Lipedema: doença confundida com obesidade provoca acúmulo de gordura nas pernas

Raphaela Ramos
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RIO — O acúmulo de gordura em regiões específicas do corpo, como pernas, quadris e braços, costuma ser diagnosticado como obesidade, mas pode caracterizar outro quadro: o lipedema. A doença, ainda pouco conhecida, atinge cerca de 10% das mulheres em todo o mundo, segundo dados da Sociedade Espanhola de Medicina Estética (SEME).

Um estudo brasileiro, publicado em 2020 na Faculdade Santa Marcelina, analisou a aplicação de um questionário a 106 pacientes e mostrou que, apesar de grande parte delas apresentarem um peso regular, a doença foi confundida com obesidade em 75% dos casos.

— O lipedema é um tumor de gordura que atinge essas regiões específicas e acomete cerca de 5 milhões das brasileiras. É uma doença progressiva: com o passar dos anos, o acúmulo de gordura vai se acentuando. A paciente vai tentando emagrecer, pensando que é obesidade, corre atrás de atividade física e alimentação, mas a resposta é muito ruim — explica Fábio Kamamoto, cirurgião plástico especialista em lipedema, que orientou a pesquisa.

O médico afirma que o diagnóstico do quadro é feito principalmente pela observação dos sintomas. A doença é mais comum em mulheres, pois tem relação com os hormônios femininos. Além disso, estudos sugerem que também pode ser associada a uma predisposição genética.

— A causa exata não está completamente determinada, mas estima-se que exista predisposição familiar. O processo também é influenciado por alterações hormonais, já que costuma ser desencadeado em fases da vida reprodutiva em que se observam grandes flutuações de hormônios, como a puberdade, gestação e menopausa — explica Cynthia Melissa Valerio, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Kamamoto explica que, apesar de ser considerado uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o lipedema ainda não está no Código Internacional de Doenças. Ele deve ser incluído em sua próxima edição — apenas em 2022. Como consequência, ainda não existe tratamento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e ele também não é coberto pelos planos particulares.

— Tenho tentado lutar para submeter um projeto de lei de iniciativa popular pelo tratamento no SUS e cobertura pelos planos — afirma o cirurgião, que acrescenta: — O mais importante quando uma pessoa descobre que tem lipedema é o alívio, porque ela não precisa ter sentimento de culpa por achar que é falta de esforço. É uma doença, um tumor de gordura, que tem como tratar e melhorar.

Associação formada por mulheres promove rede de apoio

A médica Paula Frederichi de Souza, de 28 anos, conta ter sofrido desde pequena por ter as pernas maiores, sentir dores e ter muitos hematomas. O lado emocional também era impactado, pois precisava lidar com comentários sobre seu corpo. Ela buscou diversos profissionais, que diziam que essa era sua estrutura corporal, e até que estava "inventando doença". Foi há cerca de três anos, durante um plantão em que sentiu muita dor e inchaço, que Paula descobriu o lipedema.

— Os médicos ficaram assustados com o tamanho das minhas pernas, e eu fiquei incomodada, porque foi constrangedor. Comecei a pesquisar, encontrei na internet falando sobre o lipedema e fiquei super emocionada, porque parecia que o texto falava exatamente de mim. Desde então comecei a levar esse assunto para a faculdade e para congressos, porque vi que era desconhecido não só pelas pacientes, mas também pelos médicos — conta.

Paula descobriu um grupo no Facebook com mulheres que falavam sobre a doença e que passou a funcionar como rede de apoio. Em 2019, elas decidiram expandir e fundaram a Associação Brasileira de Pacientes com Lipedema (ABRALI), que tem o objetivo de divulgar informações sobre o tema.

— Temos site e redes sociais, indicamos profissionais de nossa confiança, escutamos as pacientes e temos essa ideia de acolhimento — explica Paula, que conta: — O diagnóstico muda muito para a paciente porque ela sabe que não está sozinha e que tem como tratar. Não é ficar feliz por ter a doença, mas por ter um um diagnóstico que explica tanta coisa que a gente passa, por tantos anos.

Sintomas do lipedema:

Acúmulo de gordura nas pernas, quadril e em alguns casos nos braços. Em geral não ocorre nos pésDesproporção das pernas em relação ao tronco, com a cintura mais finaDor ao toque e sensação de queimação na região das pernasPode ocorrer sensação de “peso” ou pressão nas pernas, que piora no decorrer do diaFacilidade para criar hematomas com pequenos impactosGordura não é eliminada com a prática de atividade física e alimentação balanceada

Tratamento:

Clínico: Dieta anti-inflamatória, focada em menos consumo de farinha, açúcar, gordura e carne vermelha e prática regular de atividade física ajudam a diminuir os sintomas da doença. O uso de roupas ou meias compressivas e fisioterapia com drenagem linfática também podem auxiliar em fases iniciais.

Cirúrgico: Para remover as células doentes, é preciso realizar um tipo específico de lipoaspiração. O tratamento sempre deverá ser recomendado pelo médico especialista, e é importante que a paciente procure o quanto antes e não espere chegar em estágio grave, pois só é possível remover uma quantidade pequena de gordura a cada procedimento.