Livro aponta causas do alto nível de estresse entre advogados

Regiane Jesus
·2 minuto de leitura

RIO — Retratada com glamour em séries, filmes e novelas, a profissão de advogado tem, na vida real, um lado sombrio quase desconhecido. Foi para jogar luz sobre um mal escondido debaixo do tapete que a psicóloga Fátima Antunes escreveu o seu primeiro livro, “Estresse em advogados”, lançado recentemente pela editora Chiado Brasil. A inspiração veio do marido, o advogado Maurício Alves Costa, que desenvolveu, ao longo dos anos, transtorno de ansiedade e síndrome do pânico.

Como havia feito uma especialização em gerenciamento do estresse pela International Stress Management Association, a também mestre em psicologia social entendeu que era hora de tirar o tema do universo acadêmico e levá-lo ao grande público.

Apesar da sua vivência familiar, durante as suas pesquisas Fátima se surpreendeu com o drama silencioso dos advogados.

— É comum que os profissionais desta categoria adoeçam, seja por diabetes, pressão alta, problemas renais ou cardíacos ou transtornos psíquicos. Este quadro acontece porque o sucesso do trabalho de um advogado não necessariamente depende dele. O ganho de uma causa depende, no fim das contas, do entendimento do juiz, não necessariamente do desempenho de quem representou aquele processo. A pressão é grande, até porque, em muitos casos, a remuneração está associada à vitória da causa — salienta. — Outro fator de risco é que só se solicita o serviço do advogado quando existe algum tipo de conflito. Numa briga de casal, por exemplo, este profissional, sem o devido preparo para isso, tem uma função de mediador. O estresse é constante quando há qualquer tipo de questão jurídica em jogo.

Ela aponta saídas para que o advogado não sinta negativamente no corpo os efeitos do seu ofício.

— O advogado é preparado durante a sua formação para ganhar sempre, mas é claro que isso não acontece. Então, é preciso aprender a lidar com a frustração de perder uma causa. O estresse não tem relação direta com a especialidade, seja criminal, trabalhista ou de família. O que mais conta é a pressão pelo êxito, até para garantir o retorno financeiro. Percebi que o advogado autônomo adoece muito mais pelos efeitos do estresse do que aquele que é funcionário de uma empresa — ensina a psicóloga, nascida em Madureira, criada no Rio Comprido e moradora da Tijuca.

Fátima reconhece que outras profissões dividem o topo da pirâmide com a advocacia quando o assunto é esgotamento físico e mental. Mas isso fica para um outro livro.

— De março para cá, médicos e enfermeiros estão exauridos. Todas as profissões têm mazelas, e pretendo abordar isso em outras obras — observa. — O meu próximo livro, porém, será sobre os desafios das advogadas. Só posso adiantar que elas sofrem das mesmas questões que os homens, mas com um agravante que está, de certa forma, relacionado ao machismo presente, de um modo geral, no sistema judiciário.

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