UE abre porta para estender negociação sobre Brexit

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O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen

O negociador europeu para o Brexit, Michel Barnier, afirmou nesta terça-feira (22) que a União Europeia (UE) está disposta a negociar "até o fim do ano e além, se for necessário", um acordo pós-Brexit com o Reino Unido, a menos de dez dias da ruptura definitiva.

Segundo várias fontes europeias, o negociador também reconheceu, durante um encontro com os embaixadores dos Estados-membros da UE, que rejeitou uma oferta recente de Londres sobre a pesca. Este tema continua sendo o principal ponto de bloqueio entre as partes.

Michel Barnier prometeu continuar trabalhando com Londres para conseguir um acordo comercial pós-Brexit, apesar da situação de caos gerada pelo coronavírus e do fechamento das fronteiras com o Reino Unido.

"Estamos realmente em um momento crucial e estamos fazendo o último esforço", disse ele à imprensa antes de um encontro com os embaixadores da UE em Bruxelas.

Barnier confirmou a determinação de ambas as partes em continuar conversando e que a UE está disposta a negociar "até o final do ano e mais além", embora não tenha dito se haverá ou não acordo, segundo uma fonte europeia.

Resta uma semana e meia para o fim do período de transição pós-Brexit e, sem um tratado de livre comércio que amenize a separação, esta pode ter graves consequências para as duas economias, já debilitadas pelo coronavírus, especialmente a britânica.

Neste contexto, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, conversaram por telefone na noite de segunda-feira, disse a fonte em Bruxelas. Ao contrário das ocasiões anteriores, as duas partes optaram pela discrição sobre esta ligação.

- Batalha política pela pesca -

O Reino Unido, que abandonou a UE oficialmente em 31 de janeiro, cortará seus laços com o bloco em definitivo no final do mês, data em que termina o período de transição.

As negociações em busca de um acordo, que segundo várias fontes registraram alguns avanços nos últimos dias de intensos contatos em Bruxelas, continuam, no entanto, bloqueadas em torno da exigência europeia de continuar pescando nas ricas águas britânicas. De pouco peso econômico, a questão se transformou em uma verdadeira batalha política para ambos os lados do Canal da Mancha.

O Reino Unido insiste em "recuperar o controle de suas águas".

Barnier explicou nesta terça-feira aos embaixadores que rejeitou uma oferta de Londres a respeito do assunto, sem mais detalhes.

Agora, a negociação se vê ofuscada pelo caos provocado no transporte de mercadorias após a detecção na Inglaterra desta nova variante do coronavírus, mais contagiosa do que as anteriores.

Hoje, a Comissão Europeia recomendou aos Estados-Membros que retomem suas rotas aéreas e marítimas com o Reino Unido para "viagens essenciais", a fim de evitar uma "ruptura nas cadeias de abastecimento".

Apesar do conselho de Bruxelas, a Irlanda já anunciou que manterá o fechamento até 31 de dezembro, enquanto Alemanha e Itália farão o mesmo até 6 de janeiro.

"A Comissão (Europeia) está apresentando argumentos jurídicos, mas o aspecto da saúde também deve ser levado em consideração", ressaltou o ministro irlandês dos Transportes, Eamon Ryan.

- Ameaça de ruptura sem acordo -

Apesar das graves consequências econômicas que teria para a economia britânica - muito duramente atingida pela pandemia e, segundo um recente relatório parlamentar, insuficientemente preparada para sair do mercado único e da união aduaneira -, Johnson reiterou na segunda-feira que os termos de uma ruptura sem acordo "seriam mais que satisfatórios para o Reino Unido".

"Podemos enfrentar qualquer dificuldade em nosso caminho", garantiu.

Enquanto isso, o prazo máximo estabelecido pelo Parlamento Europeu com o objetivo de validar um eventual tratado a tempo de entrar em vigor em 1º de janeiro expirou em 20 de dezembro.

Agora, se as duas partes chegarem a um acordo de última hora nesta ou na próxima semana, este deverá ser aplicado provisoriamente sem validação. Outro cenário envolve alguns dias de ruptura brusca à espera de que as Câmaras se reúnam e aprovem um texto de 700 páginas repleto de detalhes técnicos.

Neste contexto, agravado pelo medo no Reino Unido de uma falta de suprimentos se as fronteiras não forem reabertas logo, a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon - crítica ferrenha do Brexit -, e o prefeito de Londres, o trabalhista Sadiq Khan, pediram a Johnson para prorrogar o período de transição para depois do fim do ano.

Uma proposta energicamente recusada pelo porta-voz de Downing Street: "Nossa posição sobre o período de transição está clara: terminará em 31 de dezembro", reafirmou.

Sem acordo, o comércio entre a UE e o Reino Unido passará a ser administrado em 2021 pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Isso envolverá tarifas, taxas e trâmites burocráticos pesados que podem provocar enormes congestionamentos nos portos e atrasos nas entregas. A situação será parecida com a qual os britânicos vivem agora, devido ao fechamento das fronteiras pela pandemia.

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