Lilia Cabral e Giulia Bertolli, mãe e filha, dizem que atuar juntas em 'A lista' estreitou relação: 'Mais conexão'

Da primeira exibição de “A lista”, em 2020, até sua centésima apresentação, marcada para esta sexta-feira (24) no Teatro dos Quatro, muita coisa mudou. Naquele momento, em meio à pandemia, Lilia Cabral se juntou à filha, Giulia Bertolli, para subirem juntas pela primeira vez no palco, em transmissão ao vivo para um público remoto. A ideia era refletir uma situação comum àquela altura: o convívio entre duas vizinhas, seus conflitos e encontros confinadas no bairro de Copacabana. Agora, com a doença já controlada, o espetáculo celebra o sucesso de uma dupla em sintonia, com a chave virada e em um cenário mais leve.

As mudanças estão marcadas no texto da peça: há três anos, o espetáculo tinha 45 minutos e mostrava o contato, no confinamento pandêmico, entre a jovem Amanda (Giulia) e sua vizinha, Laurita (Lilia). À parte das apresentações remotas, o termômetro da receptividade do público veio por meio de quatro apresentações presenciais ainda naquele ano. Com o medo e as dores da pandemia muito presentes, a peça tinha tom mais dramático, o que era acompanhado pela plateia.

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Agora, porém, a energia é outra. Desde a estreia em São Paulo, em março do ano passado, o espetáculo cresceu para 80 minutos, atendendo a uma vontade que também era do autor, Gustavo Pinheiro. De um texto imerso na pandemia, a peça dirigida por Guilherme Piva ganhou continuidade em um cenário mais esperançoso.

— Essas cem apresentações significaram a mudança de uma época que era muito difícil e nebulosa, pra esse momento em que se tornou uma peça para cima, para a gente. Na primeira apresentação que as pessoas começaram a rir, durante os diálogos, não entendi nada. Fiz a peça toda errada, porque a gente não tinha tempo nenhum de comédia na cabeça. Agora, três anos depois, é uma peça muito mais solar, nem tão dramática — explica Giulia, acompanhada pela mãe.

— Mudou radicalmente. A gente fazia uma peça que falava da pandemia na pandemia. Agora, a gente conta uma história de dois personagens, que começa na pandemia e vai para um futuro esperançoso. Na época, lógico que o peso era maior. Mas o texto não tem piada, mostra uma conversa como qualquer outra. De vez em quando alguém fala uma bobagem, os outros riem, e é natural, assim — completa Lilia.

Para além do número simbólico, a marca de cem apresentações também representa a passagem por um momento duro para as atrizes, e para a classe artística no geral, como explica Giulia. Segundo ela, o número registra um período “muito difícil nas nossas vidas, em que a arte salvou a gente de todas as formas” e que permitia “pensar em outra coisa que não fosse a realidade difícil que tínhamos, e de encontrar outras pessoas, mesmo que através de uma tela”. Parte dessa trajetória será exibida ao fim da peça, em vídeo preparado pelo elenco, com o caminho de mãe e filha levado pela emoção.

— Quando recebemos o convite para a peça, uma iniciativa da Ana Beatriz Nogueira, nem titubeei, não hesitei. Valeu muito a pena. Foi de uma importância muito grande nas nossas vidas e nas vidas de quem a gente chamou para trabalhar, mexeu de uma forma muito positiva — lembra Lilia.

Sintonia de família

Na preparação para a peça, e já no período das apresentações, a relação entre Lilia e Giulia — e entre Laurita e Amanda — foi reforçada. A mãe conta que aprendeu a entender e a respeitar o tempo da filha como atriz, e a admirar sua capacidade de sentir, interpretar e se adaptar à energia que a plateia de cada apresentação transmite. Para Giulia, trabalhar com “uma das melhores atrizes do Brasil”, segundo ela, já seria algo especial naturalmente, e é ainda melhor por ser sua mãe.

— A gente sempre foi muito amiga, sempre teve uma relação de muita troca e proximidade. Com a peça, isso foi reforçado. Temos agora uma conexão em outros aspectos, não apenas de sangue, mas no trabalho também. Pisou no palco, somos duas atrizes, duas personagens vivendo aquela relação conflituosa, entre tapas e beijos. E depois, no abraço final, claro que tem aquela emoção, a cumplicidade, todo o carinho de estar ao lado da minha mãe. A gente sempre quis trabalhar juntas, mas nunca imaginamos que seria tão cedo — diz Giulia.

Para Lilia, que ressalta as virtudes da filha, a relação entre as duas causa surpresa a quem assiste.

— Acho que muita gente pensa que, por ser uma peça de mãe e filha, vai encontrar um diálogo de mãe e filha, aquela coisa… Mas as pessoas foram se surpreendendo, principalmente quando veem a Giulia em cena, uma atriz, e não só minha filha — completa.