Livro recém-lançado analisa as consequências psíquicas do uso excessivo de telas na vida de adolescentes

Marcia Disitzer
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Apsicanalista carioca Sandra Niskier Flanzer escreveu o livro “Jovens em tempos digitais” (edições Consultor, R$ 35), em exatos 60 dias, nos dois primeiros meses do ano passado. Um dos fatores que fizeram com que ela aliasse agilidade e conteúdo de qualidade na confecção da publicação é a experiência acumulada. Ao longo de três décadas, Sandra atendeu incontáveis crianças, adolescentes e jovens em seu consultório. Há cerca de oito anos, essa atuação foi ampliada em escolas da Zona Sul do Rio, como Britânica e Andrews, em que discute, por meio de palestras e debates, temas relacionados ao universo juvenil, interagindo com adolescentes, pais e professores. A cereja desse bolo foi colocada em 2018, quando ela iniciou um trabalho na ONG Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). “Eles fazem a interseção entre os jovens de periferia que saem do ensino médio e a primeira experiência de trabalho”, explica a psicanalista. Em comum nos três ambientes — consultório, escolas e ONG —, está a utilização excessiva das ferramentas tecnológicas. E são justamente as consequências psíquicas desse exagero, como ansiedade, aumento de casos de automutilação e ideias suicidas, insônia e dificuldade de socialização, que ela aborda no livro recém-lançado.

O que está em pauta é a hiperconectividade, potencializada pela pandemia. “Estima-se que crianças e jovens estejam, pelo menos, cinco horas a mais diante de telas”, diz Sandra. Os perigos são reais. “A quantidade de uso tem relação direta com a questão da adicção. É igual a cigarro. Você consegue ficar sem ou isso está te dominando? O relato de uma adolescente ilustra bem essa situação. Durante o jantar com a família, ela inventava uma dor de barriga para ir ao banheiro e checar o celular”, descreve. A psicanalista diz que tal dependência pode afetar pessoas de todas as idades, mas são os jovens os mais propensos a serem fisgados. “Vem ao encontro do anseio juvenil por pertencimento e identidade.”

A overdose começa na utilização indiscriminada do celular, que chega às mãos das crianças cada dia mais cedo. “Recomendo que os pais deem o aparelho por volta dos 10 anos. O mesmo vale para o videogame. Ambos comprometem o tempo da brincadeira ao ar livre e a própria sociabilização”, explica. Ela também analisa o impacto das redes sociais.

“Para Lacan (Jacques Lacan, psicanalista francês), existem três registros: real, simbólico e imaginário. O real é o que está na base do nosso desejo inconsciente, que comanda o sujeito. O simbólico representa o campo da cultura, da linguagem, aquele em que combinamos regras, e o imaginário é o terreno do eu”, diz. O uso abusivo de dispositivos digitais, ela explica, reforça demais apenas um lado. “Estamos engrandecendo o ego em detrimento do real e do simbólico.

A ampliação da dimensão narcísica pode causar uma distopia social e uma visão equivocada da vida. Cedo ou tarde, o inconsciente vai se manifestar, e o jovem não estará preparado para lidar com isso.” Nesse contexto, proliferam-se as selfies. “É o apelo à imagem”, define.

A psicanalista também destaca a nova percepção do tempo, causada pela popularização de aplicativos de troca de mensagens instantâneas. “Entre uma pergunta e uma resposta, só é admitido um milésimo de segundo. Entender o espaço, os intervalos, estabelece uma determinada relação com o mundo. Se o retorno precisa ser imediato, fica evidente que uma ansiedade está sendo gerada”, diz.

Na publicação, ela discorre sobre outro fato preocupante: os jogos eletrônicos, que predominam, geralmente, na faixa dos 10 aos 14 anos. “Há muitos casos de crianças que não saem mais de casa, e um aumento significativo de casos de viciados em jogos eletrônicos. Ao ficarem isolados, desaprendem as artimanhas e o traquejo do convívio social, enfraquecendo (por falta de treino) a musculatura dos exercícios básicos de civilização”, escreve.

Para Sandra, mesmo antes da Covid-19, as modificações que as redes sociais acarretaram no nosso modo de estar em grupo já eram irreversíveis. Diante da pandemia, surgem novas reflexões. “Pensei: ‘Será que todos nós vamos nos tornar adictos?’”. Enquanto essa pergunta segue sem resposta, ela credita à tecnologia a preservação de laços. “São paradoxos. Foi a nossa salvação. Também é incrível saber que a Biblioteca Nacional está na palma da mão de um jovem do Amapá”, observa. Frente aos dilemas, o que se vê, segundo ela, são pais “desesperados”. “Está difícil, sim. Por mais que eles coloquem limites, o entorno é uma força que puxa. Porém, não se demitir do papel de pai e mãe é fundamental.”