Lojistas de Campinas cogitam desobediência civil se Doria não iniciar abertura

PATRÍCIA CAMPOS MELLO

CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Comerciantes da região de Campinas, maior cidade do interior paulista, podem começar uma campanha de "desobediência civil" e abrir as portas à revelia do governo, caso o governador João Doria não anuncie o início da flexibilização do isolamento nesta sexta-feira (8), diz Edvaldo de Souza Pinto, presidente do Conselho da Associação Comercial e Industrial de Campinas.

"Será um caos se adiarem a flexibilização. Vai quebrar muita gente. Os lojistas estão cogitando partir para a desobediência civil e abrir as lojas de qualquer jeito", diz Pinto.

Doria afirmou, na segunda-feira (4), que as cidades onde não houver taxa de isolamento social acima de 50% estarão automaticamente excluídas do relaxamento de quarentena que será anunciado no dia 8. Campinas, onde houve 25 óbitos por covid-19 e 418 casos confirmados, registrou índice de 45% na segunda-feira (4) e tem se mantido nessa faixa durante a semana

Em entrevista à Folha, o prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), que também é presidente da Frente Nacional de Prefeitos pressionou Doria a iniciar a abertura em cidades do interior.

"É o momento de ele (Doria) começar a ter um pouco mais de empatia com a camada da população que está sofrendo com (a quarentena); se ele chegar agora no dia 8 e disser que será estendido (o isolamento) até dia 30, vai ser muito complicado, vamos ter grandes dificuldades, porque a gente está vivendo em um Estado de Direito, e estamos cerceando os direitos das pessoas", disse.

Mas o infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência de Coronavírus no estado, disse que existe uma expansão da epidemia no interior e que uma taxa de isolamento abaixo de 50% não é suficiente para achatar a curva.

"Estamos analisando todos os dados de forma técnica e científica", disse ele, sobre a equipe de 12 especialistas que compõem o centro de contingência; "A área metropolitana está super pressionada e temos claros indícios de interiorização; as curvas e a evolução do número de casos indicam que o interior será o próximo foco da epidemia."

Segundo ele, no momento, isolamento social é a única atitude eficaz e que comprovadamente achatou a curva.

Souza, da ACIC, criticou o governador. "Havíamos ficado muito entusiasmados com o projeto de abertura apresentado pelo prefeito (dia 27 de abril, prevendo início de flexibilização no dia 4 de maio), todos os lojistas planejando a volta ao trabalho, e aí o governador jogou um balde de água fria."

O vereador de Campinas Pedro Tourinho (PT), presidente da Comissão da Saúde da cidade, acha que o plano de abertura apresentado pelo prefeito tem falhas e que não é a hora de começar a abertura.

"A cidade tem tido um importante aumento no número de casos e a covid-19 tem a capacidade de saturar o serviço de saúde de forma muito rápida", diz. "O plano tem vários problemas que precisavam ser sanados antes de ser posto em ação e o município não deve descumprir sob hipótese alguma qualquer diretriz estabelecida pelo estado."

O deputado Alexandre Padilha (PT-SP), que vai apresentar nesta quarta-feira (6) um projeto de lei com diretrizes para o retorno gradual das atividades sociais e econômicas, também critica a pressão para abertura. "Defendo que o debate de flexibilização seja com seriedade e com o cuidado que os países do hemisfério norte, mesmo já estando na primavera, começaram a fazer. Nenhum destes países começou a flexibilizar em regiões que tenham aumento de casos suspeitos ou confirmados depois de pelo menos 14 dias. Em SP, nas regiões metropolitanas, não houve nenhuma redução sustentada nos últimos 14 dias."

André Ribas Freitas, médico epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic, aponta ainda que não se pode pensar em Campinas como uma ilha. "Toda a região metropolitana precisa de leitos de Campinas. A região ainda não foi atingida em sua plenitude, mas não temos nada de mágico que nos proteja, é preciso planejar qualquer abertura com muito cuidado."