74 anos depois, as lições de Hiroshima e Nagasaki e a atual escalada nuclear no mundo

Getty Images

Por Victor Del Vecchio* - @VictorDelVecchio

Nesta semana, mais precisamente nos dias 6 e 9 de agosto, memora-se os 74 anos do bombardeio atômico que devastou as cidades de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente.

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Até então, o mundo não havia presenciado o poder de uma destruição nuclear – grandes quantidades de energia liberadas a partir de quantidade relativamente pequena de matéria. Este que figurou como o maior ataque de guerra da história, foi também o primeiro e único ataque nuclear contra alvos civis.

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Estima-se que mais de 214 mil pessoas morreram em decorrência das ondas de choque e de calor, provocadas pelas explosões, que varreram boa parte da matéria que encontraram pela frente, em alguns casos gerando “manchas” com os formatos das sombras das pessoas que estavam no momento da explosão.

Após o ataque, mais de 400 mil pessoas continuaram a morrer em decorrência da exposição à radiação. Ainda, houve mortes decorrentes da falta de estrutura provocada pela destruição de mais de 92% dos edifícios das duas cidades.

O duro golpe norte-americano no Império Japonês, somado à declaração de guerra da União Soviética, resultou na rendição incondicional japonesa, pondo fim, dias depois, ao maior conflito armado da história, a Segunda Guerra Mundial.

O ataque foi amplamente criticado na comunidade internacional por sua desproporção e por atingir civis em larga escala, além de ter fins políticos, tendo sido usado como demonstração do poderio bélico norte-americano frente à União Soviética, e os muito criticados fins científicos, que permitiram aos EUA verificar na prática como seria um ataque nuclear.

Hoje, décadas depois, o tema da destruição nuclear é memorado no Japão e continua sendo amplamente discutido, seja pelo retrato na série Chernobyl, seja pelas ações do governo norte-americano que impactam o tema, e que têm deixado a comunidade internacional em alerta.

No início de agosto (02), o presidente norte-americano Donald Trump frustrou negociações que se estendiam por 6 meses, e decretou a saída dos EUA do INF - Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, celebrado com a Rússia em 1987 pelos então presidentes Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, visando desacelerar a corrida armamentista atômica da Guerra Fria.

Washington alegou que sua retirada é fruto da necessidade de fazer frente aos arsenais bélicos da China, país que cada vez mais se aproxima dos EUA em termos de PIB e capacidade militar. Com a saída do tratado, os americanos poderiam voltar a fabricar e instalar determinados mísseis nucleares no Pacífico.

O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, lamentou profundamente o ocorrido e destacou a importância de “evitar desenvolvimentos desestabilizadores e buscar urgentemente um acordo sobre um novo caminho comum para o controle internacional de armas”.

Outro fato quem tem ecoado em torno da questão atômica são as sanções econômicas norte-americanas impostas ao Irã. Em meados de 2018, Trump já havia retirado os EUA do acordo de não-proliferação nuclear firmado em 2015, durante o mandato de Barack Obama, que obrigava a nação persa a limitar suas atividades nucleares em troca de alívio nas sanções. Atualmente, elas vêm impactando fortemente a atividade petrolífera, pilar econômico iraniano.

O presidente persa Hassan Rohani tem cobrado ação de potências europeias, também signatárias do acordo, para que pressionem os EUA a retirar as sanções, e informou nesta terça-feira (06), que, se dentro de um mês as medidas norte-americanas não forem revertidas, irá deixar o pacto. Rohani ainda se disse disposto a negociar termos com Washington.

Diante do cenário de memória aos estragos promovidos por armas nucleares no Japão e de uma possível retomada da corrida armamentista atômica que, com o desenvolvimento tecnológico e militar atual seria capaz de varrer a humanidade do planeta Terra, resta torcer para que as medidas americanas de retirada do acordo com a Rússia sejam revertidas com um novo pacto que envolva, além das duas potências da Guerra Fria, a gigante emergente China, que agora não só figura como ameaça para a supremacia americana, mas também como ator fundamental para manutenção da paz mundial.

No caso iraniano, o apoio das potências europeias pode ser determinante para a busca de um equilíbrio econômico que atenda aos interesses persas, em detrimento dos norte-americanos, que estariam abrindo mão de ganhos financeiros para obter compromissos de não proliferação de armas e assim, maiores chances de paz duradoura. Ainda, é muito possível que essa escalada de Washington contra o Irã não seja medida essencialmente econômica ou militar, mas uma estratégia eleitoreira de Trump, com vista aos pleitos de novembro de 2020, e que busca exaltar seu eleitorado mais nacionalista. Se isso se confirmar, o prazo de resolução fica mais distante, visto que as eleições americanas só ocorrerão daqui a mais de um ano. De todo modo, nos resta aguardar as próximas jogadas desse xadrez geopolítico mundial.

*Advogado formado pela USP, Victor Del Vecchio, é também autor e pesquisador. Escreve sobre Direitos Humanos, Migrações, Refúgio e Política Internacional.