Longe dos palanques, Aécio é o candidato a deputado que recebe mais verbas no PSDB em Minas

Senador Aécio Neves (PSDB-MG) apresenta campanha discreta para a Câmara (Fátima Meira/Futura Press)

Por Marcelo Coelho

Belo Horizonte (MG) — Ao deixar um encontro do PSDB em um centro de eventos da região Centro-Sul de Belo Horizonte, no final do ano passado, o senador Aécio Neves afirmou que disputar uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2018 estava “fora de cogitação”. Na época ele considerava tentar a reeleição ao Senado ou até se lançar candidato ao governo de Minas. Um ano depois, em seu primeiro evento oficial de campanha, em um fazenda nos arredores de Teófilo Otoni, na região do Vale do Mucuri, o tucano mudou de posição: “Eu serei com muita honra e orgulho representante dessa região na Câmara dos Deputados”.

Na cerimônia em que se lançou candidato a deputado federal não estiveram presentes grandes caciques do PSDB mineiro, mas o parlamentar recebeu apoio de vários prefeitos e ex-prefeitos. A distância dos principais nomes tucanos tem se repetido ao longo da campanha. Até agora, ele não participou de nenhum evento ao lado do candidato do PSDB ao governo de Minas, o senador Antônio Anastasia – que foi vice de Aécio e atualmente é colega de bancada no Senado.

Na semana passada, a coligação que apoia Anastasia entrou com uma ação no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) pedindo para que uma propaganda de seu adversário, o governador Fernando Pimentel (PT), fosse retirada do ar. O motivo era que o comercial fazia associação entre Aécio e Anastasia, como sendo dois políticos de pensamento idênticos. Questionado sobre o motivo de tentar barrar a propaganda, Anastasia afirmou que não se incomodava em ser associado ao ex-governador, mas que o conteúdo veiculado pelo petista não seguia as normas eleitorais e por isso foi questionada na Justiça.

As razões do afastamento dos principais nomes do partido de Aécio são as denúncias de corrupção envolvendo o ex-governador mineiro que vieram à tona nas delações dos irmãos Batistas, do grupo JBS. Aécio foi gravado pedindo R$ 2 milhões para o empresário e combinando a entrega do dinheiro por meio de seu primo. Ele chegou a ser afastado do Senado e o Ministério Público pediu a prisão do tucano – que não aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O tucano responde a seis inquéritos (além da suspeita de propina da JBS, ele responde por ações envolvendo a empreiteira Odebretch). Outras duas denúncias foram arquivadas por falta de provas. O arquivamento mais recente foi pedido pela procuradora-geral da República Raquel Dodge no início dessa semana. A investigação apurava a participação do senador em irregularidades da CPMI dos Correios.

Em seu discurso aos cerca de 150 presentes no lançamento de sua candidatura, Aécio afirmou que ser recebido em uma fazenda particular de um apoiador demonstra a confiança que ainda tem de muitos no estado. “Eu tenho participado ao longo da minha vida de inúmeros atos políticos de dimensões diferentes. Mas acreditem, este tem para mim um sentido especial. Meu sentimento é de estar vivendo um reencontro com minha história”, disse.

Aécio Neves (c) junto da bancada federal do PSDB de MG em 2017 (Divulgação/Instagram)
Maior repasse do PSDB

Se por um lado Aécio tem ficado de fora dos principais palanques tucanos por Minas Gerais – o candidato à presidência Geraldo Alckmin também não esteve ao seu lado até agora –, na divisão de repasses financeiros do partido o parlamentar foi beneficiado em comparação com outros candidatos do PSDB que disputam uma vaga na Câmara.

Levantamento na prestação de contas divulgadas pelos partidos e candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que Aécio foi o tucano que mais recebeu rapasses da legenda para a campanha. Entre os 20 candidatos do PSDB, o senador foi o único que recebeu R$ 1 milhão do diretório nacional para buscar votos dos eleitores mineiros. A maioria dos outros deputados da sigla que concorrem à mesma vaga receberam entre R$ 500 mil e R$ 900 mil do fundo nacional. Além do R$ 1 milhão repassado pelo PSDB para a corrida, Aécio arrecadou apenas R$ 4.195,00 por meio de financiamento coletivo, sendo o valor doado por sete pessoas.

Procurado pela reportagem, o PSDB-MG não quis comentar os critérios de distribuição de verba da direção nacional entre os candidatos da legenda. O presidente da sigla em Minas, deputado Domingo Sávio preferiu não comentar sobre a campanha política de seu correligionário, ressaltando que eles disputam hoje o mesmo espaço político. “Aécio é hoje um concorrente meu nessa campanha. Ele faz a campanha ele e eu faço a minha. Não seria ético da minha parte falar sobre os palanques que ele participa ou não. É cada um cuidando do seu”, afirmou.

Entre os prefeitos apoiadores de Aécio na campanha deste ano, alguns reconhecem que as denúncias de corrupção foram um período difícil para o senador, mas que sua passagem pelo governo de Minas foi positiva para seus municípios. “Apoiei ele como deputado em 1994, em 1998, depois no governo de Minas e ele sempre fez bastante pela região. Claro que os casos de corrupção atrapalham eleitoralmente, mas não para mim, que penso no que é melhor para a cidade. Por questão de gratidão, tenho que lembrar de tudo que ele fez como governador e não tenho opção senão apoiá-lo”, afirma Higino Zacarias (PSDB), prefeito de Ritápolis.

Por meio de nota, o senador Aécio Neves afirmou que “tem se reunido com apoiadores e lideranças em encontros reuniões, a exemplo do que ocorre em outras campanhas proporcionais”. Segundo sua assessoria de imprensa as agendas são organizadas pelos apoiadores e dirigidas ao público interessado, sendo marcadas tanto na capital mineira quanto no interior do estado.

Nota: O PSDB de Minas foi procurado desde a semana passada para explicar sobre os métodos adotados na divisão dos recursos do fundo partidário, mas até a publicação dessa matéria não retornou.