Livro ‘preserva’ sobrados da zona oeste paulistana

Em terra de prédios, sobrado é retrô. Incomodado com a verticalização cada vez mais agressiva da cidade, o fotógrafo carioca Fernando Martinho, que mora em São Paulo há 13 anos, resolveu sair às ruas e registrar as casas assobradadas paulistanas. O resultado da aventura acaba de sair no livro Sobrados da Zona Oeste (Editora Olhares, 100 páginas, R$ 50).

“Comecei a fotografar os sobrados na cidade quando me mudei para um, em 2010”, conta o fotógrafo. “Eles são parte da memória de São Paulo, de uma São Paulo que está deixando de existir por causa da selvageria do mercado imobiliário.” Nesses dois anos, Martinho reuniu mais de 2 mil imagens - as melhores integram o livro.

O estilo encontrado pelo fotógrafo para conferir uma aura de “antiguidade” às imagens é bem interessante. Ele sai às ruas munido de duas câmeras: uma Rolleiflex dos anos 1960 e uma moderna Canon digital. Foca o sobrado com a Rolleiflex. E usa a digital para fotografar o que aparece no visor da câmera antiga. Assim, as imagens saem como se vistas pela Rolleiflex. “Testei muito até chegar a esse formato.”

Martinho conta que raramente conversa com os proprietários das casas. A não ser quando eles estranham a atitude do fotógrafo, por horas buscando o melhor enquadramento ali na frente. “Fico muito tempo parado, olhando, aí alguns vêm falar comigo”, diz. “Geralmente, são velhinhos aposentados e aí a gente acaba conversando, eles me contam um pouco da história do bairro e de suas casas - muitas delas construídas por eles próprios ou por seus pais.”

No livro, ele não aproveitou esses relatos. “Mas tenho gravado em vídeo os melhores depoimentos. Pretendo fazer um filme em breve. Vamos ver”, antecipa. Mesmo com o lançamento do livro, Martinho não parou de caçar essas casas por aí. Atualmente, tem garimpado sobrados bonitos na zona leste da capital. “Quero mapear essas construções em todas as regiões da cidade. De repente, fazer uma série de livros. Ou até mesmo um livro grande consolidando todos.”

O trabalho de Martinho rendeu boa receptividade entre consagrados do ramo. “Não é de hoje que a fotografia tem especial atração pelas cidades, pelo que acontece nas ruas, pelas casas e sua arquitetura, enfim, pela paisagem construída pelo homem”, argumenta Cristiano Mascaro, no prefácio do livro. “Ao fotografar com uma câmera digital, através do filtro do visor de uma Rolleiflex contemporânea daquelas construções, Martinho nos remete ao tempo em que elas foram construídas, em uma viagem somente possível pela leitura que se faz dessas imagens.”

Mascaro ainda reflete sobre o que essas imagens representam para a história da cidade. “Seja qual for o destino desses sobrados, aí estão eles perpetuados pelo trabalho diligente do fotógrafo.” Essa inquietação é o que move Martinho. “Vejo quarteirões inteiros de casas sendo destruídos da noite para o dia para dar lugar a mais torres de prédios”, comenta. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

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