A 'linha de frente', heróis ou vândalos da batalha urbana no Chile

Por Paula BUSTAMANTE
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Manifestantes armados com escudos caseiros durante um protesto contra o governo, em Santiago, 14 de novembro de 2019

Além de escudos e paus, os jovens da "linha de frente" dos protestos no Chile levam também para as manifestações muita raiva. Com acessórios caseiros, eles protagonizam contra a polícia há quase oito semanas uma batalha urbana, na qual são "heróis" para alguns e "vândalos" para outros.

Os protestos eclodiram em 18 de outubro e a polarização exacerbada foi instalada. Alguns veem a morte de um país onde outros veem um renascimento, alguns encaram as manifestações como uma festa, enquanto outros sofrem com o caos provocado por indivíduos encapuzados que desafiam a polícia e criminosos que saqueiam tudo que aparece pelo caminho.

"Estaremos aqui até que surjam soluções reais para as questões que estão sendo levantadas desde o início e que os integrantes do governo enlouqueçam", disse Matías à AFP, usando uma máscara, com óculos e um escudo de metal. Ele não é um anarquista, desempregado, ladrão ou criança abandonada pelo desprestigiado Serviço Nacional de Menores (Sename).

Dentro dessa ala mais violenta das manifestações há pessoas de todos esses perfis, mas também muitos estudantes universitários de classe média que se uniram a esse grupo tendo em comum a frustração e ressentimento em relação à situação atual no Chile.

"O fato de existirmos na linha de frente permite a manifestação pacífica, porque, caso contrário, eles (a polícia) estariam aqui" e teriam dispersado todos com os gases, diz Matías, de 27 anos, que teve que abandonar o curso de veterinária por não ter como arcar com as mensalidades, restando a ele apenas as dívidas com o programa de estudos. Enquanto fala à AFP, ele mistura bicarbonato numa garrafa com água para suportar bombas de gás lacrimogênio.

Em Santiago, uma cidade com sinais de deterioração, a maioria dos habitantes não aprova os saques e roubos (mais de 95% de acordo com o instituto de pesquisas Cadem). Apesar desses desvios e após tantas semanas, os moradores da capital chilena continuam expressando forte apoio às demandas sociais dos manifestantes (cerca de 80% de aprovação).

- Perplexos -

A linha de frente está localizada a dois quarteirões da Plaza Italia, epicentro histórico dos protestos e onde, em 25 de outubro, mais de um milhão de pessoas se reuniram para legitimar as demandas de bem-estar social.

"Os valentes" (para alguns), "os covardes" (para outros) quebram a rua para pegar pedaços do asfalto, destroem pontos de ônibus para usar as barras de metal e carregam coquetéis molotov (garrafa cheia de combustível com um pavio no gargalo) para jogá-las perto dos agentes de segurança. Quando o artefato explode, eles gritam e batem palmas.

"Esta situação deixou todos os chilenos perplexos", disse à AFP Matías Fernández, sociólogo e acadêmico do Instituto de Sociologia da Universidade Católica.

Ele lembra que a violência dos jovens mascarados contra a polícia faz parte do repertório da política de protesto desde os tempos em que os movimentos de esquerda enfrentaram o regime de Pinochet (1973-1990), e tem sido uma figura "romantizada" por certos grupos.

"No entanto, a violência que o país experimenta desde 18 de outubro é sem precedentes na democracia. Ambos elementos, a violência e seu apoio, são diferentes, mas é possível que eles tenham crescido juntos e por causas comuns", diz Fernández.

- Super-heróis -

Inicialmente, eles usavam placas de rua, portas e partes de cadeiras saqueadas de restaurantes como escudos, mas, à medida que o conflito cresceu, a linha de frente melhorou suas "armas".

Com símbolos do Capitão América, Homem de Ferro e Homem-Aranha, eles começaram a usar luvas de pedreiros para atirar pedras, lanternas a laser para apontar contra os olhos dos policiais, cordas para derrubar postes e óculos para se proteger dos fragmentos de balas não letais que já deixaram mais de 350 pessoas com ferimentos graves nos olhos.

Um jovem encapuzado diz que vai parar apenas "quando o país se dissolver". Ele não revela o nome, tem 25 anos e se orgulha de jogar pedras "desde muito pequeno".

Andrés Ramírez, um comerciante de 52 anos que, devido à crise, trabalha como motorista do aplicativo Uber, diz que "existem pessoas que estão aproveitando o momento para cometer seus crimes", embora ele esclareça que apoia o movimento pacífico de protesto.

"Os roubos, a destruição, não são obra dos cidadãos que querem que o país mude para melhor", disse à AFP.

Segundo o sociólogo, por um lado "esta é uma geração de jovens que não cresceu na ditadura e que não tem medo da polícia ou anseia por uma ordem de democracia formal, que caracteriza muitos dos que viveram a ditadura".

Por outro lado, esses "filhos da democracia não acham que esse sistema cheio de fracassos e injustiças em que vivem é algo que deveriam agradecer. Para os jovens, ter eleições regulares é tão inquestionável quanto ter ar para respirar".

Enquanto a linha de frente tem seus movimentos questionados, um senhor com cerca de 65 anos surge entre o grupo e grita: "Estos são as cabras (jovens) mais valentes que o Chile já pariu".