100 anos de Saramago chegam com livros infantis, exposição e série com Fábio Porchat

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Certa vez, ainda menino, o escritor português José Saramago (1922-2010) acompanhou o tio numa viagem a pé até a feira de Santarém para vender uma ninhada de “bácoros” (porquinhos). O caminho era longo, “quatro léguas de campo”, e os dois passaram a noite em uma estrebaria antes de seguir viagem. O menino se espantou com “uma luz inesperada”, “uma lua redonda e enorme, branca, entornando leite sobre a noite e a paisagem”. “Hoje me comovem pouco os luares: tenho um dentro de mim que nada pode vencer”, recordaria depois.

Em 1969, Saramago rememorou aquela viagem assombrosa na crônica “E também aqueles dias” que, este mês, chega às livrarias na forma do livro infantil “Uma luz inesperada” (Companhia das Letrinhas), ilustrado pelo mexicano Armando Fonseca. O título faz parte das celebrações dos 100 anos do Nobel de Literatura, nascido em 16 de novembro de 1922. Os miúdos estão convidados para a festa. Foram eles, aliás, que abriram as celebrações do centenário. Em 16 de novembro do ano passado, alunos do ensino básico de Brasil, Portugal e Espanha leram, simultaneamente, “A maior flor do mundo”, única história que Saramago escreveu para crianças. Em 16 de novembro deste ano, a Fundação José Saramago (FJS) planeja promover a leitura de trechos de “Memorial do convento” e “O ano da morte de Ricardo Reis” por secundaristas nos três países. Presidente da FSJ e viúva do escritor, a jornalista espanhola Pilar del Río não acredita que o estilo único do Saramago, que era comedido na pontuação e quase não indicava os diálogos por aspas ou travessões, possa intimidar os mais jovens.

— Espero que se tornem leitores que saibam pensar. Que se pronunciem depois da leitura, criem suas próprias opiniões e as expressem. Apostar nos mais novos é apostar na literatura — diz Pilar, que acredita que o marido aprovaria a adaptação de seus textos para livros infantis. — Saramago dizia que tudo pode ser contado e lido de outra maneira.

Além de “Uma luz inesperada”, a Companhia das Letras está relançando outro título infantil do escritor português, “O silêncio da água”, também nascido crônica, com novas ilustrações da espanhola Yolanda Mosquera. Ambos os livros fazem um aviso aos jovens leitores: “talvez você estranhe algumas palavras, expressões e acentos utilizados pelo autor”. Para ajudar as crianças a decifrar “Uma luz inesperada”, Fonseca, o ilustrador, apostou numa técnica chamada monotipia a óleo e em imagens noturnas que aludem ao “assombro” do Saramago menino.

— O assombro é o que ressoa e silencia no fundo do livro. O assombro é assim: nos deixa sem palavras e nos desloca. Quis que as imagens contassem desse assombro que nos acomete com frequência na infância, em nossas primeiras experiências — explica.

Festejos em quatro eixos

O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, também vai convidar as crianças a adentrar o universo saramaguiano. Em maio, será inaugurada a exposição “Ocupação José Saramago — O conto da ilha desconhecida”, parceria do museu com a editora Companhia das Letras. O conto narra a aventura de um homem que sonha aportar em uma ilha desconhecida. A exposição contará com cenários inspirados na história, que, segundo Marília Bonas, diretora técnica do museu, traz uma lição valorosa aos leitores: “a coragem de sonhar e agir em busca de algo novo”.

Os festejos do centenário de Saramago se estendem por Portugal, Espanha e Brasil e se apoiam em quatro eixos: biografia, leitura, publicações e reuniões acadêmicas. Haverá publicações, eventos acadêmicos, exposições e até uma série com Fábio Porchat.

Em setembro, a RTP, a TV pública lusa, estreia a série “Viagem a Portugal”, na qual Fábio Porchat refaz os percursos de José Saramago de Norte a Sul do país entre 1979 e 1980. A série é inspirada no livro homônimo publicado em 1981. Ao receber o convite, Porchat disse aos produtores que era melhor escolher um português legítimo para apresentar o programa, mas ouviu deles que estavam em busca de um “olhar estrangeiro”.

Os três primeiros episódios já estão gravados. A viagem começou no Norte, em Miranda do Douro e seguiu até Lisboa. No caminho, Porchat visitou lugares por onde Saramago passou, entrevistou pessoas que o escritor encontrou pelo caminho e comeu os mesmos quitutes que ele. Mês que vem, o humorista e apresentador volta à terrinha para gravar os episódios restantes, descendo de Lisboa até Portimão.

— Achei uma ótima desculpa para viajar para Portugal e comer sem parar, que é o que eu mais faço na série. O povo do Norte é muito receptivo e toda cidadezinha tem seu prato típico: o bacalhau de Lanhoso, os pastéis de Vimioso, o leitão de Bragança — conta Porchat, leitor de Saramago desde que se encantou com “O evangelho segundo Jesus Cristo”, na adolescência. — Saramago criou um jeito de escrever que não existia, é mágico! Ele tinha ideias boas e um jeito de desenvolvê-las que era só dele, no mundo todo. E na minha língua! Saramago me tira do eixo.

Tanto o humorista brasileiro quanto o escritor português sofreram ataques de religiosos ao humanizarem a figura do filho unigênito de Deus. Porchat, pelas sátiras natalinas do Porta dos Fundos. Saramago, ao lançar, em 1990, “O evangelho segundo Jesus Cristo”. À época, o arcebispo de Braga disse que o escritor narrara a vida de Jesus “na perspectiva de sua ideologia político-religiosa e distorcida por aqueles parâmetros”. Saramago era comunista e com frequência se manifestava em favor da justiça social. Pilar, sua viúva, espera que os festejos do centenário resultem em maior disseminação dos valores políticos do escritor.

Contra a resignação

No decorrer do ano, a Fundação José Saramago vai divulgar a “Carta dos deveres e obrigações dos seres humanos”, elaborada por estudiosos convocados pela Universidade Autônoma do México e inspirada pelo discurso de Saramago ao receber o Nobel, em 1998. “Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor”, afirmou o escritor. A “Carta” lista, por exemplo, os deveres e obrigações de “distribuir equitativamente os alimentos e de evitar o desperdício com vistas à erradicação da fome”, além de “promover e exigir condições dignas e seguras de trabalho, com uma remuneração justa”.

— José Saramago via o mundo sem nenhum autoengano. Sabia que existem milhões de excluídos, que não podem consumir. Ele dizia que a solução passa por leis justas, políticas democráticas e uma ética da responsabilidade. Temos o dever de lutar para que não nos sobrecarreguem e respeitem nossos trabalhos, casa e projetos — afirma Pilar. — Somos seres pensantes e isso ninguém pode nos tirar. A cultura nos torna livres e nos permite usar a palavra para dizer não e combater a resignação e a indiferença.

Festa dos dois lados do Atlântico

> Do lado de cá. Para comemorar o centenário do autor no Brasil, a Fundação José Saramago conta com parceiros no país, como a Companhia das Letras, o Museu da Língua Portuguesa e a Biblioteca Mário de Andrade, o Sesc e diversas universidades.

> Debates. Estão confirmados colóquios acadêmicos em universidades do Pará e do Rio Grande do Sul e a inauguração da Cátedra José Saramago na Universidade Federal do Paraná.

> Publicações. Além dos títulos infantis, a Companhia das Letras promete uma biografia escrita por Miguel Real e Filomena Oliveira; a fotobiografia “Saramago, os seus nomes”, de Ricardo Viel e Alejandro García Schnetzer; um livro de ensaios de Leyla Perrone-Moisés sobre o autor, além de edições especiais de “Ensaio sobre a cegueira” e “O evangelho segundo Jesus Cristo”. Em dezembro foi publicado “Autobiografia”, romance de José Luís Peixoto que tem Saramago como personagem (leia abaixo).

> Eventos. A Companhia das Letras também prepara as Jornadas Saramago, série de palestras sobre o autor, que também será homenageado no estande da editora na Bienal do Livro de São Paulo. Na data do centenário, em novembro, haverá um um evento presencial, em São Paulo, com leituras, palestras e apresentações musicais.

> Do lado de lá. Em Portugal, serão publicados ao menos 13 livros durante as celebrações do centenário, incluindo a “Poesia completa” e uma seleta de textos políticos do escritor. A Fundação José Saramago lista ainda sete exposições, uma mostra de cinema, sete espetáculos de dança, um concerto, um concurso musical, uma ópera e 11 peças de teatro.

Serviço:

“Uma luz inesperada”

Autor: José Saramago. Ilustrações: Armando Fonseca. Editora: Companhia das Letrinhas. Páginas: 30. Preço: R$ 49,90.

“O silêncio da água”

Autor: José Saramago. Ilustrações: Yolanda Mosquera. Editora: Companhia das Letrinhas. Páginas: 30. Preço: R$ 49,90.

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