Libertário, cabeça aberta e... homofóbico? Por que o surfe ainda não é espaço livre para atletas LGBTQ+

Renato de Alexandrino
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Quando entrou na água no início deste mês para competir na etapa de abertura do circuito mundial de surfe, no Havaí, com uma bandeira do orgulho gay estampada em sua camisa, Tyler Wright sabia muito bem o que queria. Bicampeã mundial, a australiana se assumiu bissexual em maio deste ano. Dizendo-se "encorajada o suficiente para ser quem eu sou", Tyler não escondeu o seu recado: "Quero mostrar que o surfe pode ser um espaço amigável para atletas LGBTQ+".

Tradicionalmente associado à liberdade e à contracultura, o surfe teve por muito tempo a fama de ser um esporte rebelde, moderno. Seus praticantes, "cabeças abertas". Dentro da água, porém, a realidade muitas vezes pode ser outra. Seja por pressão da sociedade - no caso dos meros praticantes de fim de semana - ou da indústria que movimenta o esporte - no caso dos profissionais -, a verdade é que não faltam exemplos de surfistas que se sentem reprimidos na hora de mostrar sua orientação sexual.

Em quase 50 anos de disputa do circuito mundial, são raríssimos os casos como o do australiano Matt Branson, que se assumiu gay - mas apenas muitos anos depois de abandonar as competições, justamente por medo de que fosse "descoberto" como homossexual. O australiano Peter Drouyn, que competiu nos anos 70, revelou-se transexual, mas mais de 30 anos após largar os campeonatos. Entre as mulheres, a situação não é muito mais animadora, e já houve surfistas, como a havaiana Keala Kennely, que perderam patrocínios ao se assumirem, mas há esperança de novos ares com a atitude de Tyler. A World Surf League (WSL) divulgou nota elogiando a bicampeã mundial e dizendo acreditar "que o surfe é para todo mundo e estamos orgulhosos de nossos atletas".

Medo de fechar portas

Renata Canizares diz que se sentiu representada pela atitude de Tyler Wright, mas ainda nutre suas dúvidas sobre esses novos ares. Aos 28 anos, a carioca divide seu tempo entre surfar e agenciar atletas. O namoro com uma competidora profissional não chega a ser totalmente escondido, mas não é muito documentado nas redes sociais para evitar dores de cabeça.

- Já me senti intimidada na água, com olhares. Já deixei muitas vezes de fazer o que queria para não expor minha sexualidade. Queria falar sobre minha namorada no Instagram e não faço isso porque considero o mercado do surfe machista e homofóbico. Tenho medo de fechar portas tanto para mim quanto para ela.

Ben-Hur Correia é outro surfista que bateu palmas para a atitude de Tyler e da WSL. Com 34 anos de vida e 17 de surfe, o repórter da TV Globo tem um um pensamento um pouco diferente, e não chega a considerar o esporte homofóbico. Ele acredita que o surfe é um reflexo da sociedade e, como tal, aos poucos se abre para um mundo mais diverso, mas ainda teima em apresentar algumas portas fechadas.

- Apesar de ser um esporte transgressor em sua essência, ainda é difícil encontrar surfistas gays ou bissexuais que encaram isso de forma natural. No surfe profissional ainda é um tabu ver um surfista homem gay. Eu nunca recebi nenhum tipo de ofensa direta por causa da minha sexualidade no meio do surfe, mas também nunca fiquei à vontade para deixá-la clara - diz Ben-Hur, que foi direto ao responder se trocaria uma palavra carinhosa ou um beijo com o namorado na água:

- No país que mais mata homossexuais no mundo infelizmente isso não é uma opção. Não me sinto à vontade, mas não apenas no meio do surfe, e sim na sociedade como um todo.

Evento inclusivo em Santa Catarina

Sete anos atrás, a surfista e dona de uma agência de viagens Marta Dalla Chiesa foi procurada pelo diretor de um documentário ("Out in the Line Up") que discutia a homofobia no surfe. Thomas Castet não havia conseguido um único surfista gay brasileiro para aparecer no filme, apesar de o Brasil, segundo ele, ser o segundo maior público entre os milhares de registrados em um site que é uma espécie de rede social para surfistas gays. Uma luz se acendeu na mente de Marta, que resolveu organizar um evento, uma espécie de "surfing camp", para praticantes gays. Nascia ali o Gay Surf Brazil.

O evento é realizado anualmente na Praia do Rosa (SC) reunindo surfistas que muitas vezes não se sentem à vontade para encarar as ondas nas cidades onde moram, mas se consideram acolhidos em um ambiente "gay friendly". A edição de 2021 já está marcada para março.

Marta, uma gaúcha que descobriu seu lado surfista quando se mudou para Florianópolis, espera que, no cenário profissional, a situação evolua positivamente com a atitude de Tyler Wright na etapa do circuito mundial no Havaí.

- O surfe profissional não tem um gay assumido e as poucas lésbicas que se assumiram ou o fizeram depois de terminar a carreira, como a americana Cory Schumacher, ou sofreram perdas de patrocínio, como a havaiana Keala Kennely. Agora com a Tyler vamos ver se algo mudou para as mulheres, mas os homens continuam firmemente no armário.

Segundo Marta, o gay pode até passar despercebido na água se não destoar do papel normativo. Do contrário, ela aposta que terá problemas:

- Um gay mais afeminado ou uma lésbica mais masculinizada e, mais ainda, uma pessoa trans não vai ser muito bem-vinda. Acho o esporte homofóbico, com um ambiente que exclui muita gente de se iniciar.

O jornalista Rafael Carregal, de 37 anos, até demorou, mas resolveu deixar de lado uma possível exclusão e encarar uma aventura sobre as ondas. Há pouco mais de um ano, foi preciso uma desilusão amorosa para que ele criasse coragem e se inscrevesse em uma escolinha de surfe no Arpoador.

- Eu tinha vergonha, medo. Acho que quando mais novo, tinha medo por ser gay e não me adequar. Veio um "pé na bunda" fenomenal que me deixou sem chão, mas me deu o mar.

Rafael não se arrependeu. Se sentiu abraçado na escolinha desde o primeiro dia e agora, "surfista de carteirinha", faz campanha pelo retorno às ondas do namorado, que costumava surfar mas deixou o esporte um pouco de lado.

- Hoje eu faço "propaganda" para todos meus amigos gays: eles têm que ir. Vão amar.