Livro 'Motel Brasil' mostra como hospedagem de viagem nos EUA foi adotada por amantes no país

Nelson Gobbi
'Unicórnio', uma das obras da artista Monica Barki inspirada no universo dos motéis brasileiros

RIO — Contração das palavras “motor” e “hotel”, o motel surgiu nos EUA, em 1925, como uma hospedagem para viajantes que cruzavam o país pelas infinitas highways. Ao chegarem ao Brasil, no fim da década de 1960, eles ganharam nova função e significado.

Em plena ditadura , quando a repressão política se estendia aos corpos e costumes, os motéis passaram a abrigar a revolução sexual que não cabia mais nas disputadas garçonières e nas arriscadas viagens de fuscas e aero-willys até as então desertas praias da Barra.

A forma como as acomodações americanas de descanso rápido se converteram em love hotels aqui e como moldaram o imaginário nacional é o tema do livro “Motel Brasil: uma antropologia contemporânea”de Jérôme Souty. Lançado em 2015 na França, ele chega ao mercado brasileiro pela Editora Telha. Doutor em Antropologia Social, Souty, que vive no Rio desde 2005, ficou curioso sobre os motéis assim que chegou.

— Moro há 15 anos no Brasil, e desde o início os motéis me chamaram atenção. Era um modelo que não existia na Europa, lá seria meio impensável levar a namorada a um lugar assim — recorda Souty. — Depois percebi que não se pesquisava os motéis do ponto de vista sociológico, o que é curioso, por serem verdadeiras instituições brasileiras.

Mas, após cinco décadas de transformações comportamentais, qual o espaço que o motel ocupa hoje no imaginário e na prática sexual do brasileiro? E, em tempos em que a abstinência sexual voltou ao vocabulário, qual a maior ameaça a estes estabelecimentos: a crise econômica ou a onda conservadora?

Repressão e expansão

Outro livro sobre o tema deve sair este ano: “Caça aos prazeres: Como a mudança nos costumes desafiou a ditadura militar, atropelou a abertura política nos anos 1970 e levou o sexo do mato para os motéis”. Escrito pelos jornalistas Murilo Fiuza de Melo e Ciça Guedes, editora assistente do GLOBO, a obra revela como o regime autoritário, ao mesmo tempo que reprimia costumes, financiou indiretamente a expansão do setor.

Mello lembra que, antes dos motéis, havia os chamados hotéis de rotatividade — citados em “Engraçadinha”, de Nelson Rodrigues, por exemplo, e vigiados pelas autoridades.

— Em 1966, com a criação da Embratur, foi elaborado um plano nacional de turismo, com incentivos a estabelecimentos fora dos centros urbanos. Muitos militares viraram sócios dos novos motéis — conta o jornalista.

Para a co-autora de “Caça aos prazeres”, a volta da pauta comportamental ao debate político não deve ser uma ameaça ao setor, que conseguiu sobreviver a momentos mais extremos.

— No auge da epidemia da Aids, muita gente achou que os motéis fossem quebrar, e eles reverteram o quadro ao oferecerem preservativos aos clientes, de forma pioneira — pontua Ciça. — No Rio, a maior ameaça é a especulação imobiliária e a resistência de empresários em modernizar os estabelecimentos.

Da suíte às artes

Desde a abertura dos dois primeiros motéis no Brasil, em 1968 — o Playboy, em Itaquaquecetuba (SP), e o Holiday, no Rio — , o imaginário destes espaços transcendeu os limites das suítes e foi apropriado pela indústria de entretenimento e pela produção artística.

A imagem que ilustra a reportagem é da série “Desejo”, de 2014, produzida por Monica Barki em vários motéis do Rio.

— Na época, ia muito a motel com um namorado e começamos a nos fotografar — conta a artista. — Meus trabalhos sempre foram pessoais, e vi que aqueles momentos poderiam se transformar em uma série.

Se Monica destacou o lado da fantasia, Aleta Valente se prepara para abordar os motéis como paisagem urbana. Vencedora da Bolsa ZUM de Fotografia do Instituto Moreira Salles de 2019, a artista inicia, em 1º de março, uma residência por 20 motéis da Avenida Brasil — que enxergava no trajeto diário de sua antiga casa em Bangu até o Centro do Rio:

— Acordava e dormia durante a viagem, e os motéis eram pontos de referência. Quero explorar esta dualidade entre a imagem dos oásis de prazer e a vida de quem perdem três horas por dia na via. Muitas vezes, dispensam o sexo para terem um pouco mais de sono.