Lira pisca para Lula, e Bolsonaro pisa na mangueira que regou sua relação com centrão

Brazil's President Jair Bolsonaro reacts with Lower House President Arthur Lira during a ceremony at the National Justice Council in Brasilia, Brazil, August 30, 2022. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro (PL) com seu (ex?) aliado no Congresso, Arthur Lira (PP-AL). Foto: Adriano Machado/Reuters

Mal o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva piscou para Arthur Lira (PP-AL), dando ao deputado apoio à reeleição para o comando da Câmara, Jair Bolsonaro (PL) correu para secar a fonte que abastecia a sua relação com o centrão.

Essa relação era mediada pela mangueira do orçamento secreto, mecanismo criado pelo atual governo que repassou aos relatores do orçamento no Congresso a decisão de distribuir recursos federais sem critérios ou transparência.

A estratégia permitiu que aliados fossem beneficiados em suas demandas, entre elas projetos que irrigou seus redutos políticos com tratores, caminhões e verbas suspeitas para a área da saúde.

Bolsonaro passou a campanha dizendo que não tinha nada com a conversa, já que os deputados e senadores teriam autonomia para capturar os recursos e fazer deles o que bem entendessem. Não era bem assim, mas muita gente acreditou.

Arthur Lira, como se sabe, ganhou poderes após o acordo e se tornou uma espécie de primeiro-ministro da gestão Bolsonaro, tendo a atribuição de soltar e mandar fechar a torneira orçamentária à medida que controlava a pauta na Câmara.

Em troca, garantiu governabilidade a Bolsonaro e a certeza de que nenhum pedido de impeachment avançaria sobre a sua mesa.

Lira se engajou como pode na campanha do capitão, mas a derrota para Lula mudou o eixo da conversa.

Lula e o PT não querem reviver o trauma de uma história recente na qual decidiram boicotar, com o lançamento de uma candidatura própria para a presidência da Câmara, em 2015, os planos do então todo-poderoso deputado Eduardo Cunha, à época no PMDB do Rio. Cunha venceu a queda de braço, mas a disputa rendeu uma briga intestina que ao longo daquele ano resultou na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Lira tem dito que vai manter independência em relação ao governo Lula, o que foi interpretado como uma declaração de guerra ao (ex?) aliado Jair Bolsonaro. O chefe da Câmara chegou a ser hostilizado em um encontro promovido nesta semana pelo PL, segundo o jornal Estado de S.Paulo.

Contrariado com o flerte, Bolsonaro mostrou que mentia em campanha e pisou na mangueira que irrigava a sua relação com o centrão, mandando suspender as verbas do orçamento secreto e deixando Lira sem acesso a recursos que poderiam ser usados para conseguir apoio em sua campanha para seguir na presidência da Casa.

O argumento técnico é que faltam recursos para outras áreas e que é preciso cumprir o teto de gastos.

Para isso, segundo apurou o Estadão, Bolsonaro editou um decreto autorizando a equipe do governo a remanejar os recursos de uma área para outra.

As consequências da decisão são incertas.

Bolsonaro tem menos de um mês como presidente da República. Sendo assim, a suspensão pode ser apenas temporária.

A ideia é que coubesse ao futuro governo restabelecer a ligação direta com o centrão desfazendo o nó montado por Bolsonaro. Em outras palavras, caberia a Lula refazer as bases do orçamento secreto que tanto criticou.

Lula tem a opção de deixar tudo como está e azedar, de saída, a relação com o comando da Câmara.

Ou desdizer o que disse em campanha e arcar com o custo político de uma eventual retomada do mecanismo.

Outra opção ainda é esperar que o Supremo Tribunal Federal julgue logo a legalidade do orçamento secreto e lave as mãos em seguida.

A suspensão do orçamento é bem-vinda, mas claramente só aconteceu porque Bolsonaro já não precisa do centrão para governar.

Resta saber se o revanchismo mais ajuda do que atrapalha o futuro governo. A depender do desenlace, Bolsonaro pode ter apenas adiantado uma medida que Lula teria de tomar mais dia, menos dia.