Livro resgata história de cirurgião que matou paciente, cortou digitais e suicidou-se com polícia na porta de casa

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SÃO PAULO — Passava das 12h do dia 22 de setembro de 2017 quando um chaveiro foi convocado para destrancar um sobrado na Vila Mariana, bairro da da região Centro-Sul da capital paulista. Tratava-se de uma operação policial que tinha como objetivo cumprir uma ordem de prisão contra o médico Farah Jorge Farah, de 68 anos de idade. Sob sua ficha criminal recaia a condenação do assassinato de Maria do Carmo Alves, de 46 anos, em 2003. Uma paciente com quem o médico teve um relacionamento amoroso anos antes de mata-la. Ao chegar no local, o delegado responsável pelo caso, Osvaldo Nico Gonçalves, observou uma cena dantesca.

Farah jazia inerte em sua cama ao lado de uma poça de sangue, o corpo ainda não havia esfriado. A morte, um suicídio, foi causada por um corte de bisturi na veia femoral — que passa pela perna. Ao fundo, uma música clássica, até hoje não identificada, tocava no local.

A silhueta não era a mesma que ficou conhecida nas páginas policiais dos jornais: o cirurgião plástico que teve seu registro cassado havia feito autoimplantes de silicone nos seios e quadril. A mortalha era composta de trajes femininos: top e calça de ginástica. Esses detalhes da cena macabra estão descritos no livro “Farah Jorge Farah — O médico que virou monstro”, lançado pela editora Máquina de Livros.

A publicação — que surge no mercado ladeada de outros livros, filmes e seriados que esmiúçam crimes brasileiros — é a estreia da jornalista Patricia Hargreaves como autora de uma publicação do tipo. A apuração do caso que ganhou ampla cobertura da imprensa à época dos fatos (e depois que Farah viveu livre, cursando faculdade, após uma prisão de pouco mais de quatro anos) se deu ao longo da pandemia da Covid-19.

Por conta das necessárias quarentenas. Apenas cinco entrevistas ocorreram presencialmente. Para concluir a colheita das informações, a jornalista lançou mão de videochamadas, aplicativos de ligações de telefone.

— O que me fascina nessa história é o fato de ele ser uma pessoa aparentemente boa, bem intencionada. Um homem extremamente inteligente, mas que cometeu um crime estúpido, matar alguém e ter essa precisão cirúrgica para se desfazer do corpo — diz Patrícia, que classifica o crime de Farah como "precisamente cruel".

Grande trunfo

A precisão sobre a qual a autora se refere foi a ação de Farah para aparentemente impedir a identificação do corpo (o que ele nunca confirmou, pois disse que sofreu um “apagão” na sequência dos fatos). Após ser atraída para clínica do médico, no bairro de Santana, com a promessa de que realizaria uma lipoaspiração, Maria do Carmo foi morta e completamente desfigurada. Teve os dedos retirados das mãos e dos pés. O corpo foi esquartejado. O sangue e outros fluidos drenados. O cadáver foi encontrado no porta-malas do carro do assassino, que naquele momento já havia alertado os familiares que tinha cometido o crime, em meio ao que parecia um surto.

O grande trunfo da publicação, diz a autora, é reconstruir o perfil de Farah, que viveu um relacionamento amoroso anos antes com a vítima. Do encontro, porém, surgiram desavenças constantes. Ao longo do tempo, ele dizia que era perseguido pela mulher por conta do envolvimento entre os dois.

A família dela, contudo, rebate afirmando que a fúria de Maria do Carmo era causada por um procedimento feito por Farah, anos antes da morte, que a deixou com uma má cicatrização na barriga. O local onde estaria a marca, porém, também foi retirado do cadáver.

— É possível enxergar como a mente do Farah se comporta ao longo do tempo. O grande mérito do livro é mostrar como uma pessoa comum torna-se um monstro assassino — comenta Patricia.

Lançado quase 20 anos após o crime, o livro reflete o efeito do tempo. A legislação brasileira, por exemplo, mudou em pontos importantes entre 2014 (época do último julgamento de Farah) e 2021. Naquela época, não existia a definição de feminicídio (praticado por Farah) e nem de "stalking", cometido por Maria do Carmo, que chegou a ligar 800 vezes em um único dia para o médico, diz o livro.

— Minha grande missão é colocar o dedo na ferida para questionar o que devemos mudar mais. Se não pegarmos esses casos e transformamos em grandes lições, estaremos perdendo tempo — avalia a autora.

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