Reino Unido quer força europeia de proteção no Golfo em resposta ao Irã

Por Edouard GUIHAIRE
Guarda Revolucionária patrulha ao redor do "Stena Impero", de bandeira britânica, capturado pelo Irã e levado para o porto de Bandar Abas, sul do Irã, em 21 de julho de 2019

O Reino Unido disse nesta segunda-feira (22) que quer criar uma força de segurança marítima para o Golfo sob liderança da Europa, depois que o Irã confiscou um petroleiro de bandeira britânica em meio a uma crescente tensão na região.

O ministro britânico das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, fez o anúncio depois de uma reunião ministerial de emergência para responder ao incidente da última sexta.

"Vamos procurar criar uma missão de segurança marítima liderada pela Europa para apoiar uma passagem segura para cargueiros e tripulações naquela região vital", declarou Hunt no Parlamento.

"Vamos tentar estabelecer essa missão o mais rápido possível", disse o chanceler, acrescentando que "não será parte da política de pressão máxima dos Estados Unidos sobre o Irã".

Hunt descreveu o incidente de sexta-feira como um ato de "pirataria estatal".

Enquanto isso, o chanceler iraniano, Javad Zarif, afirmou também nesta segunda, em visita à Nicarágua, que o governo de Teerã "não busca o confronto" com Londres.

Em coletiva de imprensa, Zarif disse que o Irã deseja estabelecer "relações normais baseadas no respeito mútuo" com o Reino Unido.

"É muito importante que Boris Johnson, em um momento em que se preparar para entrar em Downing Street, 10 [sede do Executivo britânico], compreenda que o Irã não busca o confronto", disse o chefe da diplomacia iraniana.

De propriedade de um construtor naval sueco, mas com bandeira britânica, o navio-tanque "Stena Impero" foi interceptado na sexta-feira pela Guarda Revolucionária do Irã. Teerã acusou a embarcação de não respeitar o "código marítimo internacional", o que foi negado pelo Reino Unido.

O porta-voz do governo iraniano, Ali Rabii, disse nesta segunda que a captura do petroleiro "era uma medida legal" necessária para "manter a segurança regional".

A crise ocorre em um contexto político muito sensível para os britânicos, porque a atual primeira-ministra Theresa May deixará suas funções na quarta-feira (24).

A chefe do governo conservador presidiu uma reunião interministerial em Downing Street, durante a qual foi abordada a questão da "manutenção da segurança da navegação no Golfo".

Jeremy Hunt, candidato a suceder a May, falou no domingo com seus colegas Jean-Yves Le Brian (França) e Heiko Maas (Alemanha), com os quais concordou que "a segurança dos navios que passam pelo Estreito de Ormuz é uma prioridade absoluta para os países europeus".

"O navio foi apreendido sob falsos pretextos, e os iranianos deveriam liberá-lo imediatamente com sua tripulação", declarou o porta-voz de May à imprensa.

"Não buscamos o confronto com o Irã, mas apreender um navio que está fazendo negócios legítimos por vias marítimas internacionalmente reconhecidas é inaceitável", completou, acrescentando que esta operação alimenta a escalada das tensões no Golfo.

- Retaliação -

O navio e seus 23 tripulantes estão detidos no porto de Bandar Abbas, no sul do Irã.

Poucas horas antes, a Suprema Corte de Gibraltar, território britânico localizado no extremo sul da Espanha, decidiu prorrogar por 30 dias a detenção de um petroleiro iraniano, o "Grace 1". Suspeito de querer entregar petróleo à Síria - o que Teerã nega -, o navio foi retido em 4 de julho pelas forças britânicas.

A apreensão do "Stena Impero" e a impotência dos britânicos para impedi-la reviveram no Reino Unido o debate sobre seu poder militar.

"Não há dúvida de que a (redução) da Marinha Real desde 2005 - que passou de 31 fragatas e destróieres para 19, atualmente - teve um impacto em nossa capacidade de proteger nossos interesses em todo mundo", afirmou o contra-almirante aposentado Alex Burton.

Alguns também questionaram o apresamento do "Grace-1", uma operação que, segundo o ministro espanhol das Relações Exteriores, Josep Borrell, teria acontecido a pedido dos Estados Unidos.

"Que raios pensaram os políticos e as autoridades britânicas que autorizaram isso?", perguntou o colunista Patrick Cockburn, especialista em Oriente Médio, no jornal The Independent.

"Será que eles realmente acreditaram que os iranianos não se vingariam pelo que consideram uma séria escalada na guerra econômica americana contra eles?", completou.

Os atritos entre Teerã e Washington aumentaram desde a retirada unilateral dos EUA, em maio de 2018, do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano concluído em 2015. A região do Golfo e o Estreito de Ormuz, por onde transita um terço do petróleo mundial, está no centro das tensões.