Longa sobre Emily Brontë mostra como autora antecipou temas feministas e a busca da mulher por identidade

“Como você pode ter escrito algo tão horrível? Um livro sobre pessoas desprezíveis, que só se preocupam com elas mesmas?”, pergunta uma indignada Charlotte Brontë, interpretada pela atriz Alexandra Dowling, para a irmã Emily Brontë, vivida por Emma Mackey (de “Sex Education”), em seu leito de morte.

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O questionamento, que abre “Emily”, primeira cinebiografia dedicada à aclamada escritora britânica Emily Brontë (1818-1848) e prevista para chegar aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, dá voz a uma curiosidade universal que atravessa séculos desde o lançamento do polêmico “O Morro dos Ventos Uivantes”, em dezembro de 1847. Afinal, o que teria motivado aquela jovem, filha de um clérigo, na pacata província de Haworth, a criar uma trama tão “estranha”, polêmica e carente de empatia, e, ao mesmo tempo, completamente viciante?

Em entrevista ao GLOBO, a atriz britânica Frances O’Connor fala sobre a experiência de buscar esta resposta no longa em que estreia como roteirista e diretora.

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O corajoso e imaginativo resultado do trabalho de O’Connor nos leva a resgatar a máxima de que produções de época dizem mais sobre o seu próprio tempo do que sobre o período histórico que pretendem retratar. O longa “Emily” é um bom (e belo) exemplo desta teoria. Ao levantar pautas contemporâneas como as consequências do patriarcado, a sexualidade feminina, a capacidade de autonomia dos jovens e o uso de drogas, além de lançar luz àquela estranha sensação de inadequação que assola pessoas em todo o mundo, o roteiro é uma celebração da desafiadora e tão atual busca por identidade.

Durante a entrevista, a palavra autenticidade foi, inclusive, a qualidade de Emily mais enfatizada pela diretora ao justificar a decisão de fazer um filme sobre a escritora.

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O’Connor tem uma razão muito pessoal para eleger Emily como seu objeto de pesquisa. O clássico gótico era o livro de cabeceira da diretora e a ajudou a entender que não existem pessoas perfeitas.

— Emily viveu de forma muito diferente das demais escritoras do seu tempo. Bem ou mal, Jane Austen, Elizabeth Gaskell e as próprias irmãs de Emily, Charlotte e Anne, acabavam seguindo as regras da sociedade de seu tempo. Mas Emily não se deixava dominar. Ela, de fato, parece ter entendido o significado da expressão “seja você mesmo” de um jeito realmente verdadeiro. Não foi fácil. Foi uma longa jornada até entender que era diferente — contextualiza a diretora e roteirista. — Enquanto tentava se encaixar, enquanto buscava seguir os passos de Charlotte, as coisas não fluíram. Mas, quando desistiu e aceitou a si mesma, Emily finalmente teve um encontro com a sua essência. E isso permitiu um processo criativo explosivo, inesperado.

Sem fantasia

Apesar da busca por uma estética documental, explícita em cenas de câmera na mão, maquiagem neutra e figurinos que são “menos fantasias e mais roupas”, como explica O’Connor, o filme não pode ser tomado como uma fonte fidedigna desta biografia. A Emily encarnada por Emma Mackey traz uma liberdade da qual a escritora nunca usufruiu. E a leveza que Emma imprime em sua protagonista em nada nos lembra a sisuda Emily, vivida por Chloe Pirrie, no longa “As irmãs Brontë” (BBC, 2017). Em cenas sensuais ousadas, a filha do clérigo Patrick Brontë ignora os preconceitos que dominam a província de Haworth e se entrega ao jovem pároco William Weightman (Oliver Jackson-Cohen). E, para a diretora, a grande inspiração de Emily para “O Morro dos Ventos Uivantes” viria desta experiência visceral de entrega ao amor e à sexualidade.

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Como se tentasse reproduzir na trajetória de Emily a mesma tênue fronteira entre sonho e realidade que encontramos em seu clássico literário, a cronologia dos fatos é embaralhada pelo roteiro, numa licença poética que pode desagradar aos mais puristas. No longa, por exemplo, Charlotte Brontë só começa a escrever Jane Eyre após a morte de Emily, nitidamente influenciada pela irmã.

Outra controvérsia está no fato de o roteiro corroborar a imagem de uma Anne Brontë apagada. No filme, a forte amizade entre Emily e a irmã caçula Anne — sua parceira criativa desde a infância, quando escreviam juntas a saga da ilha fictícia de Gondal — é substituída por uma proximidade quase tóxica entre Emily e o irmão rebelde Patrick Branwell Brontë.

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Os livros de Anne são ignorados pela roteirista e diretora, o que não ajuda a fazer justiça com o legado de Anne, autora do não menos revolucionário “A Inquilina de Wildfell Hall”, publicado em 1848.

Em seu relato “Reminiscenses of Charlotte Brontë”, escrito em 1871, Ellen Nussey, amiga confidente de Charlotte Brontë, conta que “Emily e Anne eram como gêmeas, companheiras inseparáveis tomadas pela mais completa identificação mútua, jamais corrompida”, como ressalta o editor Rodrigo Lacerda na apresentação de edição do clássico “O Morro dos Ventos Uivantes” publicada pela Zahar.

Para O’Connor, no entanto, é na relação com o irmão rebelde Branwell que Emily encontraria espaço para deixar fluir seu espírito libertário. A influência seria tanta que faria Emily repetir em seu braço uma tatuagem idêntica à do irmão, com a frase Freedom in Thoughts, em clara referência aos movimentos liberais e revolucionários que ainda ecoavam na Inglaterra vitoriana.

— Ao começar a escrever este filme, pensei muito nos jovens e no conflito existencial que permeia quem está em transição. Emily Brontë evoca uma liberdade genuína de quem aceitou a si mesma e isso pode ser inspirador e libertador. Neste contexto, a relação entre ela e o irmão Branwell nos remete à intensa relação entre Heathcliff e Catherine Earnshaw, protagonistas do romance de Emily. Tudo isso gera uma conexão com os jovens leitores do clássico e também desperta interesse naqueles que ainda não o conheçam — diz a diretora.

O irmão Branwell, por sua vez, fica doente e morre antes mesmo de as irmãs publicarem seus livros, o que não corresponde à realidade. No entanto, a roteirista e diretora brilha ao dar à sua protagonista um sucesso reconhecido em vida e uma jornada mais libertária, como ela tanto desejou e como fica evidente na fala de sua protagonista Catherine Earnshaw. “Queria estar fora de casa, queria ser de novo menina, meio selvagem, atrevida e livre”, clama a anti-heroína criada por Emily.

— Vivemos, até hoje, um mundo patriarcal em que as pessoas buscam ser perfeitas e corresponder a uma imagem que precisa estar bem o tempo todo. Isso é angustiante, especialmente para as mulheres, que precisam de aprovação masculina nos mais diversos âmbitos da vida. Então, meu filme é sobre isso, sobre este legado de liberdade que Emily nos deixa e que nos faz atentar para o empoderamento feminino. Embora esta expressão não existisse na época, certamente tudo o que Emily fez e escreveu foi revolucionário e ainda é — resume O’Connor, lembrando que a escritora era leitora influenciada por Lord Byron e Percy B. Shelley, sendo este marido da gótica Mary Shelley (autora de “Frankenstein”), e, portanto, genro de Mary Wollstonecraft, considerada a “mãe” do feminismo.