Livro com cartas para Carolina Maria de Jesus abriga empatia e revolta

FERNANDA SILVA E SOUSA*
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Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus. (18.11.1960. Foto: Acervo UH/Folhapress)
Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus. (18.11.1960. Foto: Acervo UH/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - É sob os efeitos do reconhecimento de um direito que é proporcionado por uma "irmã" negra de outro país que "Cartas a uma Negra", da escritora martinicana Françoise Ega, radicada na França e morta em 1976, se estrutura em um diálogo com uma escritora brasileira, a quem as cartas são dirigidas. "Pois é, Carolina, as misérias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irmãs. Todos leem você por curiosidade, já eu jamais a lerei; tudo que você escreveu, eu conheço".

Ega nunca teve tempo de ler a tradução francesa de "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus, em função do espaço que o trabalho doméstico e a maternidade ocupavam na sua vida como imigrante antilhana. Contudo, conhecer a trajetória de Carolina Maria em uma reportagem da revista Paris Match foi suficiente para que ela empreendesse uma escrita que, como defendia a escritora afro-americana Toni Morrison, não fosse capturada pelo olhar branco. Ou seja, que não estivesse preocupada em atender expectativas alheias à própria complexidade que a experiência negra.

Assim, ao estabelecer Carolina como destinatária de suas cartas, Ega desestabilizou a projeção de um leitor universal -e, portanto, branco-, contando seu dia a dia e suas reflexões em meio a uma experimentação contínua com a linguagem, para alguém que compreendia os seus "gestos ancestrais".

Afinal, "nós não falamos o mesmo idioma, é verdade, mas o do nosso coração é o mesmo, e faz bem se encontrar em algum lugar, naquele lugar onde nossas almas se cruzam", escreve ela. Nesse movimento, imagens tragicamente belas são criadas, em que a pobreza, por exemplo, é descrita como "o mesmo sol" que "brilha sobre suas tristes vidas".

Num idioma afetivo e ancestral, Françoise Ega descortina para Carolina, sem precisar se explicar demasiadamente ou legitimar sua experiência, os improvisos, estratégias, sonhos, desejos e subversões subterrâneas de mulheres negras que, embora confinadas a um trabalho precário e braçal, nunca perderam a percepção de si mesmas e a busca por uma autodefinição.

Além disso, Ega faz das cartas um lugar de reparação, de vingança, de solidariedade e de afirmação da sua revolta. Como responde ao ser questionada por uma patroa. "Uma negra indignada, não dá pra ver?"

Porém, o livro também evidencia como há uma vida além do trabalho doméstico, uma vida que é celebrada e dançada, em que os corpos antes ajoelhados esfregando chãos alheios, vibram, por exemplo, em um casamento. "Dançamos, esquecemos as patroas, esquecemos os rancores. Só pensamos na felicidade de Cécile", ou num baile onde o dinheiro obtido em "longas horas de faxinas" é usado para "comprar vestidos tão bonitos".

Não à toa, é na literatura que Ega pode, após mais um dia exaustivo de trabalho, se livrar do "cheiro da vida dos outros" -o aspecto que julga mais penoso de seu trabalho doméstico- e sentir o cheiro da sua própria vida, de sua família e de seu povo. Mais do que isso, ela pode também responder todos os dias à pergunta irônica que faz num trecho do livro. "Eu tinha mesmo direito de maltratar a língua de Molière? Eu, uma pobre negra?"

Sim, tinha. E, assim como Carolina interroga se "o negro não tem direito de pronunciar o clássico?" enquanto continua pronunciando o clássico em seu projeto literário, Françoise Ega, ao "maltratar" a língua francesa contando sua vida, reconstitui dores e belezas, angústias e alegrias que revelam não uma "pobre negra" ou a "faxineira", mas Maméga -apelido carinhoso baseado na contração créole de "madame" com "Ega"- por ela mesma.

*Doutoranda em teoria literária e literatura comparada na USP

CARTAS A UMA NEGRA

Preço: R$ 59,90 (256 págs.); R$ 29,90 (ebook)

Autor: Françoise Ega

Editora: Todavia

Tradução: Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty

Avaliação: ótimo