As lições e os novos desafios da China para enfrentar o coronavírus

Ana Lucia Azevedo

A China, que anunciou não ter registrado nenhum caso local de Covid-19 nesta quinta-feira, é o único país neste momento a ter lições para dar sobre a pandemia. Em menos de dois meses, o país saiu de epicentro a exemplo na pandemia. A Itália, cujo número de mortos ultrapassou o da China, mostra tudo o que não se deve fazer.

A primeira lição chinesa é: fique em casa. Em 23 de janeiro, a China isolou e pôs em quarentena totalmente Wuhan e sua província, Hubei. Depois, colocou 760 milhões de pessoas, aproximadamente a metade da população do país, em quarentena.

Antes da quarentena, a taxa de transmissão era de dois novos casos para cada infectados. De 16 a 30 de janeiro, passou para 1,05, segundo cálculos da London School of Medicine.

Mesmo que muitos casos não tenham sido detectados, as medidas funcionaram. À revista "Nature", epidemiologistas da Universidade de Oxford disseram que as providências chinesas foram eficazes ainda que o número real de casos na China tenha sido até 40 vezes maior, o que é improvável.

Quanto mais restritivas e velozes as medidas, melhor o resultado. Cidades que proibiram qualquer tipo de aglomeração, fecharam tudo o que não era essencial e suspenderam o transporte público tiveram 37% menos casos. Os dados são de 296 cidades chinesas.

Já as restrições de viagens internacionais foram consideradas menos efetivas e não teriam tido qualquer impacto se não fosse feito o distanciamento social radical.

Uma revisão de estudos publicada pela “Nature” indica que a detecção precoce com testagem e o isolamento foram os fatores mais importantes. Sem eles, a China teria cinco vezes mais casos.

Em Cingapura, a testagem maciça funcionou. Para muitos países, como o Brasil, isso não é viável neste momento. Quarentena em massa é.

A China enfrenta agora o desafio de saber quando afrouxar as normas de distanciamento social. Parte de sua população não tem imunidade justamente como efeito colateral de seu sucesso no controle. O vírus poderia voltar com força, trazido de países onde a pandemia avança.

O infectologista americano Michael Osterholm destaca que a China suprimiu o vírus, mas não o erradicou. O mundo terá que esperar ainda por volta de dois meses depois normalizar a vida nas cidades do país asiático para saber como a Covid-19 se comportará. A China, por enquanto, ainda não decidiu como procederá.