Livro fala sobre pessoas trans no mercado formal de trabalho

Giorgia Cavicchioli
A jornalista Paloma Vasconcelos autografando uma cópia de seu livro. Foto: Wallace Leray.
A jornalista Paloma Vasconcelos autografando uma cópia de seu livro. Foto: Wallace Leray.

Saber que 90% das pessoas trans do Brasil estavam fadadas à prostituição assustou a jornalista Paloma Vasconcelos. Ela se deparou com o número em 2016, quando estava fazendo uma pesquisa para seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da faculdade.

Tendo conhecimento do dado, a então estudante de jornalismo decidiu que iria achar e tentar falar com representantes dos 10% de pessoas que conseguiram furar essa barreira de transfobia e entrar no mercado formal de trabalho.

Para ela, era importante mostrar para as pessoas trans que, mesmo sendo uma inclusão difícil, essa não era a única saída para que elas tivessem dinheiro. Mesmo dizendo não ser contra o trabalho das profissionais do sexo, a jornalista diz que não acha justa essa ser a única opção das pessoas trans.

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Foi assim que ela começou a buscar por pessoas trans que estivessem no mercado formal de trabalho para a construção da obra Transresistência. Luiza, Renata, Bruno, Enzo, Diogo, Samantha, Helena e Klaus toparam participar do projeto e contaram suas histórias para Paloma.

Segundo ela, a busca para os personagens do livro partiu de uma junção de indicações de amigos, pesquisa e, claro, uma pitada de ajuda do destino. A jornalista conta que seu primeiro contato com Luiza, por exemplo, foi quando ela a viu entrar em um vagão de trem do metrô usando o uniforme do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

Naquele momento, no entanto, ela conta que não achou que seria adequado falar com Luiza. “Todas as pessoas olharam pra ela. Eu fiquei mal com aquilo”, diz a jornalista que decidiu ir até o Masp cerca de dois meses depois de ter cruzado com Luiza por acaso no transporte público e procurar por ela.

Ao chegar no local e pedir para falar com a funcionária, ela foi prontamente atendida e as duas conversaram sobre o trabalho que Paloma estava fazendo para a faculdade. “Ela sentou comigo ali no vão e passou o telefone dela. Dias depois eu marquei e fui para a casa dela. Foi muito incrível a forma como ela confiou em mim”, diz a jornalista que passou dois dias vendo a rotina de Luiza.

Capa do livro Transresistência. Foto: Wallace Leray.
Capa do livro Transresistência. Foto: Wallace Leray.

Segundo Paloma, os outros oito perfilados de seu livro reagiram à proposta de fazer parte da obra da mesma forma e se abriram de forma acolhedora para a jornalista. “Eu não tive dificuldade com as oito. Pelo contrário, elas ficaram felizes”, diz.

De acordo com ela, isso também veio por conta do jeito que ela trata seus entrevistados. Ela afirma que ouviu deles que muitos jornalistas fazem perguntas desrespeitosas quando fazem entrevistas. No entanto, Paloma foi sensível às histórias e sentimentos de seus entrevistados.

“Eu decidi que minha narrativa como jornalista é para ampliar essas vozes”, explica dizendo acreditar que seu livro é “um manifesto contra a transfobia”. “Eu sou assumida lésbica desde os 17 anos. Na época, eu não tinha contato com pessoas trans. E eu notei que o movimento LGBT não se importa com a última letra. Eu quero, realmente, não só lutar pelo L, mas também pelas pessoas trans”, afirma.

Sendo assim, Paloma mostra que o livro se tornou muito mais do que o seu trabalho de conclusão de curso. Para a então jornalista em formação, foi a forma de entender que a obra também serviria para conscientizar pessoas cis e tirar preconceitos e estereótipos que perseguem as pessoas trans.

Mas, o livro também ajudou Paloma a entender sobre si mesma. Como mulher cis e lésbica, ela viu muitas semelhanças entre a história dela e de alguns de seus perfilados no livro. “É muito louco como a trajetória do homem trans é parecida com a da lésbica”, explica.

Lendo o livro de Paloma fica evidente toda essa imersão que ela teve no trabalho e como o olhar sensível e respeitoso para as pessoas trans pode ajudar a fazer com que pessoas cis entendam a importância de deixar o preconceito de lado e ver o outro ser como humano.

Ficou interessado em ler o livro? É possível baixá-lo de graça aqui.