Livro 'Expresso 2222' celebra 50 anos do álbum de Gil com textos e obras de arte para cada faixa do disco

Ana Oliveira quer contar mais uma história. “Perdão, eu falo muito, viu?”, diz ela, já sabendo que será perdoada — e incentivada. Pois bem: esta semana chegaram da gráfica os primeiros exemplares de “Expresso 2222”, livro-objeto com ensaios e trabalhos visuais que ela organizou em homenagem ao disco homônimo lançado há 50 anos, no qual Gilberto Gil uniu sons cosmopolitas captados em pleno exílio londrino com suas raízes nordestinas — e lançou a clássica faixa-título. Na hora de pesar o recém-nascido exemplar em uma balança superprecisa para fins de distribuição, a surpresa: um “Expresso 2222” pesa exatamente 2,222 quilogramas — com foto e vídeo para comprovar. Por que destacar isso? Gil ensina na última faixa do clássico, “Oriente”: “pela simples razão de que tudo merece consideração”.

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A consideração vem no início, na escolha dos acadêmicos, jornalistas e artistas plásticos que analisaram e interpretaram visualmente, em duplas, as nove faixas do disco, nomes como Hermano Vianna, Moreno Veloso, Renata Felinto e Marcela Cantuária. Mas também no acabamento final: um orgulho particular de Ana é a sobrecapa do livro, que vira um pôster circular com foto de Gil feita por João Farkas — recuperando a ideia original do designer baiano Edinízio Ribeiro Primo, que em 1972 tentou emplacar uma capa redonda para o LP mas esbarrou nas barreiras da logística.

— Em todas as etapas do projeto, a gente buscou restituir um pouco do lúdico, da gostosura de fazer as coisas e não ser tão sério, daquele ambiente contracultural de liberdade criativa — conta Ana, que já organizou livros sobre outros dois marcos da MPB no período, “Tropicália ou panis et circensis” e “Acabou chorare” — Bora brincar também, sabe? E fazer coisas das quais a gente possa rir, que a gente possa achar gostoso simplesmente, né? Sem maiores complicações.

Cabe a Gil complicar um pouco o livro que Ana fez para o seu disco:

— Ana Oliveira é uma pessoa que vem acompanhando com interesse o meu trabalho e se manifestando a respeito em muitas oportunidades. Eu acho que o livro resulta de uma densidade memorial muito forte e do interesse natural de uma realizadora como ela é, muito associada a todo o meu trabalho há muito tempo — diz o compositor, que em 2015 lançou com Ana o livro “Disposições amoráveis”, em que ele conversa sobre vários temas atuais com músicos, políticos e intelectuais. — Ana é uma pessoa que tem compromissos com o desenrolar histórico da cena cultural do Brasil. É pessoalmente próxima ao meu trabalho e à minha pessoa.

Faixa a faixa

No livro, cada música do álbum é analisada em texto e traduzida plasticamente, seguindo a ordem que as nove faixas têm no disco.

Primeira faixa do lado A, “Pipoca moderna”, composição instrumental de Sebastião Biano, com pífanos e tambores, é estudada pelo antropólogo Hermano Vianna e recebeu uma pintura -estandarte de Renata Felinto. A hendrixiana “Back in Bahia” recebe texto da atriz e escritora Fernanda Torres e uma obra de Regina Silveira. Na sequência, duas composições do mestre Jackson do Pandeiro: “O canto da ema” é revisto pela crítica literária Micheliny Verunschk e o coletivo Assume vivid astro focus (Avaf), enquanto a mistura de “Chiclete com banana” é analisada pela jornalista Patrícia Palumbo e interpretada visualmente por Nino Cais. Já o texto de “Ele e eu”, balada de Gil dedicada a Caetano, fica com seu filho Moreno Veloso, seguido de um diagrama do artista André Vallias.

Abrindo o “lado B”, vem “Sai do sereno”, do sanfoneiro Abdias dos Oito Baixos, cuja transição de forró para psicodelia é explicada pelo crítico Claudio Leal e ilustrada com um díptico de Vânia Mignone. Depois, o poeta e músico Arnaldo Antunes chama atenção para o “batuque de sílabas” de “Expresso 2222”. Além de inspirar uma instalação luminosa de Muti Randolph, a faixa ganhou uma poema visual do próprio Arnaldo — que, graças à habilidade de Ana com papel e tesoura, está no livro em formato 3D. “Depois de uma saga de tentativas e erros, consegui chegar a um prototipozinho feito à mão que pode ser replicado industrialmente”, escreve ela na introdução.

Depois é a vez de Lorena Calábria reconstituir todo o contexto da criação de “O sonho acabou”, surgida quando Gil foi ao festival de Glastonbury, na Inglaterra. A música levou Marcela Cantuária a criar uma pintura no clima flower power.

— Eu estava chegando do exílio na Inglaterra. Havia toda aquela acumulação de experiências novas e vivências musicais lá em Londres, e isso influenciou muito o disco — lembra Gil.

Por fim, encerrando o disco-que-virou-livro, a pesquisadora Mila Burns aproveita o embalo de “Oriente” (do verso “se oriente, rapaz”) para escrever uma carta ao seu filho. A missiva é acompanhada de um ready-made de Marepe que alude à constelação do Cruzeiro do Sul, citada na letra de Gil.

O livro-objeto já está em pré-venda, e seu lançamento oficial será em 8 de dezembro, em São Paulo, no Auditório Ibirapuera, com pocket show de Arnaldo Antunes. E Ana já tem outros planos para este expresso, ainda não revelados: “isso já é outra história”.

“Expresso 2222”. Organizadora: Ana Oliveira. Editora: Iyá Omin Edições. Páginas: 252. Preço: a definir.