Livro ‘Essa República vale uma nota’ faz passeio criativo pela história do Brasil

Alice Cravo*
Washington Luís foi fotografado pelo jovem fotógrafo Roberto Marinho

Foi em uma das repetidas conversas sobre a República do Brasil que o jornalista Octavio Guedes e o economista Daniel Souza resolveram contar a história do país de uma maneira criativa. O livro “Essa República vale uma nota — Histórias do Brasil na visão de um impagável colunista de jornal”, mostra, através de notinhas de um fictício colunista, o Brasil desde o nascimento de sua República até os dias atuais.

— Tentamos construir um livro informativo, com humor, para ter a liberdade de fazer algumas brincadeiras — ressalta Souza.

Sem deixar períodos marcantes de fora, a coluna registra o que costuma ser descartado pelos livros com um tom irônico, crítico e nada acadêmico.

— Surgiu a ideia de contar essas histórias porque a gente concluiu que a República andava em círculos. Começamos escrevendo um texto para cada presidente, mas achamos chato, previsível. Aí um dos editores deu a ideia da notinha. Pronto! Quando achamos esse formato, foram três meses para concluir, as coisas andaram. Foi muito gostoso — resume Guedes.

Abaixo, separamos trechos do livro, comentados pelos autores, para você entrar no clima. Boa leitura!

10 de junho de 1904

NEGÓCIOS INTERIORES: Lembra de nossa implicância com o nome Ministério de Negócios Interiores? O nome faz sentido. O doutor diretor Oswaldo Cruz teve a ideia de invadir a residência das pessoas para aplicar a injeção à força. As senhoras serão picadas. Mesmo com os maridos ausentes do lar. Safadinho esse doutor.

— Essa nota brinca com o motivador da revolta. As pessoas se sentiam invadidas e tinha uma questão machista. O problema não estava na vacina em si, o problema era levantar o vestido e olhar um pedaço do braço da mulher, algo sensual na época. A nota brinca com esse sentimento de posse do homem — explica Souza.

24 de outubro de 1930

FLAGRANTE: Não podia ser de outra forma: o presidente que mais abriu estradas neste país foi fotografado deixando o Palácio dentro de um... carro. O furo jornalístico e a foto exclusiva são de um jovem repórter: Roberto Marinho.

— A foto é real (abaixo), foi uma fotografia do jovem repórter Roberto Marinho. Achei interessante porque é um furo jornalístico. O Washington estava saindo cabisbaixo, deposto, preso, em um banco de trás de um automóvel. Aquele é o último momento de alguém que era tão arrogante, mas se viu ali num banco de trás. A imagem é muito expressiva — comenta Souza.

24 de agosto 1954

O MANDANTE: Lacerda não tem dúvidas: o mandante do crime é Getúlio. A coluna apurou o sentimento nas ruas: Getúlio é um demônio. Lacerda é santo. Opa! Interrompemos novamente nossa programação para informar que o presidente Getúlio acaba de se matar! A coluna apurou o sentimento nas ruas: Getúlio é santo. Lacerda é um demônio.

— Às vezes a coluna é um Twitter e transmite em tempo real. Isso mostra como a política tem muita paixão no Brasil, não é algo só racional. O vilão de hoje pode ser o herói de amanhã. A nossa República é uma montanha-russa e essa nota do Getúlio é para mostrar como a temperatura muda de acordo com a paixão das pessoas — ressalta Guedes.

15 de abril 1959

VASSOURINHA: A oposição não fala em outra coisa senão passar o país a limpo e impedir que nossa bandeira seja vermelha. A velha e conhecida corrupção e o perigo da Ursal voltam a dominar o ambiente político desta República de duas notas.

— A Ursal aí significa União da República Sindicalista da América Latina. Getúlio era acusado de fazer uma aliança com o Perón para formar uma Ursal, uma República sindicalista. Sempre teve esse imaginário de que haveria uma aliança entre as potências da América para dominação e sempre quem iria combater essa suposta aliança, essa Ursal, era o governo novo. Esse discurso de combate à corrupção e ao comunismo sempre existiu ao longo da República — lembra Guedes.

14 de novembro de 1968

VISITA À REDAÇÃO: A coluna recebeu ontem a visita de Dona Solange. Ela lembrou os laços familiares com o Lourival Fontes, o homem que também tivemos o prazer de receber no Estado Novo. Foi um encontro agradável.

— Ficamos muito na dúvida de como tratar o período de ditadura. A gente sempre recebe a visita de um censor na ditadura. No Estado Novo era o Lourival. Quem viveu na época de 64 conhece bem a Solange. Era ela quem autorizava ou não os programas de TV. Qualquer coisa vinha com um selo de assinatura da Solange. Ela é a Solange da Censura e a gente brinca que era parente do Lourival — explica Guedes.

21 de junho de 1970

90 MILHÕES EM AÇÃO: SIM!!! Somos tricampeões no México, após uma magnífica vitória por 4 a 1 contra a Itália na final! O caneco é nosso! Agora ninguém segura esse país! Estamos no rumo certo! A seleção nacional visitará o supremo líder da nação, Emílio Garrastazu Médici.

— Eu acho que no final o modelo foi interessante e justamente ficou como um alerta. Várias notas chapas brancas. Você tem uma linha de argumentação das notas e do nada vira pró-governo. O colunista passa uma mensagem que de uma certa forma foi torturado, constrangido pela ditadura. Tentamos reproduzir o que seria um colunista numa época dessa — esclarece Souza.

6 de setembro de 1970

VIVA O BRASIL: Participe da Semana da Pátria. O Brasil está dando certo!

— A partir da visita do censor, as notinhas são favoráveis. É a coluna censurada, chapa branca. Não tem jornalismo — ressalta Guedes.

6 de dezembro de 1989

CARA DE UM...: O garoto Collor promete varrer a corrupção do país, como o velho Jânio. É liberal na economia e conservador nos costumes, como o velho Jânio. Busca uma ligação direta com os mais pobres, os descamisados, como o velho Jânio. Promete afastar definitivamente o perigo comunista do país, como o velho Jânio. De novo?! A coluna reafirma? Já cogita pendurar as chuteiras.

— O colunista vai ficando cansado, ficando entediado. O colunista reflete essa angústia de ver tudo se repetindo. Tanto que, por várias vezes, ele confunde os personagens. E é um país que tem a mania de inaugurar um país com a entrada de um novo presidente. Sempre tem o discurso do “isso nunca foi feito no país”. Daqui para frente é tudo novo. E não, é tudo igual. O imaginário do novo nada mais é do que um truque para a gente esquecer a história — afirma Guedes.

*Estagiária sob supervisão de Cristine Gerk