Locomotiva tem destino mudado oito vezes até levar turistas na Serra da Mantiqueira

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RIBEIRÃO PRETO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Ela começou sua vida na Leopoldina Railway, mas passou por outros oito locais antes de transportar turistas no Trem da Serra da Mantiqueira. A vida da quase centenária locomotiva 327 é um exemplo da dinâmica comercial existente na história ferroviária brasileira.

O passado das ferrovias no país é marcado por companhias quebradas, aquisições, fusões e incorporações pelo governo. E com a 327 a história não foi diferente. Até chegar ao local em que está hoje, passou por lugares no Rio, Minas e São Paulo, atendendo linhas regulares e turísticas.

Fabricada pela inglesa Beyer Peacock & Co. em 1928, ela era movida a lenha ou carvão e fazia parte de um lote composto por 28 locomotivas, das quais outras 7 foram produzidas no mesmo ano.

A ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) conta a trajetória da locomotiva 327 a partir do encontro, em 2011, do registro da encomenda da maria-fumaça, no National Railway Museum, em York (Inglaterra).

Sua jornada nos trilhos teve início na Baixada Fluminense, atuando nos trens expressos entre a estação Barão de Mauá, no Rio, que tinha sido inaugurada em 1926, e Vitória. Era a principal linha da Leopoldina Railway, com 598 quilômetros, de um total que em 1931 tinha superado os 3.000 km de trilhos.

Mas, como as companhias que transportavam passageiros no país estavam atreladas invariavelmente à palavra crise, a Leopoldina teve uma severa… crise na década de 30, devido principalmente à quebra da Bolsa de Nova York (1929), que atingiu fortemente o café, então principal produto exportado.

E, nas décadas seguintes, a 327 passou a ser jogada para todos os lados. Atendeu a Rede Mineira de Viação, transportando passageiros entre Petrópolis (RJ) e Carangola (MG), até ser estacionada em Porto Novo, em Além Paraíba (MG).

Depois, foi para Ouro Preto (MG), em 1986, para ser usada pela primeira vez numa rota turística. Mas foi por pouco tempo, já que a rota não prosperou, o que fez com que a locomotiva retornasse a Porto Novo.

A segunda tentativa de usá-la para fins turísticos ocorreu em Miguel Pereira (RJ), num trecho de cerca de 20 quilômetros até Conrado, mas um problema num tubo condutor de vapor fez com que fosse novamente recolhida a Porto Novo.

A rota foi interrompida depois de um deslizamento de terra na serra, o que fez com que a 327 sofresse nova transferência, indo parar em Três Rios (RJ).

Na década de 1990, ela sofreu nova transferência, desta vez para Visconde do Itaboraí (RJ), num lote que incluía outra locomotiva e carros de passageiros e, em seguida, Guapimirim (RJ), para ser usada até Suruí e Visconde de Itaboraí, que pertenciam à extinta Flumitrens.

Só que, mais uma vez, o trem foi suspenso, por não receber o auxílio governamental prometido, o que fez com que a locomotiva fosse oferecida às regionais paulistas de Campinas e Cruzeiro da ABPF.

“O trem funcionou em Cruzeiro de 1996 a 2001 e inicialmente operava de Cruzeiro a Rufino de Almeida [estação], sendo que aos poucos foi esticando o trajeto até o grande túnel, no km 25, hoje ponto final do Trem da Serra da Mantiqueira”, diz a ABPF.

Ela sofreu duas reformas no período em que está com a ABPF, segundo o presidente da associação, Bruno Crivelari Sanches. A primeira, nos anos 2000, foi básica, mas a segunda incluiu até a remontagem da maria-fumaça nas oficinas da associação em Cruzeiro.

Enquanto ela era restaurada pela primeira vez, em 2000, surgiu o Trem das Águas, que opera entre as cidades mineiras de São Lourenço e Soledade de Minas, que começou as atividades com outras duas locomotivas. A 327, após o primeiro restauro, também foi incluída no roteiro.

Entre 2012 e 2018, a histórica locomotiva passou pela grande restauração em Cruzeiro, para que pudesse ser transferida para sua última missão até aqui: deixou o interior de São Paulo e foi levada para Passa Quatro (MG), para ser usada no Trem da Serra da Mantiqueira, o que faz até hoje.

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