Livro leva à reflexão sobre o drama da gordofobia

Regiane Jesus
·2 minuto de leitura

RIO — Não é exatamente uma biografia. Mas passa perto. No livro “Maior que o mundo”, o ator e escritor Hernane Cardoso conta a história de João, um adolescente tijucano, gordo, que sofre bullying na escola e enfrenta dificuldades para se socializar e iniciar sua vida afetiva. Ex-morador da Tijuca e atualmente no Lins de Vasconcelos, o também roteirista se esforçou para se distanciar ao máximo da saga do personagem que ganhou vida inicialmente no teatro — em peça homônima que estreou em 2017 e ficou em cartaz até o ano passado—, mas os conflitos de criador e criatura são mesmo muito parecidos.

Não foi fácil para Cardoso se lembrar do tempo em que, na hora do recreio, ouvia ofensas dos colegas do Instituto de Educação, onde estudava, porque não correspondia aos padrões estéticos. Ser preterido para participar de coreografias nas festinhas também doía no então adolescente, que, sim, sabia dançar. Na obra publicada pela editora Ubook, João passa por situações similares em um colégio que, não por mera coincidência, remete ao suntuoso prédio da Rua Mariz e Barros.

— “Maior que o mundo” eterniza a peça e ainda propicia que eu mergulhe de uma forma mais profunda na questão da gordofobia. O texto do espetáculo fica centrado no João, que sou eu mas não só eu (risos), mas o livro me dá a possibilidade de refletir, através deste e de outros personagens, como se chega na idade adulta com saúde mental depois de uma adolescência que não foi tranquila. Recordei muito o que vivi, como as paixões frustradas da adolescência que esbarravam na barreira do visual, porque gordo costuma ser visto como feio ou como uma pessoa nada sexy. Mas o que escrevi não é uma autobiografia porque criei situações que não necessariamente aconteceram e personagens que nunca conheci — diz o escritor, que está no Instagram no perfil @hernanecardoso.

Independentemente do que viveu ou não, o objetivo de Cardoso é incentivar a autoaceitação e combater o preconceito para que ninguém mais seja julgado e humilhado pelo número que a balança marca.

— O livro é sobre poder ser o que se é, acreditar que dá para ser feliz fora dos padrões. Gordo pode e deve se sentir bonito e não tem que ser infeliz, massacrado, humilhado. Somos seres humanos!

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