Um imóvel que tem para complementar a sua renda ficou vago com a crise, e ainda passou a gerar custos. Viu seus investimentos irem para o negativo e se agarrou a sua reserva de emergência para cobrir seus custos.

— Eu tenho investimentos diversificados, como recomendado, mas as coisas não saíram como planejado. Pelo menos eu tinha uma reserva de emergência que usei e não precisei regatar investimentos que despencaram. A gente achava que não sabia de nada, mas agora a gente tem certeza. Tudo pode acontecer.

Para o educador financeiro e autor de livros sobre o tema, Gustavo Cerbasi, o ano mostrou a importância de equilibrar os investimentos para o curto, médio e longo prazo:

— Para mim este ano será um dos mais importantes da nossa geração para mostrar que é importante primeiro ter uma reserva de emergência, para depois investir no longo prazo para uma aposentadoria e separar uma terceira parte para planos de médio prazo. Se usar um dinheiro para outra coisa há chances de perder muito e até mesmo não ter liquidez.

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Os especialistas em finanças pessoais afirmam que é imprescindível ter de seis a 12 meses de gastos mensais em aplicações com liquidez diária — quanto menor a estabilidade no emprego e mais a renda é variável, maior deve ser a reserva.

Aplicações indicadas para manter esse dinheiro são os títulos públicos Tesouro Selic, CDB de liquidez diária ou um fundo DI com taxa de administração zero ou próxima disso . Todos tem opções de aplicações no mercado em torno de R$ 100. No entanto, com a taxa de juros em baixa (2% ao ano), essas aplicações não estão rendendo acima da inflação, mas cumprem o objetivo principal de proteger o patrimônio e estar disponível .

— A reserva é fundamental para tirar a ansiedade e atravessar momentos de incerteza — afirma Silvio Fleury da Ativa investimentos.

Para ter mais rentabilidade, pode-se juntar com opções de prazo determinado.

— Uma estratégia pode ser deixar de três a seis meses em liquidez diária e o restante em aplicações de baixo risco com o mesmo prazo de vencimento, como LCI/LCA e CDB ou fundo de renda fixa. Se não usar reinveste — afirma Sandra Blanco, estrategista chefe da Órama.

E na tentativa de ganhar mais rentabilidade depois da queda dos juros, muitos investidores foram para o risco sem estar preparados para isso e sem ser o seu perfil de investimento. O medo e impaciência levou muita gente a sacar o dinheiro de aplicações em renda variável no pior momento e a realizar grande prejuízo.

— A principal lição é identificar o seu perfil de investidor e ver o apetite de risco. O momento estável levou pessoas a mais riscos, mas que não deviam estar lá. É preciso entender até que ponto está apto a conviver com volatilidade e saber o tempo que o dinheiro pode estar investido. Para o curto prazo não ter o risco e, por isso, não adianta ficar olhando o mercado todo dia – afirma Sylvio Fleury, diretor de relações com o mercado da Ativa.

A aposentada Sonia Cristina Moreira Cardoso, 53 anos, resolveu arriscar para ter mais retorno neste ano e teve que aprender a lidar com a oscilação do mercado.

— Sempre fui conservadora, mas recebi um dinheiro neste ano e tentei ser mais agressiva para ter mais retorno, porque os juros estão muito baixos e apliquei em bolsa e fundos multimercado. Cheguei a perder muito dinheiro e fiquei desesperada porque não sabia o que fazer. Passei muito mal, muito nervoso. Eu olhava todo dia e todo dia estava menor. Desespero.

Para a especialista em psicologia econômica e financeira, Vera Rita Ferreira, quem ficou no prejuízo não deve desistir, mas analisar o que aconteceu para evitar os mesmos erros:

— O momento é de sacudir a poeira e dar a volta por cima. Levar as perdas como aprendizado, porque pandemias e grandes catástrofes não vão deixar de acontecer. Quem não está acostumado deve investir em risco via fundos, porque sempre vamos agir com um viés psicológico com o nosso dinheiro. Também é preciso tomar cuidado, porque pessoas decepcionadas com a perda e que agora vem o mercado subir estão suscetíveis a golpes e a acreditarem em retornos milagrosos.

Os riscos estão em qualquer lugar. Este ano, o investir viu que mesmo a renda fixa está sujeira a volatilidade dos mercados. O Título público Tesouro Selic chegou a ficar negativo ou no zero a zero alguns meses e fundos de renda fixa desabaram.

— A renda fixa é tida como conservador e é comparado a outros investimentos. Mas não significa que não tem risco se fizer um resgate antecipado, e o investidor aprendeu o que é a marcação a mercado. Se ficar até o vencimento, nada muda —afirma Sandra Blanco, estrategista chefe da Órama.

O jeito para diminuir os riscos que podem acontecer é diversificar as aplicações em todas as classes de ativos e inclusive em outros países.

— Sempre vão ter eventos que podem impactar nos investimentos. E por isso, é importante não estar exposto só apenas a um risco. Vimos este ano que cada país está reagindo diferente a esta crise. E hoje a diversificação internacional está ao alcance do pequeno investidor — diz Ana Laura Magalhães, sócia da XP e especialista em investimentos.

E quando os choques acontecerem pode ser uma oportunidade de investir no que ficou barato. Quem teve sangue frio e investiu na bolsa em março, quando ela desabou, teve um retorno de cerca de 60% no ano. Para quem não tem, quem esperou pelo menos está agora vendo um retorno.

— Agora em dezembro é que reverti as perdas e voltei a ficar no azul. Valeu a pena esperar e manter o dinheiro. Agora é esperar para um ano melhor. Vou manter a mesma estratégia, mas agora se acontecer algo assim de novo estarei bem mais preparada. Uma hora passa – avalia Rosaura Adiala Rosa.

Muita gente está terminando o ano no negativo e não quer mais saber de investir em risco. Mas, na verdade, é preciso entender o que deu errado e se há maneiras de diminuir o medo, mas sem se arriscar além da conta do que pecar pela autoconfiança.

— O grande problema é a autoconfiança exagerada, que leva a achar que vai sair do investimento na hora certa. E não é isso o que acontece e depois é difícil sair do buraco — afirma Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e financeira e autora dos primeiros livros sobre o tema no Brasil.

E acima de tudo, buscar informações para saber como investir melhor de acordo com o seu perfil.

— O medo é importante na hora de investir. Mas não é para vencê-lo com coragem, mas com informação. Se está desconfortável em investir em algo, busque informação. Não desperdice esse aprendizado do ano, mas reflita o que pensou ao aplicar. O mais difícil já passou, que foi a perda. Agora é aprender com o que passou – afirma Gustavo Cerbasi.