LP inédito com composições de portelenses históricos é lançado mais de seis décadas após gravação

Graças a um bando de apaixonados por samba, um tesouro está vindo à tona. O lançamento do LP “Escola de Samba Portela 1959” (nesta sexta-feira, 17, a partir das 19h, no Centro Cultural São Paulo) é o final feliz de uma epopeia. No disco há composições dos portelenses históricos Manacéa, Jair do Cavaquinho, Chatim e Walter Rosa.

Como, na fase de pré-venda, esgotaram-se as 40 bolachas de cor branca (R$ 300) e as 25 azuis (R$ 280), só há pretas (R$ 230). A tiragem total é de 500 unidades. A partir da próxima segunda-feira, LPs serão vendidos pela internet. Informações estarão nas páginas do Instituto Glória ao Samba no Facebook e no Instagram. Mais à frente, as músicas ficarão disponíveis nas plataformas digitais.

Integrantes do instituto, uma associação de aficionados pelo gênero, descobriram em 2008, no site do Immub (Instituto Memória Musical Brasileira), a menção a um disco intitulado “Escola de Samba Portela 1959”. Até então, só se conhecia o de 1957. Consultaram pesquisadores e colecionadores, mas ninguém sabia do que se tratava. Havia apenas uma pista: teria sido produzido pelo selo Festa.

A busca começou para valer em 2012. O jornalista Paulo Mathias, que desde então trabalha numa biografia do compositor e líder Paulo da Portela, procurava alguma informação enquanto fazia entrevistas, vasculhava a hemeroteca da Biblioteca Nacional e consultava livros para a sua pesquisa. Foi em 2017 que achou o nome de Gracita Garcia Bueno, identificada como sobrinha de Irineu Garcia, o dono do Festa.

Encontraram o telefone de uma associação de artistas plásticos da qual Gracita fazia parte. Souberam, então, que estava com ela o acervo do selo e que dele fazia parte o material do “Portela 59” — como o disco é mais conhecido. Ela relutou, mas aceitou mostrar.

Ao lado da jornalista Ana Paula Orlandi, que escrevia uma monografia sobre o Festa, Mathias e seu colega Rafael Lo Ré puseram a fita DAT para tocar e ouviram sete sambas. Emocionados, comprovaram que “Portela 59” não era uma lenda, como chegaram a temer que fosse.

Faltava tentar saber por que só havia sete, se no site do Immub estavam listadas 12 músicas. E por que o material não fora lançado.

— É um mistério por que não saiu — diz Mathias. — Mas descobrimos que os outros cinco sambas foram compostos apenas nos anos 1960. Então, entraram depois na lista, talvez para algum projeto de compilação.

O selo Festa foi fundado em 1955 pelo jornalista Irineu Garcia e pelo editor Carlos Ribeiro para lançar, sobretudo, poesia. Foram gravados, por exemplo, LPs de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto declamando seus poemas.

Entre 102 títulos, o Festa também lançou discos de música clássica e alguns de música popular, inclusive o histórico “Canção do amor demais” (1958), com Elizeth Cardoso interpretando Tom Jobim e Vinicius de Moraes, acompanhada, em duas faixas, pelo violão de João Gilberto. No mesmo ano, João lançou “Chega de saudade” num disquinho de 78 rotações por minuto e fez surgir a bossa nova.

Uma hipótese para Garcia ter resolvido levar sambistas para o estúdio em 28 de novembro de 1959 é que seu amigo Vinicius de Moraes o tenha convencido. Mas só agora, 63 anos depois, o projeto vira realidade.

— A gente não vai ganhar dinheiro com isso — avisa Mathias. — Importante é a satisfação de ter localizado o material. Como eu jamais vou compor igual a um Cartola ou a um Monarco, mesmo que nascesse mais 15 vezes, essa é a forma de eu contribuir para o samba.

Pesquisa apaixonada

O Glória ao Samba, criado em 2007, não tem fins lucrativos. São 22 componentes, quase todos de São Paulo, sendo alguns da periferia. Há mestre de obras, vendedor, professor, pintor de parede, mecânico, metalúrgico.

— Só não tem rico — informa o publicitário Fernando Paiva, de Uberlândia.

Ele ficou responsável pela direção de arte do LP, ao lado de Mathias. Já o advogado Lo Ré fez a assessoria jurídica e dividiu a pesquisa histórica com Paulo Mathias e Luís Henrique Vieira. O disco não teve patrocínio e só está saindo porque os associados puseram dinheiro do bolso. O custo ainda aumentou em 25% na pandemia, por causa da escassez de acetato.

— Quisemos fazer um produto de primeira qualidade, como o samba merece — ressalta Paiva.

O álbum tem encarte com as letras, aponta possíveis instrumentistas e registra que todos os direitos foram pagos aos compositores. O único autor cujo nome não se descobriu foi o de “A hora é essa”.

— Ninguém é profissional de cultura. Precisamos aprender esse mundo burocrático — diz Lo Ré.

Ele, Mathias, Paiva e vários outros tocam instrumentos e compõem, mas priorizam a pesquisa. O foco principal são as escolas de samba tradicionais do Rio, como Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro. Planejam gravar um disco com inéditas de sambistas dessas escolas.

— Esse conhecimento não é nosso, é dos nossos ancestrais. Estamos há 15 anos bebendo na fonte deles — diz Mathias. — Artistas novos precisam ser respeitados, mas é importante que as pessoas saibam de onde vêm, como dizia o Candeia.

Dos sete sambas do “Portela 59”, quatro são inéditos e três tiveram ali suas primeiras versões. É o caso de “Manhãs brasileiras” (Manacéa), hoje mais conhecido pelo título no singular. “Mulher ingrata” foi gravado em 2002 pelo autor, Jair do Cavaquinho, como “Você não soube ser mulher”. Do mesmo Jair e de Beatriz Lima da Silva, “Incrível destino” recebeu gravação em 1962 em “Grandes sucessos da E.S. Portela”.

“Vultos e efemérides nacionais” (Jorge Portela e Waldomiro) foi o samba-enredo da Portela em 1958. “Bahia”, de Chatim, era um samba muito cantado na Portelinha, a antiga quadra — ou terreiro, como se chamava. “Crepúsculo” (Walter Rosa) também era muito conhecido na escola, mas como “Indumentariamente”, seu primeiro verso.

Quando esteve na quadra de Madureira, em 2018 — em visita acompanhada pelo GLOBO —, a turma do Glória ao Samba não chegou ao nome da cantora de “A hora é essa”, mas soube que o intérprete das outras faixas era Avelino de Andrade.

— Meu pai cantou em outros discos da Portela — diz Celsinho de Andrade, presidente da escola mirim Filhos da Águia. — E este ninguém conhecia. Quando soube que seis das sete faixas tinham a voz dele, aí a emoção foi maior.

Na capa do LP estão imagens de Manacéa, Jair, Chatim, Walter Rosa e figuras importantes da escola nos anos 50: Dagmar (tocava surdo), Betinho, Nozinho, Nilton Batatinha e Manuel Bam Bam Bam.

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