Do Lobby do Batom ao machismo na MPB, livros recontam história das lutas das mulheres no Brasil

"Você tem perguntas ou a gente fala?", dispara a historiadora Branca Moreira Alves ao sentar com Jacqueline Pitanguy e Heloisa Buarque de Hollanda para esta entrevista. A geração que nos legou a Constituição de 1988, que assegurou a igualdade de gênero no Brasil, quer falar, sobretudo para as jovens mulheres que, pelo menos desde 2015, colocam nas ruas uma nova onda feminista. Querem contar suas experiências, compartilhar estratégias políticas e lembrar que nenhum direito nos foi dado. Parte dessas histórias está em dois livros editados pela Bazar do Tempo: o recém-lançado "Feminismo no Brasil: memórias de quem fez acontecer", de Branca e Jacqueline; e "Feminista, eu? Literatura, Cinema Novo e MPB", de Heloisa, que será lançado nesta quarta (4), a partir das 19h, na Livraria da Travessa do Leblon.

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- Pensamos nas novas gerações para que conheçam esse passado. Não há registro das mulheres, nós somos sempre uma sombra em uma História escrita por homens e para homens. Um dos nossos compromissos é trazer um pouco de luz - explica a socióloga Jacqueline, que presidiu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), então com status de ministério, entre 1986 e 1989. - Há alguns anos, eu participei de um debate com uma jovem feminista. Falei sobre a Constituinte, e ela não sabia que nasceu respirando um oxigênio de igualdade, que é herdeira daquele movimento.

"Feminismo no Brasil" e "Feminista, eu?" são livros complementares. O primeiro conta a História do movimento feminista. O segundo aponta seu impacto nos projetos culturais que surgiram no Brasil a partir dos anos 60 e 70, como a MPB e o Cinema Novo.

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Autoras de "O que é feminismo?", clássico editado pela Brasiliense em 1981, Branca e Jacqueline planejavam escrever um novo livro juntas há algum tempo. Com o isolamento trazido pela pandemia, entrevistaram 40 mulheres que, como elas, atuaram pela redemocratização, a Constituinte e a criação do CNDM - incluindo a filósofa Sueli Carneiro, a escritora Rosiska Darcy de Oliveira e a deputada Benedita da Silva. Como o primeiro, o novo livro mostra como foi criada a ideia de submissão feminina, quem foram as precursoras e a ação das sufragistas. Mas "Feminismo no Brasil" concentra-se entre 1975, escolhido pela ONU como o Ano Internacional da Mulher, e 1990, quando já estava consolidado na lei máxima do país o artigo 5º, onde se lê que "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição".

- Há poucos escritos fora da Academia sobre esse período, mas ele foi um marco na afirmação dos direitos humanos no Brasil. É um legado que traz estratégias políticas de ação para as novas gerações, lembrando os conselhos estaduais da mulher, as negociações com Tancredo Neves para a criação do Conselho Nacional, a entrega a Ulysses Guimarães da Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes. Nosso livro traz um diálogo intergeracional, mas não em mão única. A gente quer aprender também. A nova geração tem rapidez de organização, é menos preconceituosa do que a nossa, mais aberta e inclusiva em termos de sexualidade - diz Jacqueline.

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Branca, que nos anos 70 entrevistou as sufragistas brasileiras para sua dissertação de mestrado, diz que hoje se vê no mesmo momento que elas, por isso a urgência em documentar a trajetória de sua geração.

- Elas tinham entre 75 e 80 anos, como eu tenho hoje, e se eu não tivesse pensado que era importante contar sua história, não haveria registros. Com elas eu entendi que foi uma luta de três gerações, que mulheres foram presas e torturadas para que eu pudesse votar - conta Branca, para quem um importante legado feminista é não ter "alguém que manda". - Nós nunca copiamos essa estratégia masculina de ter um líder, e isso está presente nos depoimentos das companheiras no livro. A carta das mulheres brasileiras aos constituintes é um exemplo. Não foi assinada pela presidente do CNDM, mas por "nós, mulheres brasileiras". No Rio, em 1982, e deputada Lúcia Arruda já tinha uma mandato coletivo e feminista. Antes disso, os grupos de reflexão nos deram a oportunidade de falarmos entre nós, sem interferência masculina, de cada uma ver que não estava sozinha. E se não é só comigo, então é político.

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Ser político, ainda mais no corpo de uma mulher, foi o problema com que se depararam muitas artistas que entraram no mercado cultural nos anos 60, 70 e 80. Analisando a cena brasileira do mesmo período, Heloisa Buarque de Hollanda afirma em "Feminista, eu?" que mesmo projetos transformadores, como o Cinema Novo e a MPB, não permitiam que as mulheres se assumissem feministas.

- Hoje, o feminismo está no escopo dos direitos humanos, mas, naquela época, era visto como militância, coisa de mulheres duronas e mal-amadas. Muitas artistas, em cujas obras percebemos o feminismo, não atuavam como tal porque se o fizessem ficariam restritas a um nicho de mercado. Era difícil mesmo.

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Pesquisando o Cinema Novo, por exemplo, Heloisa entendeu que, embora fosse um movimento jovem e revolucionário, a presença das mulheres nele estava restrita à atuação.

- Não tem uma mulher diretora no cinema mudo. Olha o ato falho, no Cinema Novo! Mas a mulher não falou mesmo. Havia uma quantidade de documentários e vídeos dirigidos por elas, mas sempre a margem. Os filmes da Ana Carolina eram o tempo todo sobre poder; a Teresa Trautman fez "Os homens que eu tive", em resposta ao "Todas as mulheres do mundo", do Domingos Oliveira. Ficou censurado por anos! Helena Solberg chegou perto, mas não entrou, mesmo que toda a equipe dela em "Entrevista", que é o primeiro filme feminista do Brasil, fosse do Cinema Novo.

Na MPB, que veio politizar a bossa nova, a restrição ao feminismo era violenta. O mercado simplesmente afirmava que mulheres compositoras ou instrumentistas não vendiam. Restava a elas serem cantoras, e não necessariamente num lugar que fazia jus a suas personalidades.

- Eram mitificadas como grandes damas da música. A Nara Leão, por exemplo, virou a "musa da bossa nova". Mas ela não era isso, ao contrário: saiu de forma autônoma e construiu uma carreira a partir de seu desejo, respeitando sempre a si mesma. Elis Regina era claramente feminista. Quando lançou um disco chamado "O meu samba eu canto assim", deu uma pernada na bossa nova, ao mesmo tempo que fez uma afirmação. Joyce Moreno sempre quis ser instrumentista e chegou a substituir o Toquinho em uma turnê com o Vinicius. E ela levou vaias terríveis porque falou "meu homem" - explica Heloisa.

Para a pesquisadora, Adélia Prado (" é maravilhoso o que ela faz com o micro ambiente doméstico, mostrando como o cotidiano feminino era trágico") e Ana Cristina César ("colocou o tema mulher, mas não os assuntos de mulher") são exemplos de autoras que colocaram a questão mesmo sem terem atuado. Mas, para Heloisa, foram as revistas femininas que levaram o feminismo a um número maior de brasileiras.

- Marina Colasanti, na Nova, e Carmen Silva, na Cláudia, trocaram temas como costura, cozinha e concursos de miss por questões que afetavam a vida das mulheres. A Carmen era psicanalista, e o texto dela era praticamente um consultório. Muitas mulheres se tornaram feministas lendo a revista Claudia - encerra Heloisa.

Feminismo no Brasil: memórias de quem fez acontecer. Autoras: Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 352. Preço: R$ 69.

Feminista, eu? Literatura, Cinema Novo, MPB. Autora: Heloisa Buarque de Hollanda. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 224. Preço: R$ 59,90.

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