Longe do Sambódromo, baluartes, músicos e musas vão viajar ou se preparar para o carnaval de 2022

Rafael Galdo
·5 minuto de leitura

RIO — Neste carnaval, em que pela primeira vez a Sapucaí não é palco de uma constelação de sambistas, qual será o nível de nostalgia dos artistas que por décadas são sinônimo do brilho e da ancestralidade da festa? Nas próximas noites, serão muitas as emoções de Neguinho da Beija-Flor, de mestre Ciça, da carnavalesca Rosa Magalhães, da musa Viviane Araújo e do patrono de todos, Monarco. Longe do Sambódromo, essas estrelas enfrentarão o desafio de equilibrar saudade e esperança de um 2022 com vacina e o ziriguidum mais afinado do que nunca para compensar um ano sem batucada, sem o delírio da Apoteose e sem as notas dez.

Para Neguinho, que não deixou de pisar na Avenida nem quando enfrentava um câncer, a distância da Passarela é como ficar longe de parte considerável da própria vida. Até o casamento do intérprete foi diante do Setor 1. Ele, que já se apresentou em temporais e sob o sol de rachar de meio-dia em busca de títulos para sua escola, foi o primeiro a ter cautela e admitir que não poderia haver folia nem em julho, como era previsto. Neguinho, no entanto, diz que está com o “coração sangrando”:

— Desta vez, é luto mesmo. Nem sei qual vai ser minha reação, como vou amenizar a falta dos momentos que sempre foram os melhores da minha vida. O carnaval é meu tudo, meu ganha-pão, minha história, tempero do meu viver. Mas, infelizmente, estamos em meio a uma pandemia.

Antes de se isolar na casa de um amigo em Glicério, na região serrana de Macaé, onde Neguinho vai trocar as notas de samba pelas cartas do buraco e jogar também muita conversa fora, ele quis deixar um presente para os fãs da escola de Nilópolis. Gravou os dez sambas que continuam no concurso da agremiação para o carnaval do ano que vem. E adianta que o lançamento será no dia 17 para o público escolher seus favoritos ao longo dos próximos meses de distanciamento social.

— Vai ser a disputa mais longa da história — observa o puxador, que põe todas suas fichas na vacina para tudo voltar ao normal.

Saudade do Jorge Aragão

Monarco, outro astro da festa, vai se vacinar hoje. O baluarte de 87 anos, que desfila na Portela desde 1947, ironicamente será imunizado no Sambódromo onde funciona um dos postos de vacinação. Um drive-thru pertinho da Apoteose. E junto vai levar a esperança de voltar aos shows, suspensos desde março; de dar aquele abraço afetuoso nos filhos e netos; de reencontrar a rapaziada para um cafezinho no Bar do Júlio, na quadra da Portela; de rever amigos de todas as horas como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Nei Lopes; e de comemorar de novo com a velha guarda nas feijoadas. Porque, por enquanto, confessa, anda meio desanimado, seguindo à risca o confinamento. Mas o ano sabático imposto pela pandemia pode trazer bons frutos.

— Estou vivendo na janela. Passo o maior tempo deitado no sofá, dou uma caminhada no playground, por orientação do médico, e tenho tirado do baú algumas músicas antigas, para mexer numa letra ou numa melodia — conta. — No carnaval, não vai ser diferente. Depois de me vacinar, volto para casa, com minha mulher, acreditando que dias melhores virão.

Já a rainha de bateria do Salgueiro, Viviane Araújo, vai viajar. E vai levar na bagagem a saudade de quem, há 26 anos, é aplaudida pela plateia do primeiro ao último passo na Avenida. Assim como Monarco, no entanto, não é apenas desses minutos de esplendor que ela sente falta. Há um vazio também do samba do qual vive o ano inteiro, dos ensaios na quadra ao lado de seus mestres de bateria, Guilherme e Gustavo, dos ritmistas e dos amigos.

— Eu era quase a primeira a chegar e a última a sair. Quem me conhece sabe que aquilo é um amor incondicional. Tenho tentado suprir essa falta em casa, reunindo os amigos mais próximos para ouvir samba e assistir a desfiles — conta a rainha.

Rosa imagina futuro

A carnavalesca Rosa Magalhães é outra que aderiu a essas recordações de antigas folias. Neste fim de semana, que no passado seria de correria para pôr a Imperatriz Leopoldinense na briga pelo campeonato, ela vai rever antigos carnavais na internet e acompanhar lives sobre... escolas de samba. Com meio século de carnaval, Rosa não parou de pensar no próximo desfile. Mergulhou em pesquisas para homenagear o carnavalesco Arlindo Rodrigues e anota tudo num “cadernão”. Até o clima que pretende levar à Sapucaí, pós-coronavírus, já imagina:

— A Imperatriz vai ser a primeira a desfilar no Grupo Especial. O povo estará enlouquecido. Vai ser um grande alívio — afirma Rosa, conhecida também por ter os cabelos sempre coloridos, que já sabe o que fará quando puder voltar à rua. — Vou ao cabeleireiro, porque meu cabelo estava um horror e eu mesma cortei sem dó nem piedade. Por enquanto, estou longe de tudo, como numa prisão domiciliar, mas sem tornozeleira e culpa no cartório.

Mestre Ciça, que comanda a bateria da campeã Viradouro, tenta manter um bom humor parecido. Mas o sambista, acostumado a levantar as arquibancadas com suas bossas e paradinhas, teve dias de “tristeza sem fim”. Ele perdeu um irmão para a Covid-19. E, na madrugada em que fevereiro chegou, teve uma crise de choro, olhando a cidade da janela de casa, no Estácio, onde mora. Era como se um filme passasse em sua cabeça sobre quase 50 anos de carnaval, 34 deles como mestre de bateria:

— Estou sofrendo porque sou apaixonado. Sem a Sapucaí não sou ninguém. Dou minha vida ali. Às vezes, reclamava um pouco que estava cansado. Nunca mais vou repetir isso — diz ele, acrescentando que só “desfila” no momento, de máscara, caminhando ladeiras acima do Morro de São Carlos e cruzando as esquinas onde nasceu a primeira escola de samba do Rio.