Livro resgata experiência de Augusto Boal como vereador

GUILHERME MAGALHÃES
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***ARQUIVO*** O diretor, autor e teórico teatral, Augusto Boal. (SP-06.09.98)  (Foto:Lenise Pinheiro/Folhapress)
***ARQUIVO*** O diretor, autor e teórico teatral, Augusto Boal. (SP-06.09.98) (Foto:Lenise Pinheiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A cada quatro anos, dizia o dramaturgo Augusto Boal, o eleitor exerce "o estranho poder de votar". Estranho porque desaparecia assim que utilizado, para só retornar quatro anos depois.

Foi para combater essa lógica que Boal (1931-2009), fundador do Teatro do Oprimido, se lançou em uma empreitada improvável nas eleições municipais de 1992: candidatou-se a vereador do Rio de Janeiro pelo PT com uma proposta de mandato político-teatral, que pode ser considerada precursora dos mandatos coletivos de hoje.

Eleito, inovou ao aproximar o cidadão e a política formal em um processo que denominou Teatro Legislativo, nome que também batiza o livro lançado em 1996 em que Boal narra as experiências do mandato.

A obra é agora reeditada pela Editora 34 em uma versão ampliada, com pronunciamentos do vereador na Câmara, depoimentos e anexos, organizada pela pesquisadora Fabiana Comparato e por Julián Boal, membro da coordenação da Escola de Teatro Popular e filho do dramaturgo.

"O espírito da época ajudou bastante, esse envolvimento popular nas decisões", avalia Comparato em entrevista com Julián à Folha de S.Paulo. O pleito de 1992 transcorreu no bojo do impeachment do presidente Fernando Collor.

"Até então as campanhas políticas não se utilizavam de recursos que a do meu pai começa a usar: bonecões, uma coisa mais teatral. Isso teve ressonância com o impeachment, levado por muitos jovens no movimento dos caras-pintadas, teve uma certa teatralização da política", lembra Julián.

"E isso vinha na esteira da Constituinte", diz Comparato. "Acho que as pessoas se reconheciam nessa campanha pouco hierarquizada, diferente daquele candidato que aparece muito blindado, distanciado do que somos no dia a dia."

Esse sentimento de horizontalidade foi essencial para a construção de um diálogo com os eleitores na campanha e após, conta um dos participantes do mandato em depoimento ao livro.

"A imagem normalmente associada aos vereadores era a de uma figura que distribuía camisetas, dentaduras, mas não a nossa. O teatro não chegava como ameaça. Inclusive, nem sempre os participantes dos núcleos eram necessariamente progressistas", afirma Geo Britto, hoje diretor artístico da Escola de Teatro Popular.

"Mas isso também fazia parte do processo inerente ao Teatro do Oprimido, sensibilizar através da construção de cenas as questões relatadas pela comunidade."

O Teatro Legislativo formou 19 núcleos espalhados pelo Rio de Janeiro, da zona norte à zona sul, da comunidade do Borel ao Leme. Para organizar o trabalho, entravam em cena os coringas, animadores do Centro do Teatro do Oprimido (CTO) que também eram assessores de Boal na Câmara Municipal. O mandato, como resume Julián, "tinha um pé na institucionalidade e mil pés fora dela".

Em quatro anos, foram 13 projetos de lei aprovados. A "primeira grande vitória", nas palavras de Boal, foi a lei do atendimento geriátrico (1.023/95), que obrigou os hospitais municipais do Rio a terem esses especialistas no corpo clínico.

"Nossa lei foi elaborada a partir do espetáculo do nosso grupo da terceira idade, um conjunto de pessoas de mais de 60 anos e até mais de 80. Na sua peça, o idoso era atendido por médico inexperiente, ainda por cima dermatologista. O jovem não sabia o que fazer com o velho e receitava qualquer coisa. Isso tinha de fato acontecido, não era simples imaginação", narra o teatrólogo.

A Célula Metabolizadora estudava a viabilidade de cada proposta que chegava ao mandato. O grupo era composto por três assessores, entre eles o economista Luiz Mario Behnken, que antes de trabalhar para Boal atuou na liderança do PT na Câmara carioca.

"Tínhamos a preocupação de responder também as propostas que não eram aceitas, explicando a razão, o que poderia demorar tanto quanto desenvolver um projeto de lei. Como, por exemplo, explicar que questões de segurança pública não cabem ao município", diz o ex-assessor no livro.

Boal brincava que foi eleito vereador quando não queria, mas depois não foi eleito quando realmente queria continuar sendo um.

"Em 1996, todos estavam certos de que eu ganharia de novo", recorda o dramaturgo em carta escrita em 1997. "Muitos até me perguntavam para quem deveriam votar, já que minha reeleição era dada como certa. Dentro do partido, eu era tido como um dos três ou quatro vereadores que certamente seriam reeleitos. Perante a opinião pública, agora todos sabiam o que significa fazer teatro como política: já tinham visto em prática! Surpresa: mesmo assim, eu estava fora!"

Também eram outros os tempos na cidade, no país e no PT. Behnken enxerga a disputa de 1996, quando Boal tentou a reeleição, como um "momento de descenso tanto da democracia interna" do partido "quanto de suas propostas mais progressistas".

"O PT não se coloca mais como partido de massas, que organiza a população para além das campanhas eleitorais, que tem núcleos territoriais fazendo atividades constantes. Ele abdica dessa política para virar um partido eleitoral, clássico, que espera o momento das eleições para dialogar com os eleitores", afirma Julián.

Apesar do insucesso nas urnas naquele ano, Comparato destaca uma lição deixada pela experiência do Teatro Legislativo: a transversalidade da cultura como ferramenta para discutir a sociedade.

"A cultura é uma atividade completamente capilar dentro da sociedade. Por meio dela você chega a questões sanitárias, educação, renda básica, você consegue atingir qualquer situação. Por isso que o Boal não foi um vereador da cultura, ele foi um vereador da cidade."

Teatro Legislativo

Augusto Boal (org. Fabiana Comparato e Julián Boal). Ed. 34. R$ 64 (256 págs.)