Livro 'Tempestade Perfeita' aborda Bolsonaro e outros desafios ao jornalismo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Coincidindo com o lançamento do livro "Tempestade Perfeita", sobre a crise do jornalismo profissional, os ataques crescentes do presidente Jair Bolsonaro à imprensa tomaram a frente, entre os muitos desafios do setor -que vão do modelo de negócios à falta de diversidade.

As ameaças de Bolsonaro e outros já pontuavam a obra, que reúne as visões nem sempre convergentes de sete jornalistas: Caio Túlio Costa, Cristina Tardáguila, Helena Celestino, Luciana Barreto, Marina Amaral, Merval Pereira e Pedro Bial, mais a apresentação do organizador Roberto Feith. O livro está saindo pelo selo História Real, da editora Intrínseca.

Túlio Costa, apontando o impacto do presidente brasileiro e do ex-presidente americano Donald Trump, aborda em seu ensaio o "ódio" ao jornalismo, uma das cinco crises que este enfrenta. Alerta que "na guerra ideológica a primeira vítima é a imprensa".

Um dos formuladores do Projeto Folha nos anos 1980 e primeiro diretor do UOL na década seguinte, ele vê com preocupação, ao ser procurado agora, "a intensificação dos ataques de Bolsonaro não só à imprensa, mas às instituições que são responsáveis pela continuidade da nossa democracia".

O próprio Roberto Feith, que foi correspondente da Globo nos EUA e na Europa, ressalta que, diante de governantes que mantêm os jornalistas sob cerco intermitente, "a crise da imprensa é também a crise da democracia, uma não sobrevive sem a outra".

Membro do Conselho Editorial do Grupo Globo e colunista do jornal O Globo, Merval Pereira escreve que "no mundo atual, em que governos autoritários querem impor sua vontade sobre as instituições democráticas, o jornalismo, mais do que nunca, tem a missão de defendê-las".

Procurado, acrescenta que Bolsonaro "tenta desacreditar a imprensa, essa é a base da estratégia dele para desmoralizar a democracia". O presidente "aprendeu a manipular as novas mídias" e busca atingir "as empresas organizadas, que têm a capacidade de apurar, toda uma tradição de apuração".

Merval diz que, em resposta aos ataques, "a imprensa profissional tem o dever de prosseguir nesta senda de denunciar os abusos de autoridade, as hipocrisias do governo, porque é assim que a gente abre os olhos da população".

Túlio Costa também diz que, como resposta, "o jornalismo tem que continuar sendo feito de acordo com suas características tradicionais, que incluem apurar da forma mais criteriosa possível, fazer tudo com independência, ouvir o outro lado".

Mas sublinha que "o jornalismo está fragilizado, porque seu modelo de negócio está sendo e necessita ser reformulado". Cofundador da plataforma de monitoramento digital Torabit, diz que o modelo anterior "não sustenta mais o jornalismo" e isso põe em risco a sua independência.

"Tempestade Perfeita" aborda diversos desafios do jornalismo contemporâneo, como a ausência de negros nas Redações brasileiras, foco de Luciana Barreto, que foi apresentadora do principal telejornal da TV Brasil e agora é âncora na CNN Brasil.

"Estamos em processo de avanços na pauta da diversidade dentro do jornalismo", escreve ela, ao mesmo tempo em que aponta a resistência e até o "ódio" que esses avanços geram em mídia social. "Questões raciais sempre foram negligenciadas no Brasil", acrescenta.

Marina Amaral, cofundadora da Agência Pública, e Helena Celestino, colaboradora do Valor, descrevem e analisam no livro a diversidade trazida pela ascensão de diferentes veículos digitais, no Brasil e no exterior, e seu impacto na pauta do jornalismo tradicional.

A partir de sua própria experiência, Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, faz um apanhado do desenvolvimento das operações de checagem, "fact-checking", e expõe didaticamente as discussões sobre desinformação, no Brasil e no exterior.

Com um texto em forma de diálogo entre "dois velhos lobos da imprensa", remetendo a Paulo Francis e outros, e depois também uma jovem, Pedro Bial, do talk show Conversa com Bial, da Globo, aprofunda as "verdades e mentiras do jornalismo".

"Fizeram o resumo possível de conversa tão cheia de perguntas quanto de arestas. Falaram da discussão sobre a suposta obsolescência da mídia convencional frente à internet e suas mídias sociais e, um bocado amolecidos pelo álcool e pela saudade de algo que nunca existiu, irromperam numa gargalhada, ao se ouvirem dizer: Ah, os bons tempos...".

TEMPESTADE PERFEITA - SETE VISÕES DA CRISE DO JORNALISMO PROFISSIONAL

Preço: R$ 59,90 (368 págs.) e R$ 29,90 (ebook)

Autor: Roberto Feith (org.)

Editora: Intrínseca

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