Livro aprofunda caminho dos danos que Guerra ao Terror causou à democracia dos EUA

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na tarde desta quinta-feira (26), o presidente americano Joe Biden respondeu às explosões que mataram ao menos 180 pessoas no aeroporto de Cabul com uma ameaça ao braço da organização terrorista Estado Islâmico que assumiu o atentado: "Nós vamos caçá-los e fazê-los pagar. Responderemos com força e precisão em nosso tempo, no momento e no lugar que escolhemos".

Sob a ótica do jornalista americano Spencer Ackerman, autor do recém-lançado "Reign of Terror" (reino do terror), essa com certeza é uma má notícia.

Ela significa que, a despeito da retirada do Afeganistão, os Estados Unidos continuarão dedicados à "guerra infinita" que vêm travando desde o 11 de Setembro e que envolve muito mais do que a presença militar em solo estrangeiro.

A ideia de que a Guerra ao Terror causou danos à democracia americana não é nova. Mas Ackerman a leva um passo adiante. Segundo ele, os estragos são maiores que a invasão da privacidade por sistemas de vigilância ou a aceitação da tortura como método legítimo de obter informações.

O assalto ao Capitólio no início deste ano, por radicais de direita que apoiavam Donald Trump, também seria um dos produtos dessa guerra.

Trump, diz Ackerman, percebeu algo importante sobre a era do 11 de Setembro: que seu motor secreto era o medo, "a imagem dos não brancos como saqueadores, ou mesmo conquistadores, vindos de civilizações estranhas e hostis". Dono desse insight, o ex-presidente jamais teria hesitado em usá-lo. Transformou-o, na verdade, no alicerce da sua política.

A tese de "Reign of Terror" pode ser resumida da seguinte forma: "Há uma linha reta conectando a reorganização da estratégia de segurança dos Estados Unidos em torno do terrorismo, depois do 11 de Setembro, com o aprisionamento de crianças imigrantes em jaulas, na fronteira com o México".

A frase não é de Ackerman, embora apareça no livro: é de Bernie Sanders, um dos ícones da esquerda americana. O ponto de observação do político e do jornalista é o mesmo. Uma posição "à margem do establishment", que lhes permite incriminar nos mesmos termos todos os que tiveram alguma responsabilidade na condução das políticas de segurança dos Estados Unidos nas últimas duas décadas.

Ou melhor: Trump ainda é um caso à parte. Mas as diferenças entre George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden, os outros ocupantes da Presidência americana nesse período, perdem relevo, uma vez que o único objetivo aceitável é "a completa abolição da Guerra ao Terror" —e nenhum deles caminhou ou caminha nessa direção.

Tais diferenças, contudo, não são irrelevantes. Por exemplo: saber que Biden, mesmo quando vice de Obama, sempre foi contrário a uma ocupação prolongada do Afeganistão, ajuda a explicar sua obstinação em manter o cronograma da retirada americana, a despeito da angústia dos afegãos que temem o Talibã.

Ajuda também a antecipar o tipo de ação militar que se pode esperar dos Estados Unidos nos próximos anos, agora que a ameaça de ataques terroristas foi renovada.

"Reign of Terror" é o tipo de livro que desenha uma grande tese para dar sentido ao caos da história. Não é a ferramenta indicada para quem deseja ter uma compreensão mais sólida e detalhada do aqui e do agora.

Para esses, livros como "The American War in Afghanistan", resenhado aqui há duas semanas, continuam sendo a melhor pedida.

REIGN OF TERROR

Autor: Spencer Ackerman

Editora: Viking Press

Págs.: 448 (R$ 108,94, ebook na Amazon)

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