Liberadas, festas retornam à agenda noturna prometendo cumprir protocolo e contemplar as mais diversas tribos

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O clima ainda é de terra arrasada. A pandemia arrefeceu, mas não sumiu no horizonte. Mesmo assim, para quem andava se contorcendo de saudade da noite, uma agenda robusta de festas já se desenhou para os próximos meses, respaldada pela liberação dos eventos pelos órgãos oficiais. Ainda que alguns especialistas considerem a iniciativa precoce, todas as tribos foram convocadas para estancar o baixo-astral na pista de dança, num cardápio que afaga playboys e descolados.

A catarse se revela já pela venda de ingressos antecipados. Não são raras as festas que ostentam avisos de “sold out” — para usar o anglicanismo adotado por parte dessa galera — em suas redes sociais. “Teve réveillon que esgotou em cinco minutos”, conta Igor Cals, DJ e criador da festa Tropicals ao lado do irmão gêmeo, Ian. A dupla, aliás, acaba de abrir as vendas para a volta do evento e optou por anunciar, de largada, não apenas uma, mas três datas (18 de dezembro, 22 de janeiro e 19 de fevereiro). “Tem uma demanda muito reprimida. Uma edição só não daria conta”, prevê Igor.

O oráculo também diz que o público está seco por novidades. No caso da Tropicals, a aposta é na cenografia com luzes em cores quentes para inflamar ainda mais a ferveção. “Em alguns países da Europa, a temporada passada já foi chamada de ‘verão do amor’. Achamos que pode rolar algo semelhante por aqui e queremos reforçar esse clima. É uma coisa meio que ‘o dia depois de amanhã’. Está todo o mundo esperando o maior carnaval de todos os tempos, assim como festas históricas”, aposta Igor.

Da mesma Europa que experimentou o tal “verão do amor”, porém, partem também alertas sobre a reabertura, como cita Paulo Petry, doutor em epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele lembra que determinados países do continente precisaram recuar algumas casas na retomada, após registrarem aumento no número de registros de Covid-19. Ele também afirma que o retorno seria mais adequado num momento em que houvesse ao menos 80% da população totalmente vacinada (esse índice está perto de chegar a 60% no Brasil). “Já estamos vislumbrando uma luz no fim do túnel, mas poderíamos esperar um pouquinho mais”, pondera.

De todo modo, Paulo reconhece que as vacinas têm se mostrado bastante eficientes e trouxeram queda de todos os índices da pandemia. Além disso, no caso do Brasil, o movimento daqueles que negam a imunização não teve uma adesão em massa, graças à tradição do país nesse quesito. “Na Rússia, por exemplo, houve muita resistência, e isso virou um problema”, menciona.

Para quem tem acompanhado a badalação com olhos clínicos, as notícias são, a princípio, animadoras. O médico Paulo Granato é sócio-fundador da Clínica Alba Saúde, que atua na testagem do público participante de eventos considerados testes, monitorados também pela Prefeitura do Rio. Nesses casos, as pessoas precisam ter o ciclo vacinal completo ou fazer a verificação antes de chacoalhar o esqueleto na pista de dança. “O índice de positividade entre quem é testado é baixíssimo. No feriado de 12 de outubro, por exemplo, fizemos cerca de oito mil testes e só três tiveram resultado positivo”, contabiliza. “Isso mostra como as vacinas estão sendo, de fato, eficientes, e como também fomos eficazes em evitar que pessoas contaminadas entrassem no evento e transmitissem o vírus.”

Sócia e diretora de marketing da Vibra, empresa que produz cerca de 15 festas, Juliana Schultz já experimentou o gosto do retorno com a Arca de Noé. A noitada rolou na Marina Glória, como parte dos tais eventos-teste, no último dia 23. “Fizemos a verificação em cerca de 1.500 pessoas, e só uma teve resultado positivo”, diz, sobre o baladeiro que teve o dinheiro do ingresso devolvido. Para quem teve sinal verde, o clima foi de jogação. “Tanto o público quanto a equipe estavam muito emocionados. A sensação era que as meninas que estavam na porta queriam abraçar quem chegava. Tinha muita gente chorando.”

Com tanta novidade no horizonte, algumas são menos alvissareiras. Os preços dos ingressos, vale avisar, estão mais caros. No caso da Arca, que teve entradas de R$ 300 a R$ 1.300, conforme o lote, o reajuste ficou em torno de 15%. “Achamos que os custos de produção se manteriam, mas tudo aumentou”, justifica Juliana. Já no caso da Calorzão, também organizada pela Vibra e marcada para 11 de dezembro, a equipe optou por diminuir a quantidade de cortesias para equilibrar as finanças. “Também aumentamos a capacidade de público e esperamos compensar os gastos no bar.”

Os ingressos também estão mais caros para um agito aguardado ansiosamente por uma turma que “frita” até o sol raiar: a Selvagem, que retorna em 11 de dezembro. “Sabíamos que seríamos, desde o início da pandemia, os primeiros a fechar e os últimos a reabrir”, afirma Augusto Olivani, DJ e produtor da festa. Assim como Juliana, ele afirma que todos os custos subiram. Mas promete fazer jus ao investimento dos notívagos. “Acho que esse hiato mostrou a todos o quanto a pista de dança é importante, um lugar em que deixamos de lado o estresse do dia a dia. Estamos pensando com muito carinho nos sets.”

Por falar em música, sonoridades novas devem desaguar na pista, como adianta Craig Ouar, criador da Domply, que voltou à cena no sábado passado com a Fritação 2000. Segundo ele, os DJs passaram boa parte da pandemia escarafunchando os arquivos, descobrindo novidades. Uma aposta? “O funk nacional terá ainda mais influência na música eletrônica”, prevê.

Os produtores também ressaltam que as festas não se resumem a diversão pueril. São também locais de acolhimento, como defendem os organizadores das noites LGBTQIAP+. Duas delas já anunciaram as voltas: a V de Viadão marcou o “comeback” para 30 de dezembro e a Velcro Livre, com foco no público lésbico, chega chegando no dia 11 do mesmo mês. “Mesmo no auge da pandemia, era fácil encontrar lugares de sociabilidade para heterossexuais. Mas, para mulheres lésbicas e transexuais, é muito mais difícil garantir a segurança necessária para que possam se divertir sem medo”, afirma Yohanan Barros, da Velcro.

A luz no fim do túnel é também estroboscópica.

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