‘Linkedin das Favelas’ abre portas por meio de projetos de capacitação

Se há ruas sem asfalto, vielas sem iluminação e esgoto a céu aberto, há também muita gente produzindo, consumindo e buscando capacitação nas mais de 6,2 mil favelas espalhadas pelo Brasil. Regiane Santos é um bom exemplo desse movimento. Moradora de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, ela criou, em 2017, a Emprega Comunidade, conhecida como “LinkedIn da Favela”.

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Com uma equipe de oito profissionais, incluindo psicóloga, Regiane, de 36 anos e há três décadas moradora do bairro, oferece treinamentos de curta duração com orientações que vão de como fazer um currículo, se vestir e se comportar em uma entrevista de emprego, até usar as redes sociais para pesquisar sobre empresas e vagas.

A demanda é de cerca de 30 pessoas por dia, com idades entre 16 e 27 anos. Segundo Regiane, 750 jovens passaram pelo Emprega Comunidade em 2021, com uma média de cem contratações a cada mês. O número de empresas parceiras também é na casa da centena, incluindo McDonald’s e a Rede de hotéis Emiliano.

Ela não diz qual é o faturamento da companhia, mas explica que sua remuneração sai das empresas contratantes, que pagam 30% sobre o valor do salário de cada jovem contratado.

Outra iniciativa que também está fazendo a ponte entre jovens carentes e o mundo corporativo é o Instituto PROA, fundado em 2007 por empresários brasileiros, entre eles, Susanna Lemann, Marcelo Barbará, Florian Bartunek e o Instituto Península, da família Diniz. Em seus 15 anos de existência, o Instituto PROA já preparou 36 mil jovens de baixa renda, vindos de escolas públicas, para entrar no mercado de trabalho.

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Segundo Alini Dal Magro, CEO do PROA, de todos os que terminaram o curso, 85% conseguiram emprego no semestre seguinte. E, destes, 80% continuaram empregados três anos depois. O setor privado ajuda a manter o programa, aportando recursos. São 40 financiadores, como P&G (maior financiador), Oracle, J.P. Morgan, Via, BTG Pactual, Instituto Cyrela, entre outras.

— Nosso sonho é impactar 300 mil jovens até 2027 — diz Alini.

Nem sempre o mundo corporativo é o caminho natural para as comunidades assistidas. Segundo Marco Vinholi, superintendente do Sebrae São Paulo, 41% dos que moram em favelas têm seu próprio negócio.

— São R$ 119 bilhões gerados em renda própria dentro das comunidades. Supera a renda do Uruguai, por exemplo — afirma ele, acrescentando que, neste caso, não se trata de empreendedorismo de oportunidade e sim de necessidade. — Dos que empreendem, 57% o fazem por falta de carteira assinada, e o perfil predominante é o de menor capacidade técnica.

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É diante do quadro de necessidades que entram as mulheres, muitas vítimas de violência doméstica e sem perspectivas de futuro. Flávia Rodrigues conhece bem essa realidade. Presidente da Associação das Mulheres de Paraisópolis, ela estima que ao menos 89 mil mulheres já foram atendidas pela associação, que existe desde 2006. E por atendimento, diz ela, entenda-se bem mais que acolhimento a pessoas que, às vezes, só querem ser ouvidas.

— Temos um ciclo completo de apoio. Encaminhamos para a Unidade Básica de Saúde (UBS) para atendimento psicológico, vamos ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) para que ela se cadastre em programas sociais do governo — diz ela.

O trabalho também vai além do apoio social.

— Se uma mulher procura a associação precisando de leite ou roupa para suas crianças nós vamos atrás, mas queremos saber por que ela não tem e encaminhamos para a capacitação

Elizandra Cerqueira, membro da Associação das Mulheres de Paraisópolis, iniciou cursos de capacitação em culinária para mulheres em situação de vulnerabilidade social e econômica em 2007. Dez anos depois, com apoio do G10 Favelas, ela e a sócia, Juliana da Costa, abriram o próprio restaurante, o Mãos de Maria.

— A gente não trabalha só com comida. A gente promove empoderamento feminino — diz ela.

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Com pouco mais de cinco anos de vida, o Mãos de Maria tem duas filiais, batizadas de Bistrô Mãos de Maria — uma no centro de Paraisópolis e outra em Heliópolis — emprega 15 pessoas e fatura algo entre R$ 60 mil e R$ 70 mil por mês. Regiane e a sócia continuam o trabalho de capacitação e oferecem cursos de produção de panetones, no Natal, ou ovos de chocolate na Páscoa.

A cerca de 440 quilômetros de Paraisópolis, em São José do Rio Preto, outra iniciativa que capacita mulheres para o mercado de trabalho ou para o empreendedorismo é o projeto social As Valquírias, fundado há 15 anos por Amanda Oliveira, e que atende mulheres e meninas em situações diversas, desde aquelas que precisam de um prato de comida, passando por quem sofreu abusos físicos e psicológicos até as que se beneficiam de capacitação para trabalhar ou empreender.

— Queremos interromper o ciclo da pobreza na vida das pessoas. Para termos comunidades mais inteligentes, transformar as favelas, a única forma é investir em pessoas, em mudança de mentalidade, especialmente na infância.

Como nem todas têm a mesma necessidade, As Valquírias hoje conta com várias frentes de atuação. Além da distribuição de alimentos e atendimentos psicológicos, oferece aulas de meditação, oficinas de oratória e desintoxicação emocional, cursos de qualificação social, empreendedorismo e disponibilizam acesso à internet — um problema recorrente em comunidades.

Além de doadores financeiros, conta com apoio de marcas para viabilizar algumas iniciativas, como a Lenovo, que doou computadores para o laboratório; a Motorola, que doou celulares; e as marcas de roupas C&A e Cia. Marítima, que destinam retalhos e peças de coleções que não vendem para virarem roupas e mantas a preços acessíveis

A gestão financeira do instituto é auditada e os números divulgados a quem quiser entender sua atuação. O profissionalismo chamou a atenção e levou As Valquírias a ser a única instituição brasileira a receber um aporte financeiro da marca Carolina Herrera em 2019. No mesmo ano, se juntou ao projeto Gerando Falcões para implementar, em São José do Rio Preto, o projeto piloto da Favela 3D, idealizada pelo time de Edu Lyra.