Los lobos: a (dura) vida pós-travessia de uma família de imigrantes aos EUA

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Cena do filme Los Lobos, de Samuel Kishi, com Hania Robledo. Maximiliano Nájar Márquez e Leonardo Nájar Márquez
Cena do filme Los Lobos, de Samuel Kishi, com Hania Robledo. Maximiliano Nájar Márquez e Leonardo Nájar Márquez

Uma patrulha de policiais do Novo México, nos EUA, encontrou, em setembro, numa área desértica ao Sul da cidade de Deming, o corpo de uma brasileira de 50 anos que tentava entrar ilegalmente no país.

A rondoniense Lenilda dos Santos era técnica de enfermagem e morreu de fome e de sede após ser abandonada por um grupo que atravessava a fronteira.

Duas semanas depois, os EUA informaram que, a partir de outubro, dois voos semanais sairão do país em direção ao Brasil com pessoas deportadas pelas autoridades americanas. Atualmente apenas uma aeronave embarca para cá com passageiros que tentaram entrar ilegalmente no país e foram pegos.

Difícil imaginar o que aconteceria com esses imigrantes caso tivessem conseguido completar a travessia em direção à terra das oportunidades. Teriam um final feliz?

Um filme que entrou recentemente em cartaz nos cinemas brasileiros ajuda a elaborar uma resposta —e ela passa longe da Disneylândia prometida a um de seus personagens.

Dirigido por mexicano Samuel Kishi, “Los Lobos” conta o que acontece após a travessia bem sucedida de uma mulher em busca de trabalho e seus dois filhos —um deles obcecado em entender como uma “lâmpada” causou a morte do pai. Ele não demora a descobrir.

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Para aquela mãe solo e suas crianças, sobreviver ali, num novo país de língua diferente, é um novo round de uma luta diária, sem hora para acabar.

A começar pela busca de moradia, resumida a opões de apartamentos precários e insalubres de conjuntos habitacionais mal frequentados e mal administrados.

O drama acompanha a dura rotina da mãe pelo olhar das crianças. Para poder sair e trabalhar, ela deixa gravada em uma fita K7 uma série de mandamentos que servem como pacto. O primeiro é que eles não podem sair à rua ou abrir a porta para estranhos. Nunca. Em momento algum. Sob nenhuma hipótese.

O último mandamento é que ninguém ali pode chorar.

É óbvio que não dá certo.

Nos primeiros dias, os meninos seguem à risca as orientações da mãe, que promete chegar pontualmente em casa sempre às 19h. Até lá, eles veem o tempo se arrastar enquanto tentam se entreter desenhando lobos nas paredes, tomando lições de inglês gravadas pela mãe na mesma fita k7, brincando com o que tem por perto. Uma pequena garrafa pet é capaz de transformar aquela sala de carpete empoeirado num universo em expansão. O cansaço, em contrapartida, confere àquele lar, onde veem pela janela outras crianças brincando ou aprontando na vizinhança, um ar de cativeiro.

Até que um dia a mãe, sobrecarregada com outro trabalho, que a obriga a sair de casa antes que os filhos acordem, e a chegar ali depois que eles dormem, é flagrada aos prantos. Pronto, o pacto está quebrado. Uma porta se abre para o mundo.

É claro, novamente, que não tem como dar certo.

A apreensão com os riscos que aquelas crianças passam a correr ao gerir as noções próprias de tempo, afetos, segurança e as tarefas domésticas é construída pela câmera do diretor como uma bomba prestes a explodir.

Ali, onde os referenciais simbólicos de autoridade se ausentam, uma nova rede de solidariedade se forma, seja na igreja onde os humilhados ganham uma promessa de exaltação —além de pães— seja entre outros imigrantes, também vítimas de um país que não os quer a não ser como força de trabalho barato.

O filme venceu a Mostra Geral do Festival de Berlim em 2020 e está em cartaz em cinemas de São Paulo, Fortaleza e Aracaju. 

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