'Limpei hotel por 12 anos para sustentar o vício', conta ex-frequentador da cracolândia

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 05.07.2022 - Fluxo da cracolândia concentrado na rua dos Gusmões esquina com avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 05.07.2022 - Fluxo da cracolândia concentrado na rua dos Gusmões esquina com avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dos 12 anos nos quais viveu na cracolândia, Antônio Carlos Ventura da Silva, 60, só manteve o hábito de usar chapéu. Em tratamento contra o vício em drogas e álcool há dois anos, ele descobriu recentemente ter uma filha de 38 anos de uma ex-namorada, com quem tinha perdido o contato.

"Aqui comecei a usar o WhatsApp e retomei o contato com meu irmão de criação. Foi quando ele me contou que eu tinha uma filha", conta. "Eu já estava cansado de ficar na rua. Sou veterano em morar na rua e usar drogas. Pessoas já tentaram me matar e vi gente ser morta do meu lado."

Silva conta sobre sua trajetória em uma sala do centro aberto pela Prefeitura de São Paulo há dois anos para abrigar dependentes químicos em Ermelino Matarazzo, na zona leste. Ele foi uma das primeiras pessoas a ocupar essa unidade do Siat (Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica), em agosto de 2020.

O equipamento oferece estadia e alimentação por até dois anos, período máximo que os frequentadores têm para retomar o contato com a família, conseguir um emprego e encontrar um lugar para morar.

Diferente das clínicas de reabilitação, a abstinência não é uma exigência para os moradores do Siat, e eles têm autonomia para entrar e sair da casa de quatro andares com suítes onde dormem até duas pessoas. Há quartos para famílias também.

"Eles precisam ser funcionais. Não temos enfoque na abstinência, trabalhamos na redução de danos", diz a supervisora Margarete Alves dos Santos.

Ela conta que quando um frequentador deixa o centro de acolhida para voltar a morar com a família ou para alugar sua casa a equipe organiza o chá da casa própria. "É emocionante porque muitos chegam aqui e, quando entramos em contato com a família, estavam há dez anos sem contato e tidos como mortos."

A supervisora não soube dizer quantas das 85 pessoas que passaram por lá nos últimos dois anos voltaram para as ruas para usar drogas. "Os que voltam para visitar sabemos que estão bem", diz.

Todos que vivem no Siat têm acompanhamento psiquiátrico no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) e em unidades básicas de saúde. No caso da unidade em Ermelino Matarazzo, eles frequentam também o Ambulatório de Vítimas de Violência no Itaim Paulista.

Além de Antonio, restaram outros seis frequentadores da primeira leva que decidiram ficar até o tempo limite de permanência, que se encerra no próximo mês. Os demais conseguiram o que os assistentes sociais chamam de conquista da autonomia e voltaram a morar com familiares ou alugaram os próprios imóveis. Dos seis que permanecem lá, três trabalham com registro em carteira assinada, segundo Margarete.

Há dois anos, antes de embarcar na van que o levou da cracolândia para o Siat, Antônio conta que havia acabado de sair de mais uma internação de dois meses em uma comunidade terapêutica mantida por religiosos. Sem ter para onde ir, voltou para onde viveu por anos limpando um hotel em troca de drogas. "Lá, eles exploram as pessoas. Eu não sabia roubar e nem pedir, então trabalhava muito para pouca droga."

A vida na cracolândia começou após a separação da mulher, aos 32 anos, embora afirme ser viciado em álcool desde os 5 anos. "Não tinha o que comer em casa. O que tinha na prateleira era uma garrafa de cachaça, como eu estava com fome, misturei com limão, tomei e não parei mais", conta.

O alcoolismo o levou às drogas e a viver em um barraco debaixo de uma ponte em Osasco e nas ruas de Barueri por cinco anos.

Há um ano e meio no Siat, Marcelo Müller da Silva, 54, se emociona ao lembrar do filho, que segue na rua.

Morador do Rio Pequeno, bairro na zona oeste de São Paulo, ele conta que conheceu o crack por meio do filho, hoje com 29 anos e usuário de drogas desde os 10. "Um dia ele me levou no centro onde tinha um monte de gente junta. Eu perguntei o que era aquilo e ele disse que era a cracolândia. Fiquei lá por cinco anos porque tinha medo que matassem meu filho", conta.

Pai e filho olhavam carros estacionados na rua para sustentar o vício e chegaram a perder o contato com a família. "Até um dia que minha mãe me viu na TV e foi até lá buscar. Ela foi várias vezes me buscar na cracolândia", lembra. "Eu me internava, mas voltava para ficar com ele", diz.

O filho, conta Marcelo, teve uma infância conturbada. Ele e a mulher eram alcoólatras, as brigas eram constantes em casa, assim como os episódios de agressão. A criança foi encaminhada para um abrigo aos 9 anos após um parente denunciar os pais ao conselho tutelar.

Há cinco meses limpo, Marcelo conta que teve uma recaída no vício e acabou preso por três meses no começo deste ano. "Minha mãe quase morreu quando eu estava na prisão eu saí de lá sem rumo. Foi quando eu decidi que aquilo não era mais vida para mim."

Antes de chegarem ao Siat em Ermelino Matarazzo, Antônio, Marcelo e os outros frequentadores passaram por duas fases no tratamento previstas no programa anticrack da prefeitura, o Redenção.

A primeira abordagem é feita ainda na rua por assistentes sociais que explicam a dinâmica do tratamento. Se a pessoa aceita ajuda, é encaminhada para um dos dois endereços na região central onde irá receber abrigo, refeições, banhos e passar pelo período de desintoxicação.

Foi para um desses endereços que Adriana Alves da Costa, 45, foi encaminhada há dois anos quando foi expulsa de casa pelos filhos. "Sacava o auxílio emergencial para usar drogas e beber. Trabalhava como ajudante geral, mas não voltei mais para o trabalho. Até o dia em que meus filhos disseram que não era mais para eu ficar em casa", lembra.

Adriana ficou em casas de conhecidos até ir para o Siat, onde conheceu o atual namorado, também em tratamento .

Em seu quarto, ela mostra bonecas e bichos de pelúcia que ganhou do namorado arrumados na cabeceira da cama ao lado do uniforme de trabalho. Ela foi contratada recentemente por uma empresa em Guarulhos como controladora de acesso.

Recentemente, ela conta que tem conseguido retomar o contato com os filhos de 24 e 26 anos. "Às vezes, eu vou lá e faço faxina para eles e comida também."

A empresa que empregou Adriana é uma das que tem convênio com o programa Redenção para empregar ex-usuários de droga.

Os frequentadores do Siat também têm acesso às vagas do programa da prefeitura que oferece auxílio em troca de atividades desempenhadas em entidades públicas e privadas, como jardinagem, culinária, confeitaria, entre outros.

Antônio frequenta as oficinas de horta urbana e planeja se mudar para um imóvel alugado para ficar perto da filha recém-chegada à sua vida.

Marcelo também recebe o auxílio e trabalha na cozinha do programa. Ele conta que pretende se mudar com a mãe e a irmã para o litoral e abrir um pequeno negócio de comida.

Adriana quer manter o contato com os filhos, mas já decidiu que irá viver em casa separada do namorado. "A gente dá certo assim, cada um no seu canto."

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