Lições de ‘Spotlight’ e ‘A Grande Aposta’ para jornalistas e não jornalistas


Um amigo descreveu, tempos atrás, sua angústia com uma certa deturpação do exercício jornalístico nos tempos atuais. Na ânsia de se destacar na profusão de informações, rápidas, fragmentadas e compartilháveis, muitas vezes caímos na tentação de usar a ferramenta de apuração para antecipar eventos. É quando o jornalismo se confunde com previsão do futuro. Hoje mesmo o mais bem informado profissional incorrerá o risco de dinamitar o próprio diploma se cravar previsões sobre se, por exemplo, Dilma Rousseff terminará ou não o mandato – e se o arquirrival Eduardo Cunha cairá, se é que cairá, antes ou depois dela.

Para não confundir o ofício com astrologia, é preciso se ater a uma verdade inconveniente: o jornalista é, antes de tudo, um refém do passado e do presente. Cabe a ele noticiar o que aconteceu e/ou está acontecendo, o que não significa ser um mero reprodutor de relatório. É a forma como interpreta o contexto que permite não antecipar, mas reconhecer uma tendência.

A tarefa nunca foi fácil, mas se tornou ainda mais complexa num mundo virtual em que qualquer um pode se transformar em vetor de uma informação – muitas vezes, falsa, incorreta ou incompleta. Basta um passeio pelas redes ou uma conferida nos grupos de WhatsApp para perceber a quantidade de bobagens despejadas por aí sem qualquer exercício de apuração, desconfiança, contraponto – pilares do trabalho jornalístico, tantas vezes dado como morto nas mesmas redes, e tantas vezes confortável no ponto morto.

Na lista de indicados a melhor filme do Oscar, a quebra deste ponto morto é o pano de fundo de ao menos dois concorrentes. Um, obviamente, é Spotlight – Segredos Revelados, filme de Tom McCarthy sobre a editoria de jornalismo investigativo do The Boston Globe que revelou, em uma série de reportagens, como a Igreja Católica fez vista grossa, durante anos, a milhares de casos de pedofilia pelo mundo. Outro filme, A Grande Aposta, de Adam McKay, não é diretamente relacionado a jornalismo, mas a um trabalho de apuração por essência.

Em ambas as histórias, todos dormiam em ponto morto até que alguém desconfia de algo podre no reino dos contentes.

Num caso, foi necessária a chegada de um novo editor ao jornal para perceber o que poucos haviam se dado conta até então: os casos de abusos de padres não eram isolados e não operariam sem contar com uma rede criminosa de acobertamento entre advogados e a cúpula da igreja.

No outro, um administrador de um fundo de investimento começa a desconfiar de índices de inadimplência no mercado de hipotecas americano. Os dados apontavam para o que ninguém, até então, ousava pensar em voz alta: aquela bolha estouraria a qualquer momento.

Tanto num caso como no outro dizer o óbvio era arrumar uma briga contra o senso comum e a anestesia das frases-feitas a respeito da segurança do sistema. Na contracorrente estavam toneladas de entulhos de nossa letargia: “Ninguém vai se interessar por essa história”; “Não vale a pena comprar briga com uma instituição tão poderosa”; “Não vai dar em nada”; “Você está vendo coisas”.

Entra aqui a segunda virtude do exercício de apuração: o controle da ansiedade. Nesse exercício, é preciso amarrar todos os pontos antes de formar uma decisão – o que significa esperar dias, semanas, meses ou anos para que a suspeita se transforme em fatos e não o contrário.

Em ambos os filmes, quando a pulga já coçava até a medula, os protagonistas decidiram ir a campo, em vez de sair gritando, para cumprir um exercício simples: observar, na ponta da cadeia de eventos, longe dos boletins e declarações oficiais (hoje concentradas nas redes), os indícios de que uma tragédia estava acontecendo.

Em A Grande Aposta, isso acontece quando os agentes financeiros pegam estrada para conhecer de perto a situação dos americanos comuns enrolados até a alma em um sistema de crédito fácil, farto e podre. Ou quando os repórteres da Spotlight transformam uma pauta delicadíssima em um grande exercício de escuta, mesmo quando todos ao redor atribuíam às vítimas de abuso e seus advogados a pecha de loucos ou aproveitadores – ou quando as próprias vítimas recebiam as abordagens aos gritos e pontapés. A certa altura do filme, a repórter católica interpretada por Rachel Mcadams, indicada a melhor atriz coadjuvante, chega a duvidar da própria fé. Trata-se de um dilema comum entre crenças, ofício e vocação - que muitas vezes não se conversam.

O trabalho de apuração, portanto, é um trabalho de desconfiança, frieza, paciência e também de desencanto e desconstrução. Não é fácil furar o coro dos contentes quando tudo conspira a favor da normalidade. Sem a compreensão do contexto, é cada vez mais difícil relacionar eventos. Eis o grande desafio hoje de jornalistas responsáveis por identificar fatos que parecem envelhecer antes de serem anunciados como novidade. Eis o desafio de todo profissional atento - sobretudo os responsáveis por avaliar riscos.

Em toda tragédia, caso dos abusos tolerado por décadas (séculos?) pela cúpula da Igreja ou da espoliação do trabalhador comum em nome do sonho da casa própria, há sempre uma corrente bem articulada, e bem paga, para dizer que está tudo bem. E observadores desconfiados sendo chamados de alarmistas ou malucos. 

Nessas horas é bom reparar nas rachaduras, tímidas e desimportantes das grandes barragens que um dia se rompem levando tudo o que aparece na frente. O resto é futurologia. Ou alarme falso.