Livro celebra 60 anos da Casa do Jongo da Serrinha, que precisa de doações para voltar a funcionar

“Quem não viu Tia Eulália dançar/ Vó Maria o terreiro benzer/ E ainda tem jongo à luz do luar”. “Meu lugar”, música exaltação à Madureira, composta por Arlindo Cruz, reserva versos especialmente ao jongo, uma manifestação cultural, de origem africana, que encontrou morada em uma comunidade do bairro que respira a ancestralidade da população que chegou ao Rio de Janeiro, vinda do Congo e de Angola, em meados do século XVI. Com a abolição, os ex-escravizados, porém desamparados, se afastaram do centro da então capital federal para viver no subúrbio, no alto dos morros. Foi assim que a dança que animava as noites de festa nas senzalas chegou à Serrinha, naquele tempo em que se comemorava a liberdade, mesmo com as vidas negras ainda presas às amarras de um sistema com fortes heranças escravocratas.

O canto, o ritmo e a dança de roda, características marcantes do jongo, foram transmitidos de geração para geração. Mas, passo a passo, esta tradição dava sinais de que poderia desaparecer em solo carioca. Foi aí que, há 60 anos, Vovó Maria Joana (1902-1986) criou um grupo de jongueiros que começou a levar para ruas, praças, escolas, igrejas e palcos a cultura do seu povo. Nesta época, o terreiro que havia fundado se tornou a Casa do Jongo da Serrinha. Neste 2022, o movimento cultural tem suas seis décadas comemoradas em forma de livro.

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Dely Monteiro, neta de Vovó Maria Joana, ou Vó Maria, como Arlindo Cruz eternizou na letra de um dos maiores clássicos de sua autoria; e Lazir Sinval, sobrinha de Tia Eulália, outra jongueira citada na canção e figura fundamental para manter esta potência de origem africana viva, são as autoras de “Conversas de quintal — 60 anos do Jongo da Serrinha”, produzido através de emenda parlamentar de apoio cultural em parceria com a UFRJ.

Cantora, matriarca e presidente da Casa do Jongo da Serrinha, Dely, nascida e criada nesta comunidade de Madureira, onde mora, carrega com orgulho o legado que sua Vovó Maria deixou.

— Fiz um mergulho profundo nas recordações de minha infância para escrever “Conversas de quintal” com a Lazir. Eu me arrepiava, chorava, ao lembrar a convivência com a minha avó. Ela era costureira, mãe de santo, jongueira e parteira. A hora que fosse, minha avó saía de casa para trazer uma criança ao mundo. Eu ia junto porque éramos muito grudadas. Ela sempre me dizia para aguardar na sala que a cegonha passaria com o bebê. Nunca via a cegonha (risos), mas essa proximidade com a minha avó, num momento tão sublime, jamais saiu da minha memória. No livro, o lado humano das matriarcas do Jongo da Serrinha está presente. Sinto que estamos conseguindo cumprir a missão de perpetuar esta dança que começou com os meus ancestrais — diz a herdeira, que disponibiliza o perfil @jongodaserrinha, no Instagram, para os interessados em obter o livro e conhecer mais sobre o espaço que mantém viva a cultura de matriz africana.

Fechada há dois anos, a Casa do Jongo da Serrinha precisa de ajuda para reabrir as portas.

— Cancelamos as atividades no início da pandemia, mas não temos como retomá-las porque é necessário fazer reformas para que a casa volte a funcionar. A crianças da comunidade estão ansiosas pelo retorno das aulas de dança, canto, capoeira, jongo e percussão. Estamos sem apoio algum, e toda ajuda financeira é bem-vinda, até porque as nossas atividades são totalmente gratuitas — ressalta Dely.

Cantora, compositora e coordenadora artística do Jongo da Serrinha, Lazir, moradora da Vila da Penha, sonha fazer uma grande festa de lançamento do livro que assina em parceria com Dely, mas a falta de verbas vai adiar o projeto.

— Em 26 de julho, Dia Estadual do Jongo, vamos nos reunir de forma íntima para, mais uma vez, agradecer aos nossos ancestrais por terem nos deixado uma cultura tão rica. Quando escrevemos o livro, em 2020, em meio à pandemia, tínhamos conversas virtuais que nos remetiam às memórias de mulheres, de matriarcas cheias de sabedoria, que são as nossas rainhas, as nossas verdadeiras pretas velhas. Tive a oportunidade de aprender a cultura do jongo, mas luto para que essa riqueza seja transmitida nas escolas. A gente sofre preconceito porque não se conhece o que é o jongo. Na verdade, todos os movimentos em que o tambor está presente são discriminados. Isso é resultado do racismo e da intolerância religiosa. Espero que o livro contribua para transformar o olhar da sociedade em relação à cultura africana — torce.

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