Liniker estreia em séries mostrando como ter personagem trans sem cair no clichê

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Liniker em seu primeiro papel principal: Cassandra - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video

Por Caê Vasconcelos

Quantas histórias com pessoas trans e travestis você já assistiu em que o enredo principal não é a dor e a violência, mas o afeto? Se a resposta for nenhuma, temos uma boa notícia: Manhãs de Setembro, a primeira série original da Amazon Prime Video no Brasil, vai mudar isso.

A série traz a cantora Liniker em seu primeiro papel principal e estreia mundialmente no próximo dia 25. Uma baita estreia, já que mais de 200 países e territórios poderão ver a produção. O Yahoo já assistiu tudo e te mostra detalhes do que vem por aí (sem spoilers), além de te contar as percepções da protagonista e da equipe que construiu a obra.

Apesar de ser nacionalmente conhecida pelo seu trabalho na música, Liniker tem formação para atriz antes mesmo de começar a ser cantora. Esse não é o seu primeiro papel nas telinhas, já que atuou em outros papéis anteriormente, como na série 3%, produção original da Netflix Brasil. Mas agora, aos 25 anos, ela dá vida à motogirl Cassandra, protagonista da primeira produção brasileira da Amazon Prime Video.

Com roteiro de Josefina Trotta, Alice Marcone e Marcelo Montenegro, a série é uma ideia original de Miguel de Almeida e foi dirigida por Luis Pinheiro e Dainara Toffoli. Além de Liniker, o elenco conta com nomes como Karine Teles, Gustavo Coelho, Paulo Miklos, Gero Camilo e a cantora Linn da Quebrada. Ambientada em São Paulo, a série foi gravada no Uruguai por conta da pandemia do coronavírus e as gravações duraram 4 meses. Somente as imagens aéreas foram realmente feitas na maior metrópole do Brasil.

São cinco episódios de 30 minutos cada em que somos agraciados com a trajetória de Cassandra que, apesar de trabalhar como motogirl, sonha em ser cantora e cover da cantora Vanussa, que na série aparece como uma amiga que só Cassandra escuta. A personagem é apresentada de uma forma diferente do que personagens trans costumam aparecer: ela é muito bem resolvida com a sua identidade de gênero, é independente e não está pronta para abrir nenhuma concessão de tudo que conquistou sozinha.

Karina Teles, Gustavo Coelho e Liniker - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video
Karina Teles, Gustavo Coelho e Liniker - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video

Para Liniker, a parte mais difícil de interpretar Cassandra foi humanizar a personagem. “A gente, enquanto pessoas trans, sabe o quanto é difícil permanecer em uma sociedade que o tempo inteiro faz a gente desacreditar de quem a gente é. Então conseguir humanizar essa personagem e trazer um olhar do que a gente é, dentro das nossas potências, e não só os nichos e violências que a gente sofre no dia a dia, foi muito importante”, conta ao Yahoo.

A protagonista também confessou que, ao dar vida à Cassandra, buscou ser uma representatividade para ela mesma. “Às vezes pessoas trans entram em umas paradas de medo, que é um lugar paralisador, que é um lugar de temer o tempo todo. e a Cassandra é corajosa, ela é pokas, porque o tempo dela é contado e ela precisa sobreviver”, define.

Afeto guia a série, mas não se trata de história de amor

O afeto é o enredo principal da série, mas não se engane: não é uma história de amor. Pelo menos não da forma que estamos habituados a assistir. Manhãs de Setembro nos mostra todas as possibilidades de afeto e de famílias. Liniker ainda teve o privilégio de poder contracenar com um dos seus afetos da vida real, a também cantora e atriz Linn da Quebrada, que faz uma participação especial na série.

“Poder ter ela foi muito importante porque é uma série que fala tanto quanto família e ter alguém de dentro da família que eu escolhi me deu muita alegria. Não só a Linn, mas todo o elenco que virou uma família naqueles quatro meses e que virou uma relação afetiva de muito cuidado e respeito, não só profissionalmente, mas também pela narrativa pessoal de cada um ali”, explica Liniker.

Linn da Quebrada durante cena com Liniker - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video
Linn da Quebrada durante cena com Liniker - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video

Esse acerto da série só foi possível porque, além da escolha perfeita para dar vida à Cassandra, Manhãs de Setembro contou com mais pessoas trans nos bastidores da série: a roteirista Alice Marcone, que também fez a sua estreia em seu primeiro roteiro. Para Alice, o processo foi maravilhoso e desafiador.

“Eu sempre quis trazer para esse projeto tudo o que eu não tinha visto antes: uma humanização das pessoas trans e pretas. Fazer isso com uma sala super querida, capaz de escutar, horizontal, acolhedora e muito diversa, tudo isso foi muito importante para concretizar esse projeto para assim poder trazer a minha voz”, comemora.

A escolha pelo foco da série não foi por acaso. “A gente fez uma escolha de prezar muito pelo afeto, pela construção do amor e da afetividade, distanciando de produções que têm personagens trans e negras que vão pela via da violência, do sofrimento psíquico ou social”, explica.

“Temos uma história edificada em torno do afeto e da possibilidade da construção do afeto. Esse é um elemento da nossa série que vai aproximar muito as pessoas. Por mais preconceituosas que possam ser os espectadores, o amor como ele está em primeiro plano ele vai vencer”, afirma Alice.

Josefina Trotta, principal roteirista da série, explica o foco no relacionamento entre Cassandra e o filho. “Ao colocar o foco nesse relacionamento a gente cria uma história de uma família. Na verdade, de várias famílias possíveis porque a série fala de diferentes tipos de famílias, como a do Décio e do Aristides, que são um casal gay, a família de afeto da Cassandra que está formada por Roberta, Pedrita e Veronica, a nova família com Gersinho enfim. Todas as histórias são universais e acredito que todas as pessoas vão se interessar pela série”.

Crianças têm papel fundamental na série

Cassandra (Liniker) ao lado de Gersinho (Gustavo Coelho), filho que não sabia que existia - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video
Cassandra (Liniker) ao lado de Gersinho (Gustavo Coelho), filho que não sabia que existia - Foto: Divulgação/Amazon Prime Video

Outro destaque importante da produção é a presença das crianças: Gersinho, interpretado pelo ator Gustavo Coelho, e Grazi, interpretada pela atriz Isabela Ordoñez. Ambos os personagens mostram, ao longo da trama, como as crianças estão, sim, prontas para lidar com a diversidade.

“Tanto a Isa quanto o Gustavo foram fundamentais para essa série. Pelo talento deles, porque são atores muito talentosos, e por tudo que eles trouxeram para gente enquanto sutilezas. É tão doido estar em um set com uma atriz e com um ator que não te pergunta como é ser trans, eles só me respeitaram. Tanto em cena quanto fora de cena”, conta Liniker.

“Sempre priorizamos esse lugar de um personagem que representasse esse aprendizado, essa transformação. A gente espera que muitos dos nossos espectadores tenham o arco do Gersinho e aprendam junto com ele. Ter um personagem que aprende através do afeto foi muito importante”, completa Alice Marcone.

Josefina Trotta define a importância do personagem de Gustavo Coelho. “O mais interessante do Gersinho é que ele começa a série querendo um pai, alguém que leve ele no estádio para assistir futebol e todo esse estereótipo em torno da figura do pai, quando ele conhece Cassandra ele vai descobrindo que ela é muito mais do que isso”.

“Mas Cassandra traz outros tipos de afetos, a possibilidade de uma família feita de tios gays, de tias trans, traz a música para a vida. Na cabeça do Gersinho, ele só esperava um cara que traria uma bola, mas Cassandra abre um mundo para ele abrir a cabeça. Gersinho é um menino muito sensível que rapidamente se adapta e aprende”, comemora.

Foto: Divulgação/Amazon Prime Video
Foto: Divulgação/Amazon Prime Video

A experiente Karine Teles conta que decidiu participar da série quando soube que Liniker era a protagonista. A atriz interpreta Leide, ex-namorada de Cassandra e mãe de Gersinho. “Foi muito importante [Liniker] estar envolvida nesse processo. Muitas vezes as escalações de elenco são erradas, são preconceituosas, estamos começando a mudar essa máquina que é uma máquina viciada e que tem um olhar predominante. Estamos aos poucos mudando isso”.

Karine também relata os desafios da personagem, responsáveis por momentos problemáticos de preconceito na trama. “Dar dignidade à Leide foi muito importante porque, apesar de ela ter vários comportamentos condenáveis, ela manda mal dentro de um desespero pela sobrevivência dela”, explica a atriz.

“Encontrar dentro de mim esses lugares que eu pudesse pertencer à realidade da Leide sem julgar os comportamentos. Ela manda muito mal em alguns momentos e, como atriz, são nesses momentos em que eu acho que tenho que dar mais verdade para o que a personagem tá fazendo”, completa.

O diretor Luis Pinheiro também enaltece o papel de Liniker para a construção da série. “Ter uma atriz como a Liniker no papel da Cassandra nos ajudou muito para não cairmos no estereótipo. Conseguimos fazer a Cassandra com essa realidade e amar ela do jeito que a gente ama rapidamente é um mérito da voz autêntica que a Alice traz e da voz da Liniker compondo a personagem no set”.

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