Livro-reportagem sobre pracinhas brasileiros na Segunda Guerra ganha nova edição

FÁBIO ZANINI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando se fala de um tema como as Forças Armadas, escreveu o jornalista Ricardo Bonalume Neto em 1995, é raro que uma discussão ou análise seja pautada por nuances. "Geralmente os partisans [partidários] exigem uma definição: ou se está contra ou se está a favor".

As palavras de um quarto de século atrás caberiam facilmente no atual debate político do país, sobre a presença dos militares no governo Jair Bolsonaro.

O trecho, que hoje soa profético, está na introdução de "A Nossa Segunda Guerra", celebrada obra da longa trajetória de repórter de Bonalume, que trabalhou na Folha de S.Paulo durante mais de três décadas, até sua morte em 2018, aos 57 anos. O livro-reportagem, lançado pela extinta editora Expressão e Cultura, conta a história da FEB (Força Expedicionária Brasileira) no combate ao nazifascismo na Itália.

Hoje esgotado e encontrado apenas em sebos, ganha agora uma nova edição, revisada, pela editora Contexto. "Os livros sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra em geral se dividem em dois grupos opostos. Um que apenas exalta a eficiência militar dos brasileiros, e outro que mostra os pracinhas como mixurucas, covardes", diz o historiador Jaime Pinsky, diretor-editorial da Contexto.

O livro de Bonalume, afirma ele, trabalha com documentos e evita juízos de valor. "É um livro útil para quem quer conhecer o Exército brasileiro e entender os militares", diz.

Em sua carreira, Bonalume cobria principalmente ciência, história e temas militares. Os direitos do livro eram propriedade de sua viúva, Anita Galvão, que assinou o contrato com a nova editora.

Foi feita uma nova edição de fotos e corrigidos pequenos erros da versão original, além do acréscimo de um posfácio do jornalista Leão Serva, que era amigo de Bonalume e com quem ele trabalhou.

O livro se baseia em documentos e depoimentos de pracinhas, colhidos pelo jornalista nos anos 1990, cinco décadas depois da aventura na Europa. Bonalume também visitou alguns dos palcos das principais batalhas na Itália, entrevistando pessoas que ainda se lembravam da presença brasileira por lá.

Além de relatar episódios de heroísmo em solo italiano, a obra destrincha o contexto social e político do Brasil do início dos anos 1940. O país daquele momento era ainda uma sociedade majoritariamente rural, isolada do restante do mundo e sem o menor apetite para uma aventura do outro lado do oceano.

Mas tudo muda a partir de 1942, quando o Brasil opta pelo lado dos aliados, e navios na costa passam a ser alvo de submarinos alemães. A descrição deste período que precede o embarque das tropas é um dos pontos altos do livro. Bonalume relata com detalhes os ataques alemães, sem deixar de lado o componente humano da grande quantidade de vidas perdidas, como faz no trecho sobre o afundamento do navio Baependy, que deixou 270 mortos.

"Os passageiros tinham acabado de jantar e comemoravam o aniversário do imediato Antônio Diogo de Queiroz. Uma orquestra tocava no salão. Com a explosão, as luzes se apagaram, e o pânico começou", diz.

Em questão de semanas criou-se um sentimento de revanche popular que foi o combustível para a formação da FEB. "Para muitos brasileiros, em agosto de 1942 a honra do país só seria lavada se também fossem enviadas tropas para a Europa, para combater alemães e italianos em seus países. Para isso uma força expedicionária teria de ser formada", relata Bonalume.

Não eram poucos os percalços para montar essa força expedicionária. Para começar, o equipamento militar brasileiro era obsoleto. Não havia, por exemplo, nenhum navio na Marinha capaz de detectar um submarino submerso, e os oficiais brasileiros só foram conhecer um sonar, tecnologia de guerra primordial naquele momento, depois de fazer cursos específicos nos EUA.

Havia ainda a inexperiência e o provincianismo da tropa. Poucos tinham alguma vivência em combate, no caso da Revolução Constitucionalista de 1932 -ainda assim um conflito de relativa baixa intensidade, incomparável à carnificina que ocorria na Europa.

"De repente, eles saíram do seu país tropical e tiveram de cavar trincheiras no solo duro e coberto de neve, subindo montanhas íngremes debaixo de fogo de metralhadora, canhão e morteiro", escreve Bonalume.

Foram cerca de 25 mil a embarcarem para a Itália, chegando lá a partir de julho de 1944, para a fase final da guerra. Uma saga de heroísmo, sem dúvida, mas nem por isso o autor deixou de elencar aspectos menos engrandecedores da epopeia, como o persistente racismo nas fileiras da FEB e a censura ao trabalho dos correspondentes de guerra.

Tampouco ele se furta a mexer com um totem da historiografia militar brasileira, a tomada de Monte Castelo, definido no livro como "de baixo valor estratégico, mas que se tornou ponto de honra para o Exército brasileiro, após diversas tentativas fracassadas". "A tomada dessa elevação nos montes Apeninos ganhou um significado extra, muito acima da sua importância tática local. Virou um símbolo."

Tão importante quanto a ida dos pracinhas para a Europa, uma rara ocasião em que o país se uniu em torno de um genuíno sentimento nacional de ufanismo, foi a volta.

Bonalume partilha da avaliação de diversos historiadores de que o retorno dos militares, com status adquirido de heróis, ajudou a acelerar a fase final da ditadura de Getúlio Vargas. Afinal, qual o sentido de arriscar a vida em defesa da democracia em outro continente se não se podia fazer o mesmo em casa?

Um 'vírus democrático', de defesa das instituições, foi inoculado no país, escreve o repórter.

Lida hoje, quando vemos a sucessão de arroubos autoritários do militar que ocupa a Presidência, sua conclusão parece conter uma nova profecia do repórter, e um aviso às futuras gerações de leitores.

"Houve recaídas [autoritárias] perigosas, mas em 1995, eu acredito (e espero) que o ciclo de intervenção militar na política tenha virado história."

A NOSSA SEGUNDA GUERRA

Preço: R$ 59,90

Autor: Ricardo Bonalume Neto

Editora: Contexto (256 págs.)