Livres troca comando e amplia presença na gestão de Eduardo Paes

FÁBIO ZANINI
·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos principais movimentos liberais do país, o Livres vive período de transição. Sai o diretor-executivo Paulo Gontijo, no cargo há dois anos, e entra Magno Karl, que exerce o cargo de coordenador político da bancada do Partido Novo na Câmara dos Deputados. A passagem de bastão vem sendo realizada de forma gradual nas últimas semanas e deve estar concluída até o final do mês. Com cerca de mil sócios pagantes, receita anual de R$ 1,8 milhão e 29 detentores de mandato associados, o Livres defende o que chama de “liberalismo por inteiro”, nas áreas econômica e de costumes. Em razão disso, tornou-se um forte crítico do presidente Jair Bolsonaro, ainda que reconheça méritos em algumas iniciativas pontuais, como a Lei da Liberdade Econômica, que facilitou a obtenção de alvarás de funcionamento de negócios, por exemplo. Gontijo está de saída para assumir uma diretoria na Investe Rio, agência de atração de investimentos que está sendo reestruturada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM). Embora deixe de ter função executiva, seguirá associado ao grupo. Nos dois anos em que esteve no cargo, ele foi responsável por organizar o movimento depois de um início traumático. O Livres estava “incubado” no PSL até ser surpreendido pela filiação de Bolsonaro ao partido, no início de 2018. Despejado, o grupo mudou sua forma de atuação. Deixou de estar ligado a um partido específico e passou a ter associados em diversas legendas, com a única condição de que defendam suas bandeiras. Hoje, há representantes do Livres em legendas como Novo, Podemos, PSDB e Cidadania, entre vereadores, deputados estaduais e federais e um prefeito (Caio Cunha, de Mogi das Cruzes). “Nosso objetivo é disponibilizar bons quadros e deixá-los disponíveis para o debate público”, afirma Gontijo. O mote do grupo é “informa, forma e reforma”. Traduzindo, as metas são difundir ideias liberais, formar líderes capacitados a desenvolvê-las e botar a mão na massa no setor público, como ele próprio passará a fazer a partir de agora. Em sua nova função, Gontijo pretende dar atenção especial à formalização de pequenos negócios e ao incentivo ao microcrédito. “A ideia é focar bastante no microcrédito. Não queremos usar dinheiro público para isso, até porque não tem. Queremos achar parceiros”, afirma ele. Um objetivo primordial é ajuda os empreendedores a se formalizarem para ter acesso a crédito. “Crédito para quem não é formalizado é muito caro. A solução acaba sendo o agiota, ou até o miliciano”, diz. Um passo inicial é ajudar o pequeno empresário, ou comerciante, a ter um CNPJ. Além disso, é necessário ensinar as pessoas a gerirem seu negócio. “Uma empresa doméstica com duas cozinheiras que faz marmitas muitas vezes não sabe gerir fluxo de caixa. Qualificar a gestão é uma forma de inclusão”, afirma. O foco no empreendedorismo é um resposta clássica dos liberais às políticas de esquerda para reduzir a pobreza. Outra meta na prefeitura do Rio é simplificar procedimentos e desburocratizar. A própria implementação da Lei da Liberdade Econômica, que precisa ser aprovada pelos municípios que pretendam adotá-la, é um objetivo. “É preciso analisar o impacto econômico de regulações, unificar e modernizar licenciamentos, por exemplo”, afirma ele. Uma cidade como o Rio, acredita, tem potencial para atrair investimentos em áreas como gastronomia, hotelaria, economia criativa, meio ambiente e turismo de forma geral. Gontijo será a terceira liderança do Livres a desembarcar na administração de Paes, que prometeu uma guinada liberal para o Rio durante a campanha. Antes dele, lá chegaram o secretário de Governo, Marcelo Calero, e o de Desenvolvimento Econômico, Chicão Bulhões. Com isso, o Livres vive uma nova fase em seu processo de institucionalização, mas pretende manter seu caráter de espaço de debates e difusão de ideias liberais. Entre os membros de seu conselho acadêmicos estão economistas de destaque como Elena Landau, Persio Arida, Samuel Pessôa, Ricardo Paes de Barros e Leandro Piquet. Mas esse caráter mais institucional do movimento tem limites, afirma Gontijo. “O Livres não vai virar um partido”, afirma. Num ambiente político em que caciques permanecem décadas à frente de partidos, sindicatos e movimentos, ele acredita que sua própria saída do cargo é uma grande contribuição para a causa do liberalismo. “Nada mais liberal do que haver alternância de poder”, afirma.