Livro narra trajetória da Odebrecht e conta a guerra entre Emílio e Marcelo em detalhes

Thiago Herdy
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Acervo Odebrecht
Acervo Odebrecht

SÃO PAULO. Norberto Odebrecht, pai de Emílio e avô de Marcelo, tinha o costume de distinguir nas conversas com engenheiros da empresa a “ética da consciência” da “ética da responsabilidade”. Ao falar da segunda, ele citava um hipotético empresário que dependia de seu faturamento para garantir o sustento de milhares de famílias e que ouvia, ao se deparar com um funcionário público: ‘Se você deixar 10% comigo, eu te dou o resto’. Ensinava Norberto: "A ética da consciência diz: não dê. Mas a da responsabilidade diz: dê. Eu olhava pela janela do canteiro e decidia dar”, contava. “Entro na lama com os porcos, mas saio do outro lado limpo e de terno branco”, era outra frase clássica do empresário entre os funcionários da empresa, ao explicar sua relação com a corrupção.

No livro A organização (Companhia das Letras, 640 páginas), que chega nesta sexta-feira às livrarias, a repórter Malu Gaspar convida o leitor a entrar com ela na lama para conhecer os lances mais significativos da trajetória da empreiteira baiana que nos anos 2010 ocupou o posto de maior empreiteira brasileira e de líder no setor petroquímico.

Desde os anos 70, mais do que engenharia, a Odebrecht construía relacionamentos. O pilar de seus negócios se dá a partir de uma ideia de relação de confiança e lealdade absoluta ao cliente, atendendo-o em suas demandas, legais ou ilegais, e garantindo, com isso, o que em "odebrechês" se intitula como “domínio do relacionamento político-estratégico”, ou simplesmente “domínio do cliente”.

— Fazia parte do plano deles conquistar os governantes, autoridades. Fazer e sedimentar o relacionamento com as pessoas era parte importante da história deles — diz a autora, que dedicou pouco mais de três anos ao projeto do livro.

Fosse o cliente o general Ernesto Geisel (com que Norberto compartilhava raízes germânicas), José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula ou Dilma, a Odebrecht estava por perto. Várias páginas são dedicadas à relação da empresa com o líder petista, momento em que a empresa alcançou seu auge. O bom relacionamento com Fernando Henrique é mencionado, mas pouco se avança sobre os desdobramentos deste namoro.

Tendo como espinha dorsal fatos trazidos na colaboração premiada assinada há três anos por 77 executivos da empresa, além das delações de outros colaboradores da Lava-Jato que tiveram algum relacionamento com a empreiteira, o livro reúne em uma narrativa única episódios que abalaram a República e chocaram o mundo, envolvendo propinas a centenas de políticos, de prefeitos a presidentes de diversos países onde a empresa atuou.

A contextualização do sucesso e dos escândalos que a envolveram nas últimas décadas (construção de Angra 2, Anões do Orçamento, impeachment de Collor e Petrolão, para citar alguns) mostra governo e Odebrecht como peças de uma mesma engrenagem, com vista à sobrevivência empresarial de um, e política, do outro. É uma relação que extrapola preferências pessoais ou ideológicas. A Odebrecht oferece rios de dinheiro, no Brasil ou no exterior, compra aliados, investe nos projetos que o governo quer. O governo, por outro lado, entrega informações privilegiadas, prestígio, financiamentos a juros módicos e condições que, no fim das contas, garantirão bônus milionários a executivos e deixarão os Odebrecht mais ricos.

Quando reunidos lado a lado, os percentuais de orçamentos de obras solicitados por agentes públicos de praticamente todas as cores partidárias e ao longo da história, a título de propina, impressionam. Para citar alguns exemplos: Paulo Maluf exige 3%, o esquema PC Farias/Fernando Collor quer 7%. Geddel Vieira Lima levava 4%, Teotônio Vilela, 2,5%. Paulo Preto, operador tucano, de 0,75% a 2%. Para gerentes da Petrobras, até 3%. O PMDB já levou 5%, PT e PP, 3%. Construção de usina ou eleição presidencial demandam pagamento por fora na ordem dos nove dígitos, ou seja, ultrapassam R$ 100 milhões.

Se a primeira metade do livro é dedicada ao relato minucioso desse episódios, a segunda começa quando a Lava-Jato bate à porta. Aqui estão os bastidores do acordo de colaboração que é ainda hoje considerado o mais abrangente já assinado no mundo, trazidos principalmente a partir do relato de gente ligada à empresa. Na ocasião, o grupo reconheceu ter pagado US$ 788 milhões em propina no Brasil e no exterior.

O livro revela o constrangimento mediante a descoberta de que executivos da Odebrecht que também levavam um extra por baixo dos planos. É na parte final do trabalho que estão esmiuçados os lances mais duros da complexa relação entre Emílio e Marcelo Odebrecht, pai e filho, que resultaria um traumático e dolorido rompimento público.

A autora teve acesso a trechos do diário, bilhetes e algumas das cartas enviadas por Marcelo a advogados, familiares e colegas no período em que ele esteve preso em Curitiba. O ponto de vista do herdeiro nas brigas com o pai é exposto exaustivamente. Por discordar das condições de seu acordo de colaboração e o papel reservado para ele no dia seguinte à saída da cadeia para cumprimento de pena em regime domiciliar — nenhum —, Marcelo denuncia sentir-se injustiçado e inicia um duelo fratricida com o pai e aliados que ele julgava atuarem contra ele.

Para segurar o herdeiro de gênio difícil, o novo comando da empresa o constrange com uma ação na Justiça para reaver valores que dizem terem sido pagos a ele, supostamente mediante chantagem. A medida judicial é autorizada por Emílio. Dinheiro na conta de suas próprias netas é bloqueado.

Passada a onda que favoreceu as duras punições na Lava-Jato, Marcelo hoje está exaurido financeira e emocionalmente. Também arrependido por ter aceitado as condições de sua delação. Implora agora arrego ao pai, que lhe responde que ele colheu o que plantou.

"Vocês acompanham o sacrifício que fiz pela empresa, sendo bode espiatorio [sic] de algo que você sabe [que] começou muito antes de mim e sempre foi liderado por meu pai. Todos os que se beneficiaram com bilhões ficam livres por eu ter pago o pato por todos. Eu e minha família”, denuncia Marcelo uma das cartas reveladas pelo livro. "Aquela guerra se tornara um cipoal desprovido de razão, uma espécie de entropia da qual, aos poucos, amigos e parentes foram se afastando, para evitar serem consumidos”, relata a autora.

Do ponto de vista dos negócios, a situação da maior empresa delatora do mundo é das mais difíceis. Em fase de recuperação judicial e com dívida de dezena de bilhões de reais, patina em meio à batalha para que seu capítulo final não seja a falência.