Libertadores do jeitinho: como final no Maracanã furou veto à torcida nos estádios no Brasil

Bruno Marinho
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Guito Moreto / Agência O Globo

O antropólogo Roberto DaMatta, no livro “Carnavais, Malandros e Heróis”, tenta explicar, entre outras coisas, a origem e o que é o jeitinho brasileiro. Resumidamente, ele é a expressão de alguém que, apesar de desrespeitar as regras da sociedade, não quer mudá-las. Ele apenas as subverte aproveitando brechas, muitas vezes fazendo uso de seu melhor trunfo: as relações interpessoais.

Sábado, o Palmeiras foi campeão da Libertadores pela segunda vez na sua história — 1 a 0 sobre o Santos com um gol de Breno Lopes nos acréscimos — em uma partida que não ficará marcada apenas pelo título, mas também por ter sido a primeira com público no futebol brasileiro desde o início da pandemia da Covid-19, em março do ano passado. Na teoria, não poderia ter torcida. Mas sempre é possível dar um jeito.

De acordo com a Conmebol, cerca de 2,5 mil credenciais foram distribuídas — 250 para cada clube e 2 mil nas mãos da entidade sul-americana e da CBF. O critério para a distribuição foi de cada um. Houve os mais objetivos, como o sorteio entre sócios do Santos, e os que se resumem ao relacionamento interpessoal. Privilegiados por acompanharem uma partida histórica, não pelo futebol jogado em si.

Os 2,5 mil premiados, todos teoricamente testados e negativados para a Covid-19 com uma antecência máxima de 96h, em um estádio onde cabem 70 mil pessoas, são poucos. Mas que se transformam em muito mais do que deveria quando aglomerados no mesmo setor.

Juntos, muitos sem máscaras, os convidados passaram a ouvir do sistema de som do Maracanã pedidos recorrentes para que mantivessem o uso do acessório e o distanciamento social no estádio. Como se isso fosse possível, na prática, em uma partida de futebol, numa final de Libertadores inédita, onde a emoção ganha de goleada da razão. A Conmebol colocou fitas para proibir a ocupação de lugares lado a lado. Previsível, não foram respeitadas. Para a entidade, elas seriam suficientes para garantir o isolamento necessário sem que outros setores do estádio fossem abertos.

Entre os torcedores do Palmeiras, foram vistos pelos menos dois princípios de confusão. A turma do deixa-disso entrou em ação e contornou a situação. Como? Aglomerando, porque ninguém é capaz de apartar briga de longe, no grito.

Mas o pior estava por vir. Primeiro, a culpa foi de Cuca. O treinador foi expulso e em vez de sair do gramado, foi até a torcida santista. E dá-lhe abraço coletivo na mureta do Maracanã.

Depois, veio a explosão do gol do título. A bola foi cruzada da intermediária para Breno Lopes. O atacante do Palmeiras, aos 53 minutos do segundo tempo, subiu e marcou de cabeça o gol mais importante de sua vida. Histórico.

Ele correu, obviamente, para a mureta. E a torcida se jogou com tudo na sua direção. Como julgar? Como pedir comedimento numa hora dessas? Breno, Palmeiras e palmeirenses abraçaram a sorte e foram. Mas que não se esqueça: para tudo tem um jeito, menos para o teste positivo para Covid-19 antes da estreia no Mundial de Clubes, domingo.