Livro reúne depoimentos de flamenguistas ilustres sobre a relação do clube com a Democracia

“Esporte e política se misturam, no início o futebol foi um símbolo de resistência. Muitas pessoas se esquecem disso”. O depoimento foi dado por Luyara Franco, filha da vereadora Marielle Franco, ao jornalista e pesquisador Hélcio Herbert Neto. Ela é uma das dez flamenguistas que falaram sobre suas relações pessoais com o clube e com a política. Essas impressões foram reunidas no livro “Conte Comigo: Flamengo e Democracia”, lançado pela editoria Ludopédio. O prefácio é do músico Moacyr Luz.

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Na obra, o autor convidou flamenguistas que se dividem entre aqueles que passaram pelo clube (Afonsinho, Fabiana Beltrame e Jayme de Almeida); os familiares de rubro-negros históricos (Hildegard Angel, irmã do remador Stuart Angel; Luyara Franco, filha da vereadora assassinada Marielle Franco; e Nando Antunes Coimbra, irmão de Zico); e os torcedores de arquibancada (BNegão, do Planet Hemp; Elza Soares; Jards Macalé; e Ynaiã Benthroldo, do Boogarins).

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— O projeto começou com um desconforto de ver o Flamengo associado a extrema direita. Como pesquisador, eu sabia que essa ligação direta era reducionista. O Flamengo é muito grande e sua história tem episódios de autoritarismo. Mas as manifestações democráticas, transgressoras e até subversivas são expressivas — contou Hélcio.

Elza Soares deu seu depoimento pouco tempo antes de morrer, em janeiro. Ela afirmou que “ser flamenguista é uma coisa muito séria” e lembrou que teve sua casa invadida pela Ditadura Militar por ter sido uma apoiadora de João Goulart. A cantora acreditava que a desigualdade criou muitos flamengos. E comentou também sobre a esperteza de políticos ao se aproximarem do clube.

“Nem sempre, mas às vezes é esperteza política se aproximar da torcida do Flamengo. Inteligência, meu querido. Imagine a quantidade de gente, a massa que lotava o Maracanã antigo. Qualquer um que quer popularidade vai se aproximar do clube e de toda essa torcida maravilhosa. Era assim no passado, ainda é assim hoje em dia. Mesmo quando a barra está mais pesada para o time em campo, a gente não pode esquecer da força dessa gente toda, que torce em todos os momentos. Da nação rubro-negra! Assim como a música, também é possível que o futebol seja uma ferramenta de transformação social, completamente! Lógico que pode. Não só pode como deve ser”.

Luyara, filha da vereadora Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018, se tornou flamenguistas por causa mãe e da tia. “Ver a paixão delas me fez ter certeza de que queria ser flamenguista. Desde que eu me entendo por gente, nas minhas primeiras memórias concretas, eu já tenho o Flamengo na minha vida”, contou.

Ela contou que por causa da atuação política de Marielle, ela sobre haters, inclusive de flamenguistas, com alguns até apoiando o assassinato. Uma das suas memórias mais tristes foi quando não pode entrar no Maracanã com uma bandeira do Flamengo que era usada pela mãe e que estava com o nome dela escrito.

“O que mais mexeu comigo, inclusive pouquíssimos meses após aquele 14 de março, foi um caso de fascismo. Não me deixaram ficar com a bandeira da minha mãe. Estava escrito apenas “Marielle Presente” e tive que entrar com aquilo escondido. Foi uma situação bem delicada. Depois disso fiz uma camisa do Flamengo com a mesma mensagem”.

O livro também resgata a história da família do principal jogador do Flamengo, Zico. Seu irmão, Nando Antunes Coimbra, foi perseguido pelos militares porque trabalhou no Ministério da Educação aplicando o método de alfabetização criado pelo filósofo Paulo Freire, o PNA.

Nando jogou no Fluminense, no finado Santos do Espírito Santo e no América, sempre ficando pouco tempo porque os dirigentes não conseguiam mantê-lo por pressão dos militares. Encontrou sossego no Ceará, onde ficou seis meses, até receber uma proposta de Portugal. Embarcou para a Europa, mas lá, não conseguiu assinar com o Belenenses, porque não prometeram o que cumpriram. Ele resolveu deixar o país após agentes da ditadura de Salazar o procurarem no hotel em que estava hospedado. Ele disse que seus documentos estavam na embaixada brasileira. Nando estava com medo de ser enviado para a guerra contra a Angola porque era filho de português. No dia seguinte deixou o país.

“Em 1970, eu e meus primos ficamos quatro dias presos na Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, 14. Houve uma pressão porque o Antunes, o Edu e a minha mãe foram à porta da PE e disseram que só sairiam de lá comigo. As pessoas passavam na Barão de Mesquita, o Antunes super conhecido, minha mãe também já era, todos entendiam que estava acontecendo alguma coisa. Mas a imprensa não podia falar nada. Isso tudo aconteceu em agosto, logo depois da Copa do Mundo. O Edu foi cortado da seleção porque era nosso irmão. Nós temos certeza. Ele tinha sido eleito o melhor jogador sul-americano. João Saldanha foi o treinador da seleção durante a preparação para o Mundial. Perguntaram por que o Edu não era convocado e o Saldanha, que não tinha papas na língua, falou: “Porque, infelizmente, há restrições à família Antunes”. Tudo isso porque eu tinha sido professor do PNA”.

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