Livro de pesquisador francês lança luz sobre Plano Condor na América Latina

Adolfo GUIDALI
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O advogado paraguaio Martín Almada em Madri em 14 de abril de 1999
O advogado paraguaio Martín Almada em Madri em 14 de abril de 1999

A luta do advogado e defensor dos direitos humanos paraguaio Martín Almada, que culminou na descoberta de toneladas de documentos do sinistro Plano Condor, é o eixo de um livro que acaba de ser publicado na França pelo escritor e jornalista Pablo Magee.

Almada, acusado de "crime de terrorismo intelectual" sobreviveu a quatro anos nas prisões do ditador paraguaio Alfredo Stroessner. Em 1978, foi libertado graças à pressão internacional e se exilou na França, onde trabalhou na Unesco.

No final de 1992, com a ajuda de um juiz paraguaio e de sua própria esposa, María Stella Cáceres, atual diretora do museu das Memórias em Assunção, Almada conseguiu trazer à tona os 'Arquivos do Terror' sobre o plano realizado em conjunto pelas forças militares de vários países, principalmente do Cone Sul-americano, apoiadas pela CIA a partir de meados da década de 1970.

Pablo Magee (Paris, 1985), um intelectual francês que reside no Paraguai há um tempo, conheceu Almada e criou um vínculo poderoso que se traduziu em um livro ao qual dedicou sete anos e que é tão atípico quanto fundamental para interpretar aqueles anos de terrorismo do Estado.

"A noite em que conheci Martín em sua casa falamos por seis ou sete horas sem parar. Me contou sua história pessoal e sua descoberta sobre aqueles arquivos", que integram o Arquivo da Memória do Mundo da Unesco, contou Magee à AFP.

Desde então, Almada e ele percorreram meio mundo e, entre outros, convenceram o papa Francisco para que abrisse os arquivos do Vaticano sobre o Plano Condor.

Magee encontrou um motivo ideal para escrever. Não é por acaso que fosse nada menos que o escritor republicano espanhol Jorge Semprún, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, quem lhe expressou "a obsessão pelo dever de fazer memória", quando era estudante no liceu Frédéric Mistral de Aviñón, na França.

- "Sob escuta" -

A vocação de Magee não se limita à sua relação com Semprún. Quando estudava em Londres, teve como professora uma pessoa que trabalhou para o secretário de Estado americano Henry Kissinger (prêmio Nobel da paz em 1973), em um momento em que a CIA colaborou no golpe de Estado no Chile contra Salvador Allende, e que renunciou e partiu ao Reino Unido ao descobrir a linha da política externa de seu país.

"Ela me introduziu o vírus de tentar compreender o funcionamento das ditaduras na América Latina", afirma.

Mas a pesquisa no Paraguai para a "Operação Condor" (Éditions Saint-Simon, Paris 2020), "não foi nada simples", confessa.

"Percebi que estava sob escuta e sendo vigiado de muito perto. Depois chegaram as ameaças e ataques informáticos em meu e-mail. Um dia, todos os e-mails vinculados à minha pesquisa foram apagados. Tudo isso não foi fácil de lidar, mas acredito que faz parte desse universo", explica.

Para Magee, "a defesa dos direitos humanos e da memória não é um terreno neutro em lugar nenhum e menos ainda na América Latina, onde esses assuntos são muito recentes ou atuais".

Nesse sentido, Martín Almada afirma por sua vez que aquele condor "ainda voa", em virtude dos últimos acontecimentos políticos na América Latina, citando o auge da extrema direita.

age/mar/aa