Livro sobre saúde sexual de mulheres lésbicas e bissexuais é lançado hoje em São Paulo

Larissa e seu livro: “Precisamos furar bolha”. Foto: Paloma Vasconcelos

Foi durante uma consulta no ginecologista que a jornalista Larissa Darc, de 21 anos, notou que mulheres lésbicas e bissexuais sofrem com a falta de um tratamento ideal por conta do preconceito. Até então, ela achava que isso só teria acontecido com ela. Porém, ao pesquisar sobre o assunto viu que muitas outras já tinham passado por situações inadmissíveis.

Quando estava prestes a se formar na faculdade, ela decidiu abordar o tema em forma de livro para seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Foi assim que surgiu a obra Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais. A publicação tem como objetivo informar, conscientizar e debater o tema. Mas vai muito além: emociona, cativa e causa uma empatia fundamental nos dias de hoje.

Em entrevista ao blog, a autora diz que o objetivo do livro é fazer com que as pessoas comecem a conversar sobre o assunto. “Toda vez que eu falo sobre o tema para uma mulher lésbica ou bissexual ela relata já ter passado por uma das situações relatadas no livro ou conhece alguém que já passou. Agora, quando eu falo com pessoas héteros, escuto com frequência falas de gente que nunca tinha pensado sobre isso”, afirma.

“Existe um problemão atingindo um monte de gente e só as pessoas atingidas sabem disso. Precisamos furar essa bolha”, constata a jornalista que fará o lançamento da obra nesta terça-feira (19), a partir das 19h30, na Tapera Taperá (Avenida São Luís, 187), São Paulo.

Leia a entrevista completa:

De onde veio a ideia para o tema do livro?

Larissa Darc: No último ano de faculdade eu precisei desenvolver um trabalho de conclusão de curso. Como eu passaria um ano gastando tempo, dinheiro e energia para fazer um projeto, decidi que faria algo relevante, que pudesse extrapolar os muros da academia. Quando listei os possíveis temas percebi que eu já havia desenvolvido inúmeras coisas com a pauta LGBT, mas poucas vezes consegui dar um recorte para mulheres lésbicas e bissexuais.

Então decidi escrever um livro que falasse sobre educação, segurança e saúde. Contudo, quando comecei a apurar sobre a questão da saúde percebi que havia muito pouco material sobre o assunto, ao mesmo momento em que choviam relatos que mostravam o quão problemática era a questão. Conversando com um amigo jornalista percebi que era esse o meu tema de pesquisa. E isso era algo que realmente mexia comigo, uma vez que eu mesma já sofri com uma consulta ruim, na qual o médico se recusou a me examinar, quando eu me relacionava só com mulheres.

Como foi seu trabalho de pesquisa?

Larissa: O meu trabalho de pesquisa foi extenso e dividido em muitas partes. No começo eu juntei todos os poucos materiais disponíveis sobre o assunto para saber o que já havia sido produzido. Logo em seguida comecei a colher relatos de garotas que sofreram de alguma forma em consultas médicas.

No meio disso eu li livros sobre feminismo e gênero para embasar a minha tese. Em agosto, no mês da visibilidade lésbica, eu fiz uma imersão mais intensa. Fui em eventos voltados para lésbicas e bissexuais, rodas de conversa e palestras. Procurei conversar com as meninas (e nem sempre entrevistar, propriamente dito) para entender exatamente quais eram as demandas e expectativas sobre o assunto – e isso foi essencial.

Inclusive, o último capítulo mudou de tema exatamente por coisas que eu ouvi em um bate-papo que participei na USP [Universidade de São Paulo]. Foi bem difícil encontrar as médicas entrevistadas, então essa foi a parte final. Quando eu estava com todo o material apurado, comecei a desenhar como as informações seriam distribuídas (relatos, entrevistas, texto corrido). Eu tinha uma preocupação enorme em traduzir um assunto denso e espinhoso, como saúde e doenças, para uma linguagem leve e acessível. Acabou que a parte da escrita em si foi a mais fácil.

Teve algo que te impactou ao escrever o livro?

Larissa: A apuração em si foi muita densa. Eu ouvi relatos de meninas que passaram por situações pesadas em consultórios médicos, conversei com gente que contraiu infecção sexualmente transmissível com sexo lésbico por não existir dispositivos de proteção e vi o olhar de desânimo nas meninas que conversavam sobre formas de se proteger. Esse foi um tema muito pessoal e eu me envolvi muito em cada etapa da reportagem. Também tive muito medo de atrelar meu nome ao assunto, em especial por medo de como a minha família reagiria. Estou tendo a grata surpresa de ser apoiada por todos os meus familiares, inclusive por quem nunca aceitou muito bem a minha sexualidade, e isso está me dando ainda mais força para levar o projeto para frente.

De onde você acha que vem essa dificuldade dos profissionais da saúde de lidarem com mulheres lésbicas e bi?

Larissa: Como disse uma médica com quem eu conversei, as faculdades de medicina não formam os médicos para nada que não seja heteronormativo. Se a gente parar para pensar na própria história da ginecologia, isso faz muito sentido. A anatomia feminina foi estudada do ponto de vista da reprodução e a ginecologia ainda é muito voltada para a obstetrícia. Tem outra questão também: precisamos pensar em como conceituamos o sexo. Existe um termo chamado “preliminares”. O que seria isso? O que vem antes do sexo em si? Então o que é o sexo em si? A penetração de um pênis? É por isso que ninguém duvida que o que acontece entre gays é sexo. A nossa educação sobre relações sexuais é focada na presença do pênis, então quando não temos um homem envolvido há quem duvide que é sexo.

Falar sobre sexualidade é um tabu, mas faz parte de direitos básicos. O que você aprendeu sobre isso?
Larissa: O direitos sexuais e direitos reprodutivos fazem parte dos direitos humanos. Todo indivíduo tem o direito ao acesso a informações, cuidados e autonomia sobre o próprio corpo. Eu tenho aprendido que o tabu e a repressão impedem que as pessoas acessem a esses direitos básicos e isso interfere diretamente na qualidade de vida delas. Não falar sobre sexualidade não vai impedir que as pessoas transem – mas também não vai diminuir os riscos de contração de infecções, por exemplo.

Como as pessoas fazem para adquirir o livro?

Larissa: Por ser uma publicação totalmente independente, eu estou pensando na distribuição aos poucos. Tirei dinheiro do meu próprio bolso para fazer a primeira tiragem e estou contando com a ajuda da Tapera Taperá para realizar a venda dos primeiros exemplares. Estou avaliando as opções de venda on-line e quero disponibilizar o quanto antes, uma vez que tenho recebido mensagens de pessoas de todos os cantos (inclusive de fora do Brasil) que querem adquirir um exemplar.

Que tipo de reflexão você quer que o livro traga?

Larissa: Tanto no nome quanto no último capítulo eu explico que o objetivo do livro é fazer com que as pessoas comecem a conversar sobre esse assunto. Desde que eu comecei a apuração tenho percebido um fenômeno interessante. Toda vez que eu falo sobre o tema para uma mulher lésbica ou bissexual ela relata já ter passado por uma das situações relatadas no livro ou conhece alguém que já passou. Agora, quando eu falo com pessoas héteros, escuto com frequência falas de gente que nunca tinha pensado sobre isso. Existe um problemão atingindo um monte de gente e só as pessoas atingidas sabem disso. Precisamos furar essa bolha.