Liverpool: fenômeno global transforma estádio no Qatar em torre de babel

Carlos Eduado Mansur, enviado especial

A clássica música transformada em hino pela torcida do Liverpool diz que "Você nunca vai andar sozinho". E, de fato, é difícil andar sozinho quando se é um fenômeno global. Quando a delegação desembarcou em Doha, não chegava ao Qatar apenas um grupo de jogadores, chegavam os rostos, as faces, a representação esportiva de uma grande organização transnacional com tentáculos em todo canto do planeta.

O Khalifa International Stadium era uma torre de babel. Ainda que, claro, dominado por um verdadeiro mar de egípcios. Estima-se que haja 300 mil vivendo no Qatar. E o fenômeno Salah, herói nacional capaz de despertar fanatismo, um patamar acima da idolatria, conduziu fiéis seguidores e ajudou a criar novos torcedores.

— Eu e ele começamos a torcer pelo Liverpool por causa de Salah — disse o egípcio Mohamed, apontando para o filho Seifallah, de dez anos.

Herói, Rei do Egito, são muitas as formas que o povo do país usa para se referir ao seu grande embaixador. Na arquibancada, uma bandeira com um Salah alado, como um anjo, tremulava.

No Oriente Médio, ele se transformou também num embaixador dos muçulmanos. Há uma percepção de que, em países como a Inglaterra, onde joga, o atacante se tornou um elo capaz de gerar inclusão e reduzir preconceitos. Mas especificamente para os egípcios, ele é um herói nacional.

— Claro que ele representa os muçulmanos. Mas nós não olhamos tanto desta forma. Acima de tudo, ele é um símbolo da pátria, um rei — afirmou Haysa Mustafa.

A legião global que se juntou para ver o Liverpool jogar, de tão diversa, produzia cenas curiosas. Numa tenda de entretenimento para o público, membros do staff do torneio organizavam uma fila para que torcedores pintassem o rosto. Até que os irmãos Mohasin e Arshad Haris, os dois com camisas do Liverpool e o nome de Salah às costas, pediram para pintar no rosto a bandeira da Índia.

— O Liverpool é muito importante em nosso país. Mas eu comecei a torcer antes de Salah, foi por causa de Suárez — afirmou Mohasin.

Mais adiante, outra enorme fila. Desta vez, por causa da exposição das taças da Liga dos Campeões da Europa, vencida pelo Liverpool, e da Liga dos Campeões da Concacaf, ganha pelo Monterrey, rival na semifinal do Mundial. Claro, a taça da América Central e do Norte viveu momentos de intensa solidão.

A construção de um clube global é mais do que vender a imagem de astros. Aparentemente, envolve uma sofisticada estratégia de construção de uma marca.

— Gosto do Liverpool porque tem cultura, história, valores — disse Prachya Wong, que saiu da Tailândia para ver o Mundial de Clubes. — Não perderia a chance de ver Salah, Mané e, claro, Firmino. Gosto muito do brasileiro.

Na multidão, havia até ingleses. Paul Smith, nascido em Liverpool e morador de Londres, chegava ao estádio carregando um livro escrito por Peter Crouch, ex-atacante dos Reds. E acreditava nunca ter ido a um jogo de seu clube com tão poucos ingleses.

— Devemos ser uns mil aqui, se tanto. Mas este é um clube global.