Lilia Cabral volta aos palcos cariocas em peça com a filha, Giulia Bertolli: 'Nos aproximamos'

Descendente de portugueses e italianos, Lilia Cabral aprendeu com a “nona” que fofoca é uma coisa terrível. Optou, então, por manter o máximo de discrição possível sobre a vida pessoal, mesmo alcançando a projeção de uma das mais celebradas e conhecidas atrizes da teledramaturgia brasileira. Acha graça, por exemplo, de notícias que mostram uma foto dela ao lado do marido, o economista Iwan Figueiredo, com quem é casada há 26 anos, com o título de “aparição rara”. “Vou ficar postando foto dele toda hora no meu Instagram? Não faz sentido, né?”, diz, em meio a risadas.

A atriz de 65 anos tem mais o que fazer. Completa 45 de carreira em 2023, quando estará de volta à TV e ao cinema, em projetos sobre os quais ainda não pode falar. Antes, depois de quase uma década sem se apresentar nos teatros do Rio, finalmente estreia em solo carioca o espetáculo “A lista”, no próximo dia 6, no Teatro dos Quatro. Com texto de Gustavo Pinheiro e direção de Guilherme Piva, o espetáculo foi assistido por mais de 30 mil pessoas durante uma temporada de oito meses em São Paulo.

A montagem também marca a primeira vez em que ela e a filha, Giulia Bertolli, de 25 anos, dividem o palco. Em cena, Lilia é Laurita, uma aposentada de Copacabana que se vê obrigada a estabelecer contato com uma vizinha, a jovem Amanda. Uma relação inspirada pelas histórias reais de pessoas mais novas que passaram a ajudar idosos com as compras de supermercado, no auge da pandemia. “Dentro dessa trama lúdica, optamos pela esperança”, diz Lilia, que tem visto a plateia reagir com lágrimas nos olhos. “Você sai do teatro sem sequelas, identifica-se sem se machucar.”

A narrativa se passa em três tempos e, segundo o autor, tem tocado o público por fazer um salto para o futuro almejado por todos. Chegar ao Rio nos primeiros meses do ano, portanto, soa providencial na visão dele. “Talvez este verão seja o começo desse momento”, diz Gustavo, sobre o texto que também desembarca nas livrarias este mês, pela Coleção Dramaturgia (Editora Cobogó). “Pode ser o primeiro da normalidade ou mais próximo do que tínhamos como normal.”

Emoção plenamente compartilhada por mãe e filha desde os bastidores. Giulia lembra que a peça tem origem numa montagem de apenas 45 minutos feita com o teatro absolutamente vazio, nos momentos mais críticos da pandemia, quando era transmitida por vídeo. “É emocionante pensar em tudo o que passamos e como agora estamos falando para uma plateia cheia”, afirma a jovem que, nas apresentações remotas, dividia com a mãe os afazeres técnicos do espetáculo, desde varrer o palco a providenciar cafezinho. “Dessa experiência, descobri que todo dia a minha mãe tem uma história nova para contar. Nos aproximamos ainda mais.”

A experiência mais intimista se mostrou reveladora também para Lilia. Cuidar de todos esses detalhes a fez lembrar de como a carreira começou. Tais memórias, ela diz, trouxeram-lhe uma paz sobre o presente. A atriz que cursou a Escola de Arte Dramática da USP escondida do pai, que não aceitava a profissão, viu-se desamparada pela família ao mudar de São Paulo para o Rio. Nada disso, porém, é narrado por ela com rancor. “Fiquei sozinha. Ninguém vinha me visitar”, conta. “Foi difícil, mas não sou ressentida. É a minha vida. Se voltasse no tempo, faria tudo exatamente igual.”

Formada primeiramente em Belas Artes, Lilia começou a trabalhar assim que concluiu a licenciatura e passou a guardar todo o dinheiro para quando chegasse a hora de caminhar com as próprias pernas. Já demonstrava ali sinais de como reagiria ao machismo da profissão. “Sempre lutei para que fôssemos ouvidas. Nunca admiti muito que alguém me maltratasse dentro de um set. Acho que minhas atitudes fizeram com que poucos fossem aqueles que tentaram alguma coisa”, conta.

Ela não subestima, porém, as dificuldades que uma mulher pode encontrar para ser respeitada em determinados ambientes. “Quando alguém a amedronta, se ela não tem as palavras certas a serem usadas, tudo pode se voltar contra ela.”

Aplicada no ofício, Lilia também se lembra de encarar os espetáculos de atores como Fernanda Montenegro e Marco Nanini, aos quais assistia quando jovem, como uma verdadeira faculdade. Depois, nas primeiras novelas, ficava quietinha observando musas como Yoná Magalhães e Eva Wilma nos bastidores. Em tempos de elencos escalados pelos likes, ela acha estranho, portanto, quando vê jovens atores centrados apenas nos celulares. “O importante é entender que, se você não estuda, não cresce. E a fragilidade do sucesso é que, uma hora o spot está na sua cabeça e outra, não”, analisa. “O público quer de você a mais absoluta verdade. A rapidez (do sucesso) é só momentânea. Uma hora, vai passar.”

Palavras que indicam a consciência tranquila de alguém capaz de lançar um olhar generoso sobre a própria vida sem temer o correr do tempo. “Lembro da minha juventude com prazer, sabe? Com um requinte de ter vivido tanta coisa legal. Do mesmo jeito, estou pronta para continuar vivendo.”